Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Julho, 2009

Porque é que eu estou aqui?,mãe! O mundo visto através de um vidro, os tubos todos – tantos – que me incomodam, que me não deixam ser livre. Porque é que tenho a sensação de estar insuflado?, mãe, ao contrário dos meus amiguinhos. Colegas. Ainda sou tão pequeno para ter amigos. Mas porquê, mãe? Porque é que eu pareço um balão que se esvazia mal caia no chão – numa daquelas brincadeiras de que gosto tanto – e os meus amigos parecem tão fortes, tão capazes de resistir a tudo. Porque é que eles andam lá fora e eu, eu, mãe, venho ao hospital tantas vezes?

Porque é que eu tive tantas doenças e nenhumas imunidades? Porque é que tu, mãe, não gostas de me ter no teu regaço e de me alimentares de ti? É tão bom, mãe. Tão bom estar nos teus braços, no teu colo, no teu carinho. É tão bom sentir o teu cheiro, mãe. Porque é que  te custa tanto? Porque é que não te lembras de mim, aqui, agora? Não achas que isto custa mais?…

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Amamentação pode salvar 1,3 milhão de crianças por ano, diz OMS

Fonte: Estadão

http://www.estadao.com.br/internacional/not_int411450,0.htm

Anúncios

Read Full Post »

A primeira vez que peguei numa tesoura, cortei um dedo. Sujei a roupa, irritei-me, esperneei, gritei. Corri para a sala, com cheiro a desuso, à última prateleira do armário ao. Não cheguei à primeira lá acima. Era baixo demais. Subi a uma cadeira, e também não foi dessa. Chamei pela minha mãe, que chegou a correr, preocupada. Tinha visto gotas de sangue no tapete da entrada. Ouviu-me gritar e correu a ajudar-me. Passou-me a caixa de primeiro-socorros, arrumada no fundo da última prateleira. Acenei-lhe que não com a cabeça. Eu não queria desinfectar a ferida. Queria sim, uma seda que ela guardara ali. O vermelho que escorria das minhas mãos – decerto – ficaria lindo naquele branco imaculado. A ideia poderia parecer mórbida, mas desde os primórdios – lera eu nos livros, às escondidas, debaixo da cama – que gerações atrás de gerações, tingiam tecidos com sangue. Não era pioneiro, bem sei. Mas nem a minha mãe sabia disso. E ela era aficcionada por moda. Vivíamos em Paris, a capital. De resto, só saí da cidade luz para estagiar em Milão, capital das capitais da moda. Só por uma promessa assim eu poderia trocar os Campos Elísios e o jardim do Louvre. Temporariamente. Organizei desfiles, ano após ano. Colecção atrás de colecção. E desde o primeiro dia que soube que realizava o meu sonho, todos os dias. Com todos os cuidados, dei forma às minhas ideias mais vanguardistas. Apliquei em tecidos penas, plásticos, brilhantes. E até vidro. Coisas que nunca ninguém se tinha atrevido a fazer. E agora, que vejo que a marca se desmorona, continuo a achar que ainda me falta tanta coisa. E continuo apaixonado pelo concretizar do meu sonho a cada dia. Não sei viver sem moda. Posso continuar a viver assim?

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Christian Lacroix pelea por mantener viva su firma de lujo

El diseñador negocia con el Gobierno un plan para evitar la suspensión de pagos

http://www.elpais.com/articulo/revista/agosto/Christian/Lacroix/pelea/mantener/viva/firma/lujo/elpeputec/20090730elpepirdv_14/Tes

Read Full Post »

A adrenalina estava no expoente máximo. Nem sabia por que demorara tanto tempo a descobrir como era bom naquilo. E no bem que lhe fazia. Devia ser a isto que as pessoas chamavam de felicidade, não é? Gostar de fazer algo e ter o maior prazer do mundo a fazê-lo. Todos os dias. A fazer disso a sua vida. Se a sua amiga S. estivesse ali diria que ele estava num estado quase “orgásmico”. Ela usara a expressão tantas vezes e ele nunca entendera. Mas agora sim. Agora percebia perfeitamente o que queria dizer com aquilo.

Quando se iniciara naquela vida achava que os sacrifícios seriam muito maiores que os benefícios. As horas certas para dormir. Para treinar. As ementas pré-definidas, os treinos escrupulosamente preparados. A vida social que de alguam forma deixava de ter. As viagens. O corpo dorido e sem vontade de fazer coisa alguma.

Mas não, nada era melhor que adrenalina de sentir o carro nas suas mãos, em todo o seu poder e esplendor. Era como se o mundo todo estivesse a seus pés, como se sentisse o rei do Universo, durante o tempo que durava cada corrida, cada Grande Prémio. Entendia agora Senna, Shumacher. Entendia cada sorriso rasgado no pódium porque sabia que a vitória era a demonstração do seu próprio poder. E tinha perfeito controlo. Nunca lhe aconteceria o mesmo. Não teria o mundo parado, expectante, como lhe acontecera quando ainda era tão pequeno. Não teria o mundo gelado, de lágrimas gordas a cair-lhe pelos rostos anónimos.

