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Archive for Dezembro, 2010

Do Natal nosso

Senta-se, o corpo cansado, na velha cadeira de baloiço no canto da sala. A lareira acesa, a lenha a crepitar, o calor do fogo, prepara-se já para a chegada deles. A mesa já está posta, os guardanapos alinhados com os pratos especiais que só vêem a mesa na noite da consoada, a mais importante do ano. Aconchega-se naquele sossego que é solidão nos dias normais, e fecha os olhos. Espera por eles, que hão-de chegar efusivos. Muitos, tantos, que às vezes até lhes baralha os nomes. Pensa em outros Natais, quando os grandes ainda eram miúdos, e ficavam, eles, a disputar a cadeira de baloiço do canto da sala enquanto esperavam que ele regressasse com o bolo-rei, as broas, o bacalhau.

As funções, com os anos, inverteram-se, mas o espírito, que parece propagar-se junto com  o calor que sai da lareira, é o mesmo. Os cheiros, os sabores, os gestos, repetem-se a cada ano, com mais ou menos sensibilidade, com a lentidão típica de quem já viveu muito, tanto, que vê marcada em cada linha do rosto as memórias de tantas vivências. Olha pela janela enquanto aquele torpor tão de Natal teima em se apoderar dele. Sorri, a antever o burburinho que em poucos minutos vai cortar o silêncio de neve ali ao pé da porta.

Levanta-se e ajeita aquele guardanapo que afinal parece ter querido sair do lugar. Olha para a sala que em tempos partilhou, diariamente, com aquela que ainda hoje considera a mulher mais bonita do mundo. Excepção feita para, talvez, as filhas mais velhas. Tem saudades do tempo em que não sentia a solidão entranhar-se-lhe nos ossos e em que o Natal acabava por ser só mais um dia no corrupio quase diário daquele soalho de madeira gasto por tantos passos.

Leva a mão aos olhos e limpa a água que, de quando em vez, teima em inundar-lhe a vista. Ouve o burburinho e ri. Com vontade. Porque sabe que a solidão que o acompanha, afinal, não passa de uma amiga que lhe permite gostar ainda mais dos dias em que não tem espaço para ouvir os seus próprios pensamentos.

A porta abre-se, de rompante, e entre as faces rosadas pelo frio e os cachecóis e gorros coloridos, a tristeza vai-se, sorrateira para que não dêem por ela.

Feliz Natal!, brada!, feliz abraçando todos naqueles braços de vida e de amor. Agora é hora de estar. De se sentarem à mesa e estar. A celebrar a vida, o amor, as presenças. A alegria. A felicidade. O Natal.

Feliz Natal, feliz Natal, feliz Natal.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das celebrações de Natal que hoje começa.

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Da ausência

Era para vir cá mais cedo, mas não deu. Há dias que penso em vir escrever, dar-te alguma atenção, conversar contigo. Mas os dias passam tão rápido, as horas tão ocupadas, os minutos tão avassaladores, que – e até tenho vergonha de admitir – nem sempre tenho ‘paciência’ para voltar aqui. És importante, não nego. Foste pensado ao pormenor, com carinho, com tudo aquilo que um projecto deve ter. Foste pensado a dois, como os bebés que nascem dos casais em todos os dias do ano. De todos os anos. E se vão multiplicando em expressão e em amor. Como nos filmes. E não há semana em que não me lembre de ti com todo o carinho com que te fui construindo. Mas as coisas são mesmo assim. Já dizem na vida real. Que as relações são mesmo de altos e baixos, de paixão e de desencantamento. De velocidade e pausa. Como a nossa. Por isso, hoje vou fazer uns bolinhos contigo, dar-te alguma atenção. Conversar contigo sobre os últimos meses. Fazer um balanço: o possível. Porque sei que não será o que eu mais queria. Mas aquele que é necessário para avançar.

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