Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Fevereiro, 2009

O inventor*

Atrás dele as folhas das palmeiras dançam ao sabor do vento. O mar está calmo e repleto de pontinhos coloridos. Bikinis, calções de banho, chapéus de todos os tamanhos e feitios. O sol é abrasador e deixa tudo com um tom ligeiramente amarelado. Em alguns locais, a luminosidade é tanta que ele perde as próprias invenções.

Pede mais uma cerveja. Olha novamente para o computador e apaga todas as linhas que escreveu durante a tarde. Não é isto.

A intenção não é chocar. É mostrar que está chocado. Não é descrever uma realidade concreta. É inventar uma, mesmo que seja cruel. Forte. É mostrar como é a sua visão infantil no mundo imenso de expectativas que lhe puseram sobre os ombros.

Porque é que alguém tem que ler os meus livros? A verdade é dura e crua: é muito melhor escrever quando sabemos que ninguém nos lê. O discurso flui coeso e sem linhas apagadas. Não importa que esteja errado. Só nós é que sabemos e entendemos o erro.

 

Mas agora a responsabilidade é maior. O mundo espera algo mais. O mundo aclamou. Criticou. E amou.

Agora, chegou a altura de estar chocado pelo choque que conseguiu provocar. Agora o mundo é dele. Ou pode vir a ser!

Entrada na Nossa Agenda sobre a notícia:

João Paulo Cuenca

O homem que inventa as mulheres

Fonte: Ípsilon – Público on line

http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=224457

*Baseado no título original da notícia.

Anúncios

Read Full Post »

My father´s wives*

Lisboa, Chiado, Fevereiro de 2009

Sai rapidamente do metro, livro metido debaixo do braço num encaixe quase perfeito. Gosta de caminhar assim sempre, mesmo que não tenha hora marcada na agenda, nem combinação com algum amigo. Anda assim simplesmente porque gosta de correr pela calçada portuguesa, envelhecida por tantos pés que por ali passaram. Poetas, escritores, filósofos, contadores de histórias. Calçada tão lusa que impressiona os estrangeiros. Calçada que escorrega quando a chuva teima em não parar num inverno que tarda em ir embora. Calçada que gela em noites frias. E ferve em dias de sol. Calçada que reflecte a luz de Lisboa, que tanta falta faz aos que não estão. Calçada portuguesa é chão da língua da saudade, do fado, de Fernando Pessoa e das pessoas que ele era também. É base sólida dos poemas de Camões, da prosa infantil de Sofia, das linhas despontuadas de Saramago. Calçada portuguesa é suporte de um povo e de uma língua que se querem tão portugueses.

Quando ele sai do metro. Apressado. Livro na mão. Ponho-me sentado no degrau, apoio-me o queixo da palma da mão e olho-o de esguelha. Daquela calçada, naquela escada tão portuguesa que sobe da Baixa para o Chiado, pergunto-me que livro irá ele a ler. Que livro guardará ele debaixo do braço. Tão perto do coração. 

*Adaptação do título original do livro “As mulheres do meu pai”, de José Eduardo Agualusa

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Prémio Independente de Ficção Estrangeira 2009
“As mulheres do meu pai”, de Agualusa, nomeado para prémio britânico
Fonte: publico.pt
 

 

 

Read Full Post »

Nome: Justiça!

Foram anos terríveis. Sangrentos. Durante dias, semanas, meses, o sangue de milhares de pessoas correram pelas ruas. Todos os media europeus, americanos, latino-americanos estavam lá. Durante tanto tempo o assunto fez parte da agenda mediática do Mundo. Equipas de repórteres, tantas vezes de produtoras independentes arriscaram-se nas fronteiras para conseguir passar ao vivo e a cores aquilo que estava a acontecer.

 

Dizem que persegui albaneses. Como se eles me interessassem. Quiseram julgar-me sob a pomposa acusação de crimes contra a Humanidade. A mim, que fui presidente da Sérvia. Quiseram igualar-me a Milosevic. Com a diferença de que eu sobrevivi enquanto ele não aguentou a pressão do cárcere.

