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Yes, I can.

Respirar. Olhar aquelas ondas, que se tornam maiores, menores, maiores, menores, maiores, menores. Deixar o sol queimar a pele, a vista e o cabelo. Deixar o sal lavar a alma. Respirar e agradecer, que a vida é feliz para quem agradece. Para quem sabe agradecer.

Passar em revista o último ano. O que fizemos de bem, de mal, de assim assim. Recordar os momentos melhores, os piores e escolher aqueles que queremos guardar na memória. No coração. Olhar aquelas ondas maiores, menores, maiores, menores e saber o que queremos que levem e o que gostaríamos que trouxessem. Sorrir por termos a felicidade de poder tomar opções. Por termos o coração cheio e a alma tranquila. Por podermos trocar as lágrimas por alegria, o cansaço por serenidade, a angústia por um sorriso.

Há tanto tempo que não te via sorrir, rir assim, disse ele. E eu ainda sorri mais, porque não me tinha dado conta de que o sorriso não me fizera falta apenas a mim.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da nova fase da minha vida. Porque remar contra a maré é difícil, mas não é impossível.

Esquece as fórmulas mágicas. Um livro, uma aula, um conselho, só servem se forem postos em prática. E os planos, como sabes, concretizam-se na medida em que levantas o rabo da cadeira. Por isso, põe mãos à obra e tenta. Mesmo que não seja o que imaginaste, a realidade vai superar sempre a teoria.

Sê atento. Se o verbo estar é temporário, o ser é permanente. Ser implica estar sempre. Olhos bem abertos mesmo que o sorriso falhe. Mantém a sensibilidade de um recém-nascido, à flor da pele, do fundo das órbitas até à ponta das pestanas. Está atento aos movimentos, não descanses. Tem a noção de que, só assim, poderás encontrá-lo.

Partilha. O copo da escova de dentes, a rodela de chourico que guardas para comer depois das favas, o filme que comecaram a ver mas que, entretanto, algum dos dois deixou por ter adormecido, a manta que, dividida, só cobre os pés. Divide o melhor de ti e aquilo que mais gostas porque isso, como um milagre, em vez de perder-se vai multiplicar-se.

Não te distraias. Mantém o foco, concentra-te no essencial, não te percas em devaneios. Vais perceber que o amor não acontece quando menos esperas mas quando não perdes a oportunidade de o agarrar.

Descomplica. A simplicidade da frase choca com a dificuldade em pô-la em prática mas é possível. Torna-a real.

Volta ao início. E faz-te ao caminho. O amor é como ele. Faz-se a caminhar.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do dia dos namorados.

Todos os dias a mesma mecânica. O dia nasce mais cedo ou mais tarde consoante a estação do ano, mas nasce sempre pelas mesmas horas. No hemisfério Norte há mais frio. No Sul, mais calor. Nos cinco continentes diferem as cores, a luz, os sabores, os cheiros e as recordações. Em cada país divergem a cultura, os hábitos, as dificuldades e as especificidades de povos, mais ou menos antigo.

Queremos que todos eles tenham lugar Na Nossa Agenda. Pelos olhos de quem os visitou, de quem lhes sentiu a essência, e a tentou retratar através de uma simples lente que encerra em si os segredos do congelar de momentos. Queremos também que, em poucas palavras nos contem a História e as estórias. Porque Na Nossa Agenda cabe um mundo inteiro de sonhos, de palavras, de imagens!

Em dias que ainda não conseguimos fixar está marcada Na Nossa Agenda uma viagem pelo mundo fora. Por diferentes caminhos, experiências e objectivos. Com novos olhares. Diferentes do nosso!Hoje o olhar só é diferente porque é o da Margarida turista e não o da Margarida jornalista. 

Foi uma das melhores experiências da minha vida. Visitar Alcatraz foi ainda mais pesado do que visitar a casa de Anne Frank, e eu não sabia que isso era possível. Chorei praticamente durante todo o tempo. Assustei-me. Arrepiei-me e dei saltos vários a cada som, a cada escuridão que se instalava numa visita que é audio-guiada por antigos prisioneiros e antigos guardas da ilha – que, diga-se, tem uma vista fabulosa sobre São Francisco.

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ImageOs jardins continuam a ser lindamente tratados – como fizeram os presos que lá habitaram por uns anos – e muitas celas foram deixadas mobiladas e ‘decoradas’ tal qual como quando Alcatraz era um presídio. As solitárias – seis, se não estou em erro – eram de cortar a respiração. O guia manda-nos entrar numa e ouve-se a porta a fechar. Sente-se o vazio, o escuro, a sensação de claustrofobia e de que o tempo pode parar sem que nos lembremos de que alguém ali está dentro.

