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Archive for Abril, 2011

Acordou, o sol tinha acabado de nascer. Olhou para o mar, brilhante da luz reflectida nas águas,  e sentiu a respiração compassada ao seu lado. Sem fazer barulho foi até à varanda respirar aquela maresia inigualável. Aquele sabor a sal e a sol que na cidade maravilhosa tinha mais encanto do que em qualquer outra do mundo.

Sentou-se a pensar no nada e no tudo em que se transformara a sua vida. Os riscos, as decisões, as lutas de todos os dias. Recordou, com um sorriso triste, os pais, sempre tão certos de tudo e tão pouco flexíveis às escolhas de vida. Uma nova panorâmica e os olhos fixaram aqueles braços abertos, tão acolhedores quanto libertadores, que abarcavam a cidade de que tanto gostava. O seu refúgio. Um dos portos seguros naquele continente que escolhera como casa.

Voltou para dentro e acordou-o com beijos de sabor a menta fresca. Sorriu o riso que era só deles e esqueceu todos os pensamentos mais dolorosos dos minutos anteriores. O que vamos fazer hoje? Passear à beira-mar? Beber águas de coco enquanto lemos o jornal?..hum?..

Com o serviço de quartos veio a notícia: Não há energia na cidade, senhores. Talvez seja melhor ficarem por aqui até os policiais entenderem o que está acontecendo na cidade. Mais a mais, estão dizendo que vem chuva aí…

Trocaram olhares e largaram as gargalhadas que os fizera, há tanto tempo, apaixonar-se um pelo outro. Que maçada, teremos que ficar por aqui, brincou ela enquanto se aninhava nos braços que eram só seus e percebia, como nunca antes, a maravilha da cidade que lhe acolhia os sonhos. Não há luz? Melhor para os sonhos, pensou.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Temporal deixa parte de bairros do Rio sem luz

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2011/04/sobe-para-8-numero-de-bairros-com-trechos-sem-luz-no-rio-diz-light.html

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Ressuscitar.

A História repete-se. É cíclica. E recordada, todos os anos, por milhares, milhões de pessoas, como se fosse única, inédita e estivesse a acontecer pela primeira vez. Para quem acredita ou não acredita. Para quem gosta ou não entende a profundidade do momento, para quem passa pelos dias sem os notar ou para quem os vive intensamente, é altura de paragem, de reflexão, de uma outra magia que teima em andar no ar como que a dizer: Pára e pensa. Muda. Arrisca. Faz. Sê.

Passaram anos, séculos, milénios. Mas o essencial, aquilo que importa, aquilo por que todos vivemos mantém-se lá, firme e inabalável para qualquer credo ou religião – porque, como um dia alguém disse, “se um dia me provarem que aquela vida não existiu, a verdade é que a sua mensagem é a melhor de todas, ao longo de tantos anos. E nela eu não posso deixar de acreditar”.

A mensagem do amor, da entrega e da ressurreição. A da alma, e não a da carne, que essa é a menos importante. E é por isso que, milénios passados, a História se repete e é vivida por tanta gente. Porque em cada vela que se acende, em cada abraço que se troca, em cada amêndoa partilhada, há um bocadinho de amor, de entrega, de partilha, de renovação, de ressurreição.

Há uma escolha. E um desafio. De amor.

Entrada na Nossa Agenda a propósito do início da Páscoa. Boas Festas e Feliz Páscoa.


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É a pose o que mais me encanta nela. Segura, sorridente mas tão credível. Nada soa a falso, ali. Que bom. Que bom não ter que viver uma vida de mentiras. Como a minha. Tão grande, comprida, exaustiva. Trinta anos de mentiras – acabariam por valer a pena, mas terão valido o sofrimento e o desgaste?

