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Archive for Julho, 2010

Da vida

Don’t be afraid of death so much as an inadequate life. (Bertolt Brecht)

Sentado, tentou concentrar-se nas linhas que sabia saber de cor. Olhou as mãos, trémulas como sempre, à espera de que elas aquecessem. Sabia que isso não acontecia até ao momento exato em que os seus olhos batiam no do público. Estava gelado. No corpo e na alma cansada de lutar por uma vida que quis sempre melhor.

Preciso de continuar a trabalhar para poder continuar a lutar, disse uma vez. Talvez não fossem bem estas as palavras, mas era isto que queria dizer. Mais do que um gostar, do que um sentir, do que um viver, aquela era a sua maior arma, o seu maior tesouro, a sua maior riqueza.

Incansável na sua [recente e assustadora] palidez, arrancou risos e reflexões sobre tudo e sobre nada. Sobre a vida e sobre a morte. Sobre o rir e o chorar. Sobre o ser e o tentar.

Não tinha medo da morte. De certeza que não. Tinha sim medo de ficar sem a vida. A dele e a de cada personagem que encarnou a cada palco pisado, a cada trecho ou verso ou frase percorridos. A cada abrir de pano e a cada aplauso sentido. A cada olhar e a cada sentimento sentido. O dele ou o dos outros.

Porque ele foi sempre mais do que um. Foi imensos. Que deixam vazios a multiplicar.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte do ator António Feio (1954-2010).


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“O prof.  Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.
«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.
Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.
As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.
Os cozinheiros desta magna “fast food” intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema.
Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»
O problema central está na família e na escola.
«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.
Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»
Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado “Os Abutres”, afirma:
«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.
A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.»
O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.
«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»
Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.
«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.

Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.
Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê.
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».
As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.
«Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência.

A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.
Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.
Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam.
É só uma questão de obesidade.
O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.
O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.
Precisa sobretudo de dieta mental.”

*Por João César das Neves

26 de Fev. 2010

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