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ImageDepois os corredores, carregados de histórias de fugas mal sucedidas – apenas uma teve sucesso – , de agressões, de mortes. As paredes marcadas pelas rixas, e as barras de ferro pelo tempo e os crimes de quem por ali passou. Alcatraz é brutal no verdadeiro sentido do termo. A visita dura cerca de duas horas – obviamente dependendo de cada pessoa, que aquilo é experiência que se faz individualmente – e a mim deixou-me quase sem respirar. O recreio dos prisioneiros tem uma das vistas mais impressionantes que já vi em toda a minha vida. E eu, que logo a seguir ia sair dali de barco, não consegui sequer imaginar o que sentiria alguém que tinha toda aquela vista pela frente e estava confinado àqueles muros e grades absolutamente gigantes.

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E os sons que entravam pelas janelas abertas? As frinchas que deixavam passar o som das festas na baía de São Francisco em noites de Natal ou Ano Novo e que entravam cela adentro por quem nem sequer podia passear no corredor?

Eu sou uma lamechas, é um facto. Mas Alcatraz é duro. E lindo, ao mesmo tempo. Era uma daquelas visitas que, se pudesse, repetia uma vez por ano. E que recomendo a todas as pessoas que lá estejam por perto.
[Este post foi originalmente publicado aqui]

Parabéns!!

Eram nervos. Da última vez que estivemos juntas, toda tu eram nervos. Normais. Os nervos de quem sabe que está a tomar decisões para a vida. De quem sabe o que não quer, ainda que possa estar ainda à procura do que quer. Toda tu eram nervos e as tuas mãos e os teus olhos não mentiam, porque tu sabes que eu sei quando tu és toda nervos. Sobretudo porque quase não acontece.

Tu raramente te deixas toldar pelos nervos – para o bem e para o mal. Mas o ano que passou, os teus 28, foram mega. O ano que passou mostrou-te uma vida que ainda não tinhas vivido. Foste uma corajosa, deixaste para trás um monte de coisas seguras que foste conquistando ao longo dos anos, e atravessaste, de malas e bagagens, um oceano que pode assustar a quem não tem garra, como tu.

Foste conquistar o teu lugar ao sol fora da tua zona de conforto.Foste descobrir que continuas a ser mega e talvez ainda melhor se não tiveres toda uma envolvente que te suporta mas também te retrai.

Os teus 28 foram fantásticos. E eu tenho a certeza de que os teus 29 também vão ser. E tenho o maior orgulho em te acompanhar nesta viagem de vida, que para nós, juntas, começou no outro dia, mas que acredito que vai durar para sempre.

Parabéns, meu querido par de mãos. Parabéns e um mega beijo. Do tamanho deste Oceano que nos separa. E obrigada por me fazeres uma pessoa melhor :)*

Entrada na Nossa Agenda a propósito do aniversário da Mariana.🙂

Parabéns!

Cinco anos. De repente passaram cinco anos e é como se tivesse sido ontem. As nossas mãos, tão diferentes, juntaram-se para fazer crescer um projecto só queria remar contra a maré. Ainda quer. A sua existência, na verdade, é prova disso. No meio de trabalhos, de novos projectos, de novas vidas, com milhares de reuniões, reportagens e oceanos pelo meio, a verdade é que voltamos sempre aqui. Como quem volta a casa.

Como na vida fora da blogosfera, tendemos às vezes a cuidar menos de quem nos diz mais. É o que tem acontecido com esta agenda que é tão nossa. Que é de nós para o mundo. E que é nos é tão querida, porque representa muito mais dos que aquilo que algum dia conseguiremos escrever aqui, seja a duas ou a quatro mãos. Por isso mesmo, repito, remamos contra a maré há cinco anos. Há pouco mais do que isso cruzámos os caminhos uma da outra e nada voltou a ser o que era dantes.

Não te minto: nunca pensei que construíssemos o que temos hoje. Aquilo que era só uma afinidade de trabalho, de letras, de escrita passou a ser de vida. Todos os dias te sinto a falta, mesmo sabendo que nunca estás longe. Porque tu és assim: sabes fazer-te presente mesmo quando não o tentas fazer.