Ela é linda. O sorriso rasgado e as mãos confiantes. Vai, com certeza, honrar o cargo que lhe cabe. Vai dar uma belíssima rainha, quando chegar a altura, e ninguém se vai lembrar, sequer, de que um dia ela andou de lingerie numa qualquer ‘passerelle’ deste País. E eu? Estarei condenada, mais uma vez, a ser a outra? Estarei pronta para mentir – mais uma mentira – e dizer que ela merece isto mais do que eu? Estarei a caminho da segunda grande falsidade da minha vida? E eu?…

*** ***

Hum, deixem-me pensar… o que é que eu posso dizer dela? Que decidiu enfrentar tudo para viver um grande amor? Acho que isso é o que mais admiro nela. O sorriso sempre que se lembra do que lutou para ficar com o homem de quem gosta. E a verdade é que está com ele, apesar de todas as dificuldades, dos obstáculos impostos pela mãe dele, que a obrigaram a ser sempre a outra, durante anos a fio. Só uma mulher que goste e que acredite muito no seu homem se sujeita a ser a outra como ela foi. Publicamente. Com outras pessoas envolvidas. E à mercê dos media. Só um amor enorme, uma confiança inabalável no outro, podem permitir uma tamanha persistência face às dificuldades. Uma tamanha crença no que virá depois, no desconhecido.

Quantas vezes não terá chorado aquela mulher, deitada na cama ao lado do marido à noite, por aquele homem, o seu príncipe, que ela admirava nas revistas ao lado de uma mulher alta, loira, linda, perfeita e admirada por todos? Quanto terá sofrido o seu coração? Quantas vezes as amigas ter-lhe-ão dito para desistir daquele amor, para esquecer o tal príncipe, para seguir em frente? Mas ela resistiu. E, por isso, conseguiu ficar com ele. É exemplar. Uma princesa. Assim.


Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Na Grã-Bretanha, duas rainhas à espera do trono


http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110420/not_imp708730,0.php

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Dos Amores

Fechava sempre os olhos enquanto passava os dedos pelo piano. O sorriso estampado no rosto enquanto tocava melodias mais ou menos conhecidas. A música tinha o dom de resolver os problemas. De o fazer sentir-se bem. Havias sempre uma nota, uma melodia que exprimia exatamente o que estava a pensar, mesmo quando lhe faltavam as palavras para o conseguir dizer ao mundo.

Refugiava-se nas colcheias sempre que estava triste e sorria para as breves cada vez que uma alegria tão grande como a de hoje lhe enchia o coração e o deixava sem poder respirar.

Era em clave de sol que tocava as músicas para as novas paixões, e passava aos clássicos quando tudo acabava. Amor, daquele a sério, desconfiava de que não ia ter por outra coisa ou pessoa como tinha pelo seu piano. Aquelas teclas conheciam-no desde pequeno. Tinham-lhe acolhido as lágrimas, as frustrações, o trabalho árduo, os devaneios de composição. Tinham-lhe ouvido as conversas, as letras novas, os disparates soltados ao vento.

Quando tocava, era como se fossem um. Não havia (des)harmonia que os separasse nem partitura que os fizesse desistir. Era para ele que voltava quando chegava de viagem, e dele que tinha mais saudades quando estava fora. Era como se aquele piano fosse uma extensão de si.

Fez duas escalas completas e voltou a abrir os olhos. Apertou-se-lhe o coração e despediu-se. Iam ficar um ano separados. Mas tal como os amores-a-sério, iam voltar a encontrar-se. E ia ser ainda melhor do que antes.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito do dia Mundial da Voz [e da música, sua grande companheira].

 

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Sorriso nos lábios e um brilho no olhar. Espera enquanto acertam as luzes, suas conhecidas, e prepara-se para a maquilhagem, a que já se habituou de tanto aparecer em frente às câmaras.

Passa em revista tudo o que lhe podem perguntar. Resposta pronta a cada ataque. Sorriso preparado a cada dúvida. A pose estudadamente descontraída. O cabelo bem penteado. O ar cansado para não parecer que está tudo demasiado bem. E a convicção. O que é preciso é acreditar. Sempre foi o seu lema. Seis anos passaram e ele continua. Crente. Firme. Irredutível.

Luzes. Câmara. Acção.

