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Archive for Abril, 2012

Mundos

Primeiro foi o espanto. Depois a resignação. Olharam em volta, tentando encontrar no outro o conforto que também procuravam neles. De repente um mundo de letras, de estórias, de conhecimento, de entrega, de dedicação, era deitado fora. Dispensado, como se dispensa algo indesejado.

As pilhas de jornais, amontoados em cima, em baixo ou ao lado de cada secretária, contavam muito mais que as histórias que tinham impressas. Os computadores, as máquinas fotográficas, as agendas riscadas de tantas cores eram tão mais do que apenas registos físicos dos tempos que passaram juntos. Das adversidades. Das lutas.

O silêncio instalou-se no arauto do ruído. Até as teclas pareciam fazer menos barulho, enquanto nas cabeças de todos a mesma imagem lhes passava diante dos olhos: como chegámos até aqui? O que vou fazer da vida? Como vai ser? Que páginas poderei encher?

Olhos rasos de lágrimas deturparam as imagens de computadores velhinhos, receptáculos de crises, de novidades, de grandes investigações, de desafios. O mundo a que tinham dado tantos mundos acabara de se desmoronar. E pouco sentido fazia continuar sentados a uma secretária que nunca mais poderiam chamar de sua.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

El Mundo prepara despedimento coletivo de um terço dos seus 600 colaboradores

http://www.ionline.pt/media-televisao/el-mundo-prepara-despedimento-coletivo-terco-dos-seus-600-colaboradores

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Ela chorou quando soube da notícia. Tinha medo – como toda a gente tem – do desconhecido. Ele não. Ele sorriu porque a ideia já tinha aparecido, bem antes das notícias tristes.

Ele e ela costumavam preocupar-se em fotografar os momentos importantes e os outros. Aqueles a que uma pessoa normal não liga de tão…normais. As tardes de domingo a roubar a manta um ao outro no sofá apertado da sala em que cabiam os dois a custo. Ou os almoços esporádicos em que, ambos faziam um esforço nas agendas e conseguiam almoçar juntos em casa. Bob tinha registo da primeira vez que foram ao cinema – ele fotografou os dois bilhetes – ela não quis o dela, que não gostava de “guardar lixo”; depois, surpreendeu-a com a fotografia numa moldura com flores em relevo, pintada de branco. E com uma dedicatória no verso que dizia. És o meu filme preferido.

Naquele dia – como dizia – ele não se assustou porque sabia o que a ia curar. Rir ia curá-la. Deu-lhe um abraço, limpou-lhe as lágrimas e arrastou-a, a custo, para casa. Depois seguiu para a pequena retrosaria do bairro onde pediu à menina do balcão tule. Três metros de tule cor-de-rosa. Naquela noite, depois do chá de camomila, levou-a ao colo para a cama, deu-lhe um beijo de até já e fugiu para a sala. A cama foi ficando quente, os lençóis aquecidos por ela. E ele longe, sentado à mesa, computador de um lado, máquina de costura do outro. Procurou instruções, mediu a cintura, cortou o tecido com cuidado. Já era de manhã quando conseguiu vestir o tutu. O tutu cor-de-rosa. Nessa manhã, quando ela acordou, ele sentiu-a chamar. De tutu vestido – só de tutu vestido – agarrou no tabuleiro com o pequeno-almoço e levou-lho à cama. Pousada numa mesa, a máquina fotográfica, com a primeira fotografia de tutu cor-de-rosa vestido.

No dia seguinte, apareceu-lhe com outra moldura – branca com flores de relevo -, com a fotografia emoldurada. No verso, escreveu. És a minha dança favorita.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do projecto “The Tutu Project”. Saiba mais aqui.

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A ideia era fazer uma espécie de sequência. Gravar à medida que surgem. Na cabeça, nos ouvidos, no coração. Primeiro avisa-se que vai acontecer. Cria-se expectativa. Coloca-se as pessoas a trautear as músicas antigas. Rising. Como a Primavera. Rising. Como o sol que teima em não chegar, porque as nuvens, escondidas durante todo o Inverno, quiseram trocar as voltas às estações.

Alinham-se, também elas, em crescendo. Um crescendo contínuo, sem limites físicos porque na época do digital é tudo mais fácil. É uma extensão. Faz parte do conceito. Crescendo. Rising. Para além de tudo o que já se tinha ouvido agora é para dançar. Ballroom Theme. Em crescendo. Num som que transcende as barreiras e salta para o mundo dos sons. Intocáveis. Sensitivos. Como as estações do ano.

Que se sucedem. Como a Primavera e o Outono. Tudo o que sobe, desce. Rising. Falling. Uma história em sons. Sons em crescendo. Sempre em crescendo, mesmo quando falarem em diminuendo. Daqui a uns meses. Depois do Verão passar.

Entrada na Nossa Agenda a propósito do lançamento do primeiro tema extra, em formato digital, do álbum ‘Rising’, de David Fonseca.

http://www.imagemdosom.com/index.php/noticias/960-musica-extra-de-qseasons-risingq-de-david-fonseca-disponivel-dia-23

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Não, não és má amiga. Mas tens falta de tempo. E isso às vezes é chato. Porque te sentimos a ausência de forma mais particular. Gostava que pudesses jantar e lanchar sempre comigo quando te proponho. Na maior parte dos dias não podes. Sei que o não fazes por mal, mas porque tens o tempo contado. Mas às vezes temo que te estejas a perder em caracteres diversos e esqueças que os beijos e os abraços também te dão a ganhar. Não em euros, é certo, mas em conforto.

Às vezes precisamos dos teus beijos e dos teus abraços. Ou somente da tua presença, que tu não és lá muito dada a carinhos. Mas não faz mal. Porque a tua presença enche uma casa de sorrisos e de boas energias. Apreciamos a tua presença ao jantar, mesmo quando falas menos do que nós – quase sempre – e te ris dos nossos disparates. Não, minha querida, tu não és uma má amiga. Bem pelo contrário, és uma das melhores.

Mas não te esqueças de arranjar, mesmo que na tua agenda mega cheia, um tempo para podermos ter-te presente, não porque te sentimos, mas porque te vemos. Pode ser?Prefiro-te cinco minutos em físico que uma hora em caracteres. E por isso mesmo, por seres tão boa amiga, nos fazes falta. Aqui ou em Londres ou em qualquer outro recanto do mundo.

:*

Entrada na Nossa Agenda a propósito da falta de tempo que, entre outras coisas, nos tem mantido longe deste blogue.

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