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Archive for Junho, 2010

A chuva batia-lhe na cara,descompassada como os passos que ouvia atrás de si! Ecos estranhos de um som conhecido que sabia acompanha-lo enquanto vivesse.

Franzia a testa a cada segundo,enquanto tentava focar as imagens distorcidas pelo cansaço e pelo cinzento de um céu impiedoso.

Estava cansado mas toda a adrenalina se concentrava num único objectivo: fazer mais e mais e mais.

Sentia a fúria dos adversários misturada com a inveja saudável dos colegas. Sabia que merecia todos os sentimentos que lhe votavam; não era cínico ao ponto de o negar. Mas também sabia que precisava de fazer por merecer tudo o que fazia sentir aos outros, tudo o que tinha, tudo aquilo em que se tornara!

Estacou, muito direito, a tentar ler a situação na pose de falcão atento e feroz.

Era agora ou nunca – a intuição invadia-o numa espécie de guia fiel e infalível – pensou.

E a opção tem que ser sempre pelo agora!

Entrada na Nossa Agenda a propósito de Cristiano Ronaldo no Mundial 2010

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Olhou pela janela como sempre fazia de madrugada. Acordara cedo, como geralmente acontecia no Verão, com os raios de sol brilhantes a despertarem a sua fome de vida!

Depois de um pequeno-almoço reforçado, decidiu que era hora de continuar. Foi até ao jardim e olhou para o mar, tão imponente, tão inspirador, tão asfixiante, às vezes.

Olhou na direcção do país que deixara há anos e que ainda hoje se rendia às suas obras, à sua inteligência de génio incompreendido por uma sociedade que o não merecia, acreditava.

Deveria ter nascido 20 anos depois do ano que o vira chegar ao mundo, pelo menos. Para que todos entendessem a dimensão daquilo que tentava mostrar por palavras tão soberbamente alinhadas.

Estava cansado. Já o dissera antes e ninguém o levava a sério – porque era um génio e aos génios ninguém leva a sério!

Continuavam a sorver-lhe o pensamento, as ideias, a arte. E ninguém acreditava em que um dia ele fosse desaparecer. Mas ele mostrou-lhes que os génios ganham quase sempre. Ele decidia quando partir, mas deixava em todos a sua marca indelével. E assim desaparecia e permanecia.

Como desejara.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte do único Nobel da Literatura portugûes, José Saramago.

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Terra firme

Senti o sal a secar-me a pele, como sempre gostei. O sol, lá no alto, queima-me a pele ressequida pelos dias de solidão e esforço e violência dos elementos. O cabelo passeia-me solto pelos ombros enquanto espero que o tempo passe. A viagem continua calma, 60 dias depois.

A vista é absolutamente deslumbrante daqui, e a maravilha é que não preciso nem posso partilhá-la com ninguém. À minha volta há uma imensidão angustiante e um espaço libertador que me faz não querer estar aqui de outra forma que não esta.

[…]

Venceste-me no duelo mais temível e previsível. Não estava preparada para ele porque te sei sempre mais forte e mais destruidor. Obrigaste-me da forma mais honrosa a abandonar o desafio pelo qual abandonei terra segura e me lancei no meio de ti com a certeza de que seria capaz.

Agora é terra firme. Terra firme ate ter coragem de voltar a enfrentar o vazio de azul que me venceu.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Velejadora de 16 anos já foi resgatada

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1591864

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Nasceu na Maia, estudou em Lisboa e faz sucesso no Brasil. Hugo Veiga tem 29 anos e “um espírito insatisfeito”. Há quase cinco anos que vive em São Paulo, onde é redactor da Ogilvy, uma das mais conceituadas agências de Publicidade do mundo.

Mas a história deste criativo começou com um nome diferente, há seis anos. Hugo Veiga é o Professor Carago, “grande médium, vidente, curandeiro e copywriter”. A apresentação está num papelinho em tudo semelhante aos que os verdadeiros médiuns distribuem no metro de Lisboa. Tem fotografia, número de telefone e uma descrição dos serviços oferecidos: “O poder do Professor Carago destrói rivais da criatividade e protege negócios da sua empresa e clientes…”

Distribuídos estrategicamente à porta de agências de publicidade, os anúncios valeram-lhe várias entrevistas e consequentemente várias propostas de emprego.

Seria a primeira de muitas ideias de sucesso. “Se não te sabes vender, como é que vais vender um produto?”

Um estágio de seis meses no Brasil foi o prémio de um concurso de jovens criativos ao qual concorreu três vezes antes de ganhar. O estágio “correu tão bem que eles me chamaram, depois. Estava há seis meses aqui, na TBWA, em Lisboa, quando me fizeram a proposta”. E ele não resistiu, sabendo que estava a ir “para ficar e fazer muito mais”, conta numa mistura de pronúncia do norte e de Brasil, por entre um gole de café e a paisagem do Chiado.

Desde então vive numa cidade com mais habitantes do que Portugal, onde tem construído uma carreira consistente e até premiada, ajudada sempre pelo seu estado de espírito. “Vou vivendo, vou trabalhando, vou curtindo”, para garantir a continuidade do sucesso, brinca.

E reforça, mais a sério, que “para te manteres numa grande agência tens que ser premiado. Não tem outro jeito”, recordando que “os maiores prémios que tive, em termos de grandiosidade, foram dois ‘Grands Prix’, que curiosamente não foram dados por publicitários”. Um deles – por um anúncio televisivo para o Exército da Salvação – foi votado pelo público. “E é engraçado como sendo português eu consigo comunicar com e agradar aos estrangeiros”. O outro, um anúncio para uma produtora de som, ganhou a preferência dos colunistas da imprensa brasileira, no final de 2009.

A viver num dos países que mais bem paga no mundo da publicidade, a trabalhar numa das mais conceituadas agências e a viver numa das cidades que mais contribuiu para o PIB brasileiro, Hugo acredita que em Portugal é preciso fazer mais e protestar menos para que as condições de trabalho e de vida melhorem. “Toda a gente diz que as coisas estão mal, mas ninguém faz nada para mudar”.

As vitórias profissionais atenuam as saudades da família e dos amigos de sempre, e vão sendo partilhadas com aqueles que agora fazem parte da sua vida. “Tive a sorte de fazer grandes amigos no Brasil. Lá, sinto que tenho uma família. De amigos, mas uma família”. E namorada. Um compromisso que foi adiando porque nunca sabia quando poderia voltar a Portugal, mas que fez sentido quando percebeu que o Brasil não vai sair da sua vida tão cedo.

Quanto à distância que o afasta dos que por cá ficam, lembra que apenas “a percepção de proximidade é que muda. Eu estou aqui mesmo ao lado. Estou a doze horas daqui, já com a ida ao aeroporto e tudo. Não estou assim tão longe”, diz a sorrir.*

Entrada na Nossa Agenda a propósito de todos aqueles que vivem a sua vida, com sucesso, longe do país que os viu nascer.

*Texto publicado na NS 230 de 5.06.2010

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