Sim, era disto que ele precisava. A adrenalina do momento…

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Massa abandona la UCI

El brasileño, que sufrió un brutal impacto durante el Gran Premio de Hungría, mejora y podría viajar a Brasil en las próximas semanas

Fonte: El País

http://www.elpais.com/articulo/deportes/Massa/abandona/UCI/elpepudep/20090729elpepudep_8/Tes

Read Full Post »

Os passos ecoavam pelo corredor sombrio. Até o barulho era gelado, reverberando nas paredes grossas, de pedra cinzenta. Ela caminhava, de cabeça baixa, a arrastar um hábito pesado, mas que lhe valia nos dias de frio, como aquele. No Verão continuava a valer-lhe. As paredes eram tão espessas que nunca chegavam a aquecer, mesmo que o sol se esforçasse, incansável, durante os meses de Verão.

O cabelo, escondido sob o manto, era castanho, liso, sedoso. Nunca descurara o cabelo, seu precioso tesouro. O único que tinha perto. Tudo o resto deixara de fazer sentido. Deixara de existir, naquele mundo novo para o qual decidira ir. Cuidava do cabelo com o carinho imenso que tinha por todos os que deixara do lado de fora da imponente porta de madeira que há tantos anos se fechara nas suas costas. A decisão, firme, não fora por isso menos dolorosa. As mesmas paredes que lhe gelavam os ossos guardavam as angústias, a dor da separação, o sofrimento da solidão que tantas vezes se apoderara dela. E guardavam a felicidade de uma vida entregue aos outros. E a Quem realmente tudo lhe acolhera. Sempre.

As mãos, compridas, finas e brancas, anunciaram, há muitos anos, que seria uma excelente pianista. E fora. Aliás, era. Continuava a usar o piano do Convento para gáudio das suas companheiras, que ficavam à escuta sempre que viam sentar-se no pequeno tamborete. Não tinha partituras novas, mas tinha muito boa memória para ir repetindo as antigas, que tocara durante anos na casa de seus pais.

Os pretendentes, descartara-os a todos. E tinham sido vários. Encantados pela sua delicadeza, pela beleza, pela graciosidade e educação. Chocara a pequena aldeia quando anunciara a sua decisão, mas não havia nada que a pudesse fazer mudar de ideias. Era ali, naquele imponente edifício no meio das “Terras do Demo” que queria viver para sempre. Mesmo que as paredes fossem frias, o lugar amaldiçoado, e que estivesse confinada a um hábito de lã grosseira e pesado durante o resto da vida.

Chegou à capela, no fundo do comprido corredor, e abriu a porta. Sorriu ao olhar para as companheiras, alinhadas para o ensaio diário do grupo coral. Não, estas não são as “Terras do Demo”. Ou não seria possível sentir esta felicidade que teima em aumentar a cada dia que aqui passo. Lançou um olhar – que não sabia ser o último – pela janela e deliciou-se com as frondosas árvores em contraste com o céu azul daquela primavera. E continuou a sorrir. Sabendo que um dia a História ia contar a(s) sua(s) estória(s).

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

O último mosteiro de Cister vai voltar à vida

Fonte: Público

http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain.asp%3Fdt%3D20090728%26page%3D6%26c%3DC

Read Full Post »

“…only he who is willing to give his body for the sake of the world is fit to be entrusted with the world. 

Only he who can do it with love is worthy of being the steward of the world.”  Tao Te Ching

mucc

Um mundo como um palco. A dança como uma forma de expressão. O corpo apenas como meio para chegar a um fim (até chegar ao fim em si mesmo). O corpo já deformado da dança, foi atirado para uma cadeira de rodas há dois anos. Ao contrário, a cabeça conservava as ideias mais jovens do mundo. Haverá coisa melhor que conservar a juventude do pensamento? (ainda que a frescura dos movimentos não seja a de sempre?) É certo que não. Como também não será fácil para quem tem a dança como forma de vida, ver limitada a maneira através da qual melhor comunica. Perde-se o elo de ligação com o mundo, e a vida perde o seu sentido maior: fazer feliz um corpo escravo da arte. 