Como se declara o réu?

Inocente, Meretíssimo.

 

Enquanto houver esta justiça no mundo, não importa quantos julgamentos são levados a cabo. Não importa quantos assassinos são descobertos ou quantos fogem. Não importa morrer ou sobreviver. Ser inocente ou culpado. Não importa a (não) vida daqueles que não escolheram nascer em países em guerra.

Tal como aconteceu com os autores do Holocausto. Tal como acontece nos Balcãs. Tal como aconteceu na América Latina. Tal como acontece no Zimbabué.

 

Eu acredito numa ideia importante: uns nasceram para morrer. Outros para matar.

Adeus, companheiros de julgamento. Boa sorte nos próximos anos de pena…

Ainda não sei para onde vou, mas asseguro-vos uma coisa. O Kosovo ainda vai fazer parte das agendas durante uns tempos.

 

Entrada na Nossa Agenda com base na notícia:

 

Guerra no Kosovo: Ex-Presidente sérvio ilibado das acusações de crimes contra a humanidade 

26.02.2009 – 15h08

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1366824&idCanal=11

Read Full Post »

Há dias em que a lua se vê de dia, e os mais pequenos ficam confusos com dois grandes círculos do sol e da lua. Lua é coisa de noite, é companhia de estrelas, ilumina o céu gigante do alentejo, e é pontinho reluzente no bréu camuflado da cidade. E é estranho – no mínimo – ver a lua durante o dia.

Os adultos, ou sabem porque é que isto acontece, ou habituaram-se a não questionar o facto. Ou então – simplesmente – nem reparam. São coisas da astronomia, dizem alguns. Sem que ninguém lhes explique aquilo que acontece para que a estrela e o astro coabitem pacificamente num só céu.

Já a dualidade é grande quase sol e lua aparecem no mesmo cenário, à mesma hora, quanto mais quando existem duas luas simultâneas, no mesmo espaço. Que universo é este que nos apresenta duas luas para que cientistas e estudiosos possam escolher qual deverão explorar primeiro? Que espécie de critério, que forma de discriminação, que fonte credível e razoável poderemos usar para eleger uma em detrimento de outra? Que razões daremos à preterida – e a nós mesmos – para escolhermos a outra em vez dela? Para investigarmos primeiro se há ou não vida na lua X, e nos esquecermos por momentos que existe a lua Y, que pode ter também, ou que pode também não ter vida? Que direito teremos nós de explorar assim, de maneira subjectiva, um universo que pode não ser só nosso?

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia no publico.pt:

Busca vai começar até 2020
NASA escolheu lua Europa para procurar formas de vida no sistema solar

Read Full Post »

 Na passadeira vermelha, como sempre, as grandes estrelas. Com os vestidos longos, de autor, os smokings, os penteados cuidados e as jóias vistosas, vão entrando para a sala onde os sonhos se podem tornar realidade. Durante o ano anterior desfilaram, na pele das mais variadas personagens, pelas telas de cinema do mundo inteiro. Agora desfilam, na sua própria pele, para que a autoridade cinéfila diga de sua justiça.

 

A luta era renhida, como nos bons anos de produção cinematográfica. Foram histórias verdadeiras, deste século, do próximo, dos anteriores. Foram histórias contadas em tantos estilos, tantas línguas, tantos figurinos diferentes. Foram histórias de personagens que se cruzaram com as histórias reais de cada actor.

 

Mas não foi uma noite de surpresas. Excepto na apresentação, este ano a cargo do fantástico Hugh Jackman. Que cantou, dançou, riu, fez sorrir e ainda emprestou um ar sério e glamouroso a toda a gala – que este ano foi também mais rápida, “por culpa da crise”, referiu Jackman em tom de brincadeira no início da noite.