Hoje os parabéns não são para a Nossa Agenda – está tão crescida, já viste? Hoje os parabéns são para ti. Porque é o segundo aniversário da pequena que passamos à distância de um Oceano. E isso significa que se nós não conseguimos remar contra marés, dificilmente alguém mais conseguirá!

Parabéns! E que 2014 nos inspire a escrever mais e mais estórias. Não importa de que lugar.

Falem bem, caramba. Não se diz “há quatro anos atrás”. Tenham vergonha. Não dêem a emigração como desculpa para a abstenção num país de greves mensais e de queixas hora a hora. Num país assim, as pessoas deviam fazer fila à hora de abertura de urnas, porque sentem que há alguma coisa para mudar e porque têm o direito de se sentir participantes de um sistema que podem mudar. Não, não e não. Não venham com histórias de que a chuva e a praia e o vento e as dores de barriga e o preço da gasolina e o raio que o parta são desculpa para não irem votar. Tenham tino. Deixem de se queixar das irresponsabilidades dos políticos e olhem mais para dentro. Quantos, de vossa casa, têm mais de 18 anos e foram votar?

Olhem para os números: já bastam os declarados mortos que estão vivos e os mortos-vivos chamados às urnas. É assim tão grande o esforço de largar o Facebook e voltar àquela escola primária onde aprendemos a ler para sentir que também nós somos responsáveis pelo nosso futuro? Basta. Chega desta apatia desmedida que nos retira a capacidade de sermos mais. Chega de dar desculpas esfarrapadas para não fazer aquilo que nos cabe. Todas as razões são boas para sair de casa, e esta ainda melhor. É nestes dias em que podemos contribuir para alguma coisa que devemos fazer uso do nosso egocentrismo diário: sair de casa por nós.

Está tudo bem com as pessoas? Já chega de deixar a nossa vida nas mãos dos outros e, por cima disso, ainda dizer que não podemos fazer nada. A culpa disto também é nossa, muito nossa. Será que ninguém se dá conta? Caramba, que autoridade a nossa de estar sempre a criticar sem tentar olhar para o outro. Mexam esse rabo. E não me venham com histórias.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito disto. Que tristeza.  

Um vazio imenso. Um vazio ensurdecedor quando se olha, quando se absorve, quando realmente se tem a noção da dimensão. Um vazio quebrado – mas que não se enche – apenas por um som, constante, cheio, contínuo que se entranha na nossa pele, nos arrepios que não conseguimos deixar de ter porque finalmente se sente. É um vazio gigante, que nunca achei que fosse possível sentir. Um vazio num lugar cheio de gente, cheio da memória terrível de um dia que nunca vamos, que nunca podemos esquecer.

Sentei-me num dos poucos bancos que ali colocaram e fiquei de frente com a pequena árvore sobrevivente. Sinal de força e de resistência, com as suas folhas frágeis e os seus ramos presos por fios, porque sozinha não consegue medrar. Novamente. Pela terceira vez. E as folhas, verde claro – percebi finalmente por que o verde é cor da esperança – a mostrar que afinal a vida continua a ser possível mesmo depois de tantas mortes. Senti no coração o aperto de quem não perdeu alguém próximo mas de quem nunca conseguiu entender o que se passou. Como se tiram vidas assim, gratuitamente, sem remorsos. Senti os olhos encherem-se de lágrimas e fiquei presa a um chão que acolheu demasiados cadáveres para voltar a ser, algum dia, o que foi em tempos.

Quis ficar ali quieta, com o rosto salgado, como se conseguisse que, de alguma forma, o tempo voltasse para trás e afinal não fosse vazio o que sentia em meu redor. Para sempre.

É que, desde que se saiba (mesmo que, em linhas breves, o que se passou naquele Setembro que não foi de recomeço e que, ao mesmo tempo teve que ser) emociona pensar naquela aflição sem medida, nos gritos de horror e de medo, nos batimentos cardíacos mais acelerados e nos flashes de memória que passaram naquelas cabeças, em frente àqueles olhos fechados, a pensar na morte. Foram tantos, demasiados, os que ali ficaram para sempre, deixando a marca no país e no mundo. Há sítios que acolhem e nos marcam pela estranheza do corpo ali parado, a admirar a harmonia dos pilares da reconstrução, como se fosse só o edifício que ruiu. Mas só quem não sabe pode esquecer que, naquele onze de Setembro, ruíram ali histórias de vida que não tiveram o dia de amanhã para recuperar o tempo perdido em jornadas sem sentido.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito dos doze anos do 11/9. Que há memórias que nunca passam, por mais que passe o tempo.

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