Teve uma vida longa e uma carreira artística consistente – mas os 90 anos não chegaram para fazer senão eternizá-lo. Ficarão os seus movimentos guardados na memória de quem os viu? Serão eles a prova de que as palavras são apenas uma das maneiras de comunicar com os outros? Ficará a dança menos livre sem Merce Cunningham? Decerto que sim. Perderá um dos seus maiores apaixonados. E quando isso acontece, vai um pedaço dela para com o coração partido.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte do bailarino e coreógrafo norte-americano Merce Cunningham. O bailarino, um dos símbolos da dança moderna, morreu ontem aos 90 anos. (abaixo, algumas das referências).

 http://www.merce.org/

http://www.elpais.com/articulo/cultura/Muere/Merce/Cunningham/explorador/movimiento/elpepucul/20090727elpepucul_3/Tes

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1393522&idCanal=14

http://www.guardian.co.uk/stage/2009/jul/27/choreographer-merce-cunningham-dies

http://www.nytimes.com/2009/07/28/arts/dance/28cunningham.html?_r=1&hp

Read Full Post »

Gritos surdos

Ainda namoravam quando a decisão tinha sido tomada. Aliás, nem fora objecto de questionamento. Era quase como que um dado adquirido, proveniente de várias gerações. Não havia discussão. Ela não gostara muito, ao início. Aliás, sempre dissera que nunca o faria. Acabara por se deixar levar pelas suas convicções e pelo brilho nos olhos que anunciava os melhores anos da vida dele. E sabia que também aquilo tinha sido importante na sua formação, na forma como ele era, naquilo por que a fizera apaixonar-se tão irremediavelmente.

Foi com um nó na garganta que se despediram dele, no primeiro dia. Sabiam que ele estava em boas mãos, mas era o seu menino. Custava sempre. Viram-no ir, cheio da mesma alegria com que o pai, vinte e sete anos antes, tinha entrado por aqueles portões. Voltamos em breve, querido. Saudades.

Chegaram os finais de semana em que era preciso ficar lá. Ou que ele queria ficar. Deixa-o – dizia ele -, eu também adorava lá ficar. Eram os dias com menos regras, em que podíamos realmente estar com os amigos. Está tudo bem e sim, ele continua a gostar de nós. Acariciava-lhe o cabelo, espalhado no seu colo. Ela não se convencia. Tinha uma sensação de mau-estar que a não largava. Vá, levo-te a jantar fora para esqueceres isso. Aproveitamos nós para namorar enquanto ele não está!

Depois vieram as mudanças de comportamento. Ele perdera a alegria esfuziante que sempre lhe conheceram. É a adolescência, diziam os amigos, pais dos mais velhos. Daqui a um ano ou dois isso passa-lhe! Eles já não sabiam o que fazer. Sentiam falta do sorriso, das conversas, das brincadeiras em família que agora eram trocadas por tempo sozinho no quarto de sempre. Não sabiam quem eram os amigos, não sabiam o que era a sua vida durante todos os dias em que estava longe. Mas viam-lhe a tristeza no olhar e não conseguiam dar respostas. E aquela sensação estranha que não passava. Que aumentava a dor no peito todas as noites.

[…]

Ele entrou no quarto e sentou-se à beira da cama. Colocou-lhe a mão no braço. Querida, precisamos de conversar… Abriu o jornal e, com as lágrimas caindo-lhe sobre o rosto, mostrou à mulher a mesma notícia que o deixara nauseado. E a sentir-se culpado. Terrivelmente culpado por nunca ter escutado os gritos surdos do filho, a mostrar-se tão diferente…

A culpa não é tua. Não é tua – conseguiu ela reagir entre soluços angustiados e dolorosos. Agora é nele que temos que pensar. Os dois. E eu preciso de ti para isto. As usual.*

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Pedófilo do Colégio Militar pertencia a um grande escritório de advogados

Fonte: i

http://www.ionline.pt/conteudo/15026-pedofilo-do-colegio-militar-pertencia-um-grande-escritorio-advogados

*Como sempre

Read Full Post »

A fita no cabelo ajuda a apanhar os fios rebeldes que o vento teima em despentear. Tudo nela é regra. As pernas musculadas são anos e anos de ginásio bidiário. De cada vez que se levanta, nos dias que mais custa, pensa no objectivo: chegar à meta mais depressa do que da última vez. As roupas justas e coloridas ajudam, mais do que a chamar a atenção – a vê-la e reconhecê-la ao longe. É fácil qualquer um saber de quem se trata. Bebe muita água, não fuma. Não bebe alcoól. Tudo na vida dela são regras. As horas a que come. A hora de dormir – muitas vezes, sem sono. A hora de receber os amigos em casa. A hora de escrever, de ler. De treinar. Admira grandes atletas. Grandes filósofos. Escritores que escrevem sobre sonhos. Bandas que os cantas nas suas canções. Poetas que os concretizam em palavras. E admira-se a ela. Própria (“se eu não gostar de mim, quem gostará?”). Ou melhor: odeia-se. Não no sentido de não gostar de si. Mas no de quem compete consigo constantemente. Essa é a única coisa que não tem horas, nem dias, nem marcação na agenda dela. É uma constante. Autosupera-se mais uma vez. E outra. Sempre a grande velocidade. 

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

ATLETISMO | 3.000 OBSTÁCULOS

Marta Domínguez, récord de España y mejor marca mundial 3.000 obstáculos

http://www.elmundo.es/elmundodeporte/2009/07/25/masdeporte/1248551908.html

Read Full Post »

Older Posts »