Aquele pontinho vermelho sempre o fascinou. Sabe que todos os olhos estão fixados nele. Que pode falar e que, com o olhar certo, conseguirá tudo o que quer. Baixar o tom de voz, respirar pausadamente e sorrir. Sorrir sempre. Mesmo que minta, mesmo que saiba que o país não vai bem, que há gente que passa fome para não ficar sem luz nem água. Mesmo sabendo que os colegas de colégio dos filhos comentam aquilo que os pais comentam à mesa de jantar. Que ele mente, que não sabe o país onde vive, que parece habitar outro país, que merece um país pior só para ele.

Nem os assessores sabem como consegue manter a serenidade. Gabam-lhe a resistência, a resiliência, a fuga à realidade. Há ainda menos de humano nele do que parece. Ele é pouco homem. Todo máquina. De sorrir, de ignorar, de fantasiar, de mentir. 

Entrada Na Nossa Agenda a propósito dele: o José que marca a actualidade de um país que parece ser o de todos menos o dele.

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Adeus!

As coisas não estão para brincadeiras. Toda a gente sabe disso e sente-o na pele, todos os dias. É preciso trabalhar, lutar, manter um sorriso nos lábios e continuar a trabalhar. E a lutar. E a manter um sorriso nos lábios.

Foram anos difíceis, duros, mas cheios de alegria, também. Anos de muita felicidade, em que percebi finalmente que liderar pessoas não era só vantagens. Nem eram só facilidades. Era, acima de tudo, dormir pouco, pensar muito, rodear-me dos melhores e tentar perceber uma vida que não é a minha. Nunca foi. Não sei o que é chegar ao final do mês sem dinheiro para o supermercado. Não sei o que é esperar subsídios. Não sei o que é sentir o peso dos impostos em tudo o que faço.

Mas sei que tentei. E que dei o meu melhor, mesmo que muitos tenham dito o contrário. E mesmo que o meu melhor não tivesse melhorado nada. Mas tentei.

E agora saio, cansado, semi-derrotado por não ter conseguido fazer mais e melhor. Saio para dar lugar a sangue novo e a ideias novas. Saio para descansar do mundo e da vida. E passo a ‘batata quente’ a outros, que, seguramente, poderão fazer mais e melhor. Acredito nisso.

Adeus. Obrigado por tanto. Adeus.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia

Zapatero dice adiós

http://www.eldiarioexterior.com/zapatero-dice-adios–39391.htm

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Entrou em casa e sentiu o vazio invadi-lo, como se uma onda o tivesse engolido de um só trago. Olhou em volta, para as paredes ainda vazias, buracos na parede, brancas de ausências e solidão. De saudade. Largou chaves, carteira, telefone em cima da pequena mesa e suspirou. Não era falta de coragem, era excesso de vida.

Action, réaction, dizia o senhor do seu filme favorito. Assim, a frio. Action, réaction. A música que tão poucas [mas] intensas vezes partilharam ressoava-lhe na cabeça, tentava penetrar aquele silêncio de ausência, lágrimas e impotência. Podiam passar dias, semanas, meses, anos e ele nunca se iria habituar a entrar numa casa vazia. Não eram só as conversas, a televisão, o cheiro a comida ou o cheiro ao amor a que sempre se habituara. Era sobretudo o sorriso.  Que lhe enchia a alma e o coração todos os dias.

Nunca se iria habituar, mesmo que mudasse de casa mil vezes. Action, réaction. Já tentara agir, reagir, voltar a agir… já tentara antecipar dores, sofrimentos. Provocar emoções e sentimentos. Action, réaction. Para o bem e para o mal.

Sentou-se no sofá e colocou o a cabeça entre as mãos. As lágrimas corriam-lhe, frias, por entre os dedos vazios. Tão vazios que quase sentia a ausência dos dedos dela. O disparar de coração a cada toque, o brilho no olhar a cada mirada secreta. Action, réaction. Era hora de agir.

Mesmo que isso doesse tanto como perder a vida. Era hora de agir. Porque o amor, não importa onde esteja, acaba sempre por vencer. O verdadeiro. O que importa. O que faz sorrir.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Luís Figo faz declaração de amor à mulher

http://www.dn.pt/inicio/pessoas/interior.aspx?content_id=1819838

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