 

E também na entrega dos prémios. A entrega dos prémios aos melhores actores e actrizes foi feito, em jeito de homenagem, por actores que já venceram estatuetas em cada uma das categorias. Assim, personalidades como Nicole Kidman, Whoopy Goldberg, Sophia Loren, Robert de Niro, Sir Bem Kinglsey ou Michael Douglas entraram em cena para apresentar os nomeados e revelar os vencedores.

 

Penélope Cruz foi a primeira a subir ao palco. Sem surpresa e com um vestido da adolescência. Para o Óscar de melhor actriz secundária e os aplausos dos colegas que lhe reconhecem o trabalho em Vicky Cristina Barcelona.

Na mesma categoria, mas no masculino, Heath Ledger. O Óscar ficou com os pais e posteriormente vai ficar com a filha, Matilda.

 

O misterioso caso de Benjamim Button ganhou nas categorias de melhor efeito especial, maquilhagem e direcção de Arte. Três estatuetas para um dos favoritos da noite, acabou por defraudar as expectativas. Especialmente por que Pitt saiu sem o Óscar para melhor actor.

 

Slumdog Millionaire foi e não foi a surpresa. Oito Óscares em dez nomeações por um filme que não foi produzido em Hollywood é algo de novo na Academia. Os sons e imagens da Índia, sob realização britânica, ganharam praticamente tudo o que podiam e não podia. Até os Óscares para melhor canção original e melhor banda sonora original.

E melhor edição. E melhor filme. E melhor realizador. E melhor fotografia. E melhor argumento adaptado. E melhor edição de som.

 

Quem voltou a brilhar foi Kate Winslet. A britânica não perdoou e disse, entre risos e lágrimas a Meryl Streep: “Desculpa, Meryl, vais ter que engolir esta”. Um prémio já merecido depois de seis nomeações. Winslet ganhou o Óscar pelo seu desempenho no filme “O Leitor”, e com 32 anos é uma das actrizes mais aclamadas de Hollywood pela sua forma – bem inglesa – de agir. Nunca deixou de fazer produções independentes e de baixo orçamento, o que ajudou a que se transformasse numa profissional de muito valor.

Sean Penn destronou Brad Pitt e Michael Rourke (o favorito) e viu premiado o seu desempenho como Harvey Milk. Penn representou um homossexual em busca da liberdade numa película baseada numa história real.

Três horas e meia de um espectáculo cheio de cor, luz, movimento e gargalhadas elevaram novamente a cerimónia de entrega dos Óscares a uma noite a que vale a pena assistir!

 

Entrada na Nossa Agenda sobre a entrega dos Óscares aos nomeados de 2008.

22 de Fevereiro de 2009, EUA

Read Full Post »

Quando nasci e me olharam nos olhos, todos pensavam que uma cor assim não poderia durar para sempre. Os meus olhos eram brilhantes, e de um verde esmeralda quase indiscritível de tão carregado. De tão marcado. Toda a gente à minha volta acreditava que, com o crescimento, o verde se desvanecesse. Esperavam a medo que a cor perdesse força. Ninguém nunca tinha visto uns olhos assim. Tão grandes e tão cheios. Vivos. Intrigava os mais cépticos a cor diferente da dos meus pais. Ambos tinham olhos castanhos.

Questionados sobre o assunto, dizia que fora buscar o verde profundo ao mais fundo dos oceanos, no meio dos mais belos corais e das espécies mais fantásticas e diversas de peixes. E a mim, contavam-me histórias maravilhosas de viagens fantásticas, feitas a dois, antes de eu nascer. Aventuras nos confins dos oceanos de águas quentes. Passeios nas areias brancas das praias mais recônditas do mundo. Banhos de sol nos areais mais longínquos. Cresci a pensar que era praticamente filho do mar. Não havia fotografias minhas de recém-nascido. No início estranhei a falta, mas depois comecei a achar normal. E entretanto esqueci. Só quando, naquela tarde de Primavera, tivemos a conversa mais importante da minha vida, tudo passou a fazer sentido. O verde não ia desaparecer. Era a cor dos olhos da mulher que tocou à campaínha pouco depois de eu saber que afinal tinha duas mães. A que me carregou 9 meses na barriga. E a que me carrega há mais de duas décadas no coração. 

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

La ‘fábrica’ de bebés

Decenas de niños dados en adopción por la clínica San Ramón de Madrid buscan su origen. Dos de ellos, entregados a sendos matrimonios de Valencia, dan la cara por primera vez

Fonte: El País

http://www.elpais.com/articulo/sociedad/fabrica/bebes/elpepusoc/20090221elpepusoc_2/Tes

Read Full Post »

O velho edifício do Conservatório russo em Paris está apinhado de gente. As senhoras, impecavelmente vestidas, entram pela porta dourada – a principal – e vão enchendo o átrio com musselines e outros tecidos vaporosos de que são feitos os finos vestidos propositadamente mandados costurar para a estreia. Os cavalheiros fumam lá fora os últimos bafos de cachimbo ou charuto – dependendo do gosto – e vão entrando, à vez, atrás das senhoras, enquanto compõem as gravatas de seda e retiram os chapéus de flanela forrados a cetim brilhante, em sinal de respeito.

Há grande azáfama naquela rua estreita, outrora lugar de encontro de músicos, escritores e filósofos. Espaço de debate da nata culta parisiense. No entanto, é dentro do edifício finamente decorado que a temperatura sobe a cada instante. Dentro do auditório o ambiente é quente e familiar, apesar de toda a pompa e circunstância anunciada pelos media, que não querem deixar escapar as estreias públicas dos nomes ainda desconhecidos dos pianistas mais prometedores do ano em todo o mundo. Não há tempo a perder, entre orientar os convidados nos lugares que lhes foram atribuídos e entregar os últimos convites aos que se atrasaram no caminho ou nas toilettes. Os testes de luzes e de som foram feitos durante a tarde. O piano afinado. A orquestra criteriosamente ensaiada e seleccionada. Nada pode falhar. Afinal, hoje são promessas. Amanhã podem ser génios.

Atrás das cortinas, em cada camarim, sente-se a tensão de uma prova daquela importância. Sozinho, sentado na cadeira com a cabeça entre as mãos, vê dentro da sua cabeça as partituras a passarem a uma velocidade alucinante. Primeiro Bach. Com segurança, com calma. Os dedos seguros vão percorrer todo o teclado como tantas vezes fez em Portugal. Depois Beethoven. Honrando o génio da música clássica. E Chopin, eternizado no país natal pelas mãos e a interpretação de Maria João Pires. Prokofiev vai ser o mais importante. Porque era russo. E ali, os russos estão em maioria. Há que mostrar-lhes que eles não são esquecidos e que podem ser tocados com a genialidade e a versatilidade de quem ama um piano. Mesmo que só tenha dezasseis anos, feitos há pouco mais de umas horas.

O público aplaude e ele ajeita o fraque bem passado. Quando chega a sala o espectáculo da luz misturada com as cores dos finos figurinos deixa-o sem respiração. Em passo firme dirige-se ao piano, senta-se e coloca as mãos sobre as teclas como se agarrasse uma maçã, diziam os livros de iniciação à técnica. Naquele momento o tempo e o mundo pararam. Era ele e a música numa união perfeitamente harmoniosa. E brilhante.

Quando o mundo voltou a girar muitos já sabiam qual seria o veredicto! Os aplausos foram ensurdecedores. O júri nem sequer levantou os olhos das fichas de avaliação.

Alguém iria receber o melhor presente de aniversário da sua vida, naquele dia…Longe da família, do país, dos amigos. Mas com uma invejável relação com qualquer um dos clássicos…

 

Entrada na Nossa Agenda com base na notícia:

Música: Pianista de 16 anos da Póvoa de Varzim vence concurso internacional em Paris

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Interior.aspx?content_id=1149816

 

Read Full Post »

Older Posts »