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Archive for Maio, 2009

Sentou-se na mesma cadeira de sempre. Debaixo da janela da sala. Aquela que dava mais luz e garantia de vista sobre toda a aldeia. Ha sessenta anos que cumpria o ritual. Depois que Deus lhe tirara a capacidade de andar, entendera que a vida tinha que ter outro propósito. Chamavam-lhe a guardiã da aldeia. E ela era-o de facto. Conhecia todos, sabia quem eram as famílias, conhecia os estrangeiros pelo aspecto. Passava os dias a ler, a tricotar ou a conversar sobre o mundo. Ainda via as notícias e surpreendia todos com o conhecimento sobre todos os assuntos.

Agora era também tempo de ir olhando pelos netos, que corriam, livres pelo jardim florido e cheio de pequenos anões de barro atrás dos quais gostavam de se esconder. Olhava para eles e lembrva-se dos tempos de juventude. Dos filhos. Dos sobrinhos. Por cima das pequenitas cabeças loiras, a bela vista da aldeia que nunca pensara em abandonar. Nem sequer ousara formular essa hipótese.

Era o silêncio que ela amava. A paz. A tranquilidade. Essas coisas nao tinham preço e ela não abdicava delas nem por nada. De repente semicerrou os olhos. Tentou focar mas a vista já não era a mesma de há vinte anos. Depois da visão o barulho. Os gritos. O medo.

Felizmente não foi nada. Só mais um engano da marinha…

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia

Anti-submarino russo atinge aldeia por engano

Fonte: ionline

http://www.ionline.pt/conteudo/6812-anti-submarino-russo-atinge-aldeia-engano

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A sala estava em silêncio. Quando foi anunciada a próxima concorrente, tal como acontecera com todos os anteriores, sentia-se a excitação e a curiosidade no ar. Mas era só mais uma. Quando entrou um burburinho percorreu a sala, levando muitas pessoas a esconder a cara para tentar tapar o rosto que se contorcia de riso. Ninguém acreditava que ela fosse de facto uma concorrente. a figura desengonçada, claramente fora da idade considerada “normal”, o jeito cómico, descontraído mas até um pouco grosseiro davam-lhe um ar de desenho animado fora do contexto.

Quem ri por último ri melhor, pensou. O que a trouxe até aqui?, foi a primeira pergunta do painel. Quero ser cantora! A resposta arrancou sonoras gargalhadas ao longo do auditório. Ela sorriu e acenou com a cabeça.

Podia ainda não ser a Guildhall. Podia ser só uma mera fantasia. Podia ser que tudo aquilo em que sempre acreditara ruisse perante uma plateia céptica, descrente, cruel, até com a sua forma de agir. Mas não custava tentar. O júri nunca saberia o que ela valia se não aproveitasse aquela hipótese. Tem noção de que o que vai cantar é extremamente difícil? Tinha sim. Se tinha. Pode começar…

Um último olhar sobre a plateia. Respirou bem fundo e começou.

E durante os cinco minutos seguintes, ninguém foi capaz de controlar os arrepios,  a emoção, as lágrimas e no final, as palmas. Ela, sem dúvida, era o talento escondido pelo preconceito das imagens criadas socialmente. Foram dadas as boas vindas à nova voz da música inglesa.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Susan Boyle participa da final do programa ‘Britain’s Got Talent’

Performance de ‘I dreamed a dream’, do musical ‘Os Miseráveis’ já foi vista mais de 150 milhões de vezes

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,susan-boyle-participa-da-final-do-programa-britains-got-talent,379501,0.htm

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O sol ainda estava a nascer por detrás dos morros adormecidos. Eram 6h. As favelas deixavam-se ver nas formas mas os conteúdos descansavam – provavelmente – de mais uma noite de folia e trabalho. Os olhos percorriam ávidos a cidade enquanto imagens de televisão desfilavam diante dos olhos. Envoltas naquela luz amarelada que dá a tudo um ar magnífico e estranhamente misterioso.

O mar às 8h30 olha para nós com o sol a reflectir-se num azul incrível. De um lado o morro natural. Do outro o gigante contruído pelo Homem, abarcando a cidade em todo o seu esplendor. Visitas, passeios, aventuras, deslumbramento. Uma sensação de impotência perante toda a beleza vista de cima. Tão lá de cima.

E depois as águas cristalinas. As ilhas. Os turistas e os nativos numa relação incrível de ecletismo e diversidade. Almoçar à beira-mar e mergulhar nas águas profundas olhando o barco que nos levou. O samba e a bossa-nova. O forró. O riso. A dança. A alegria.

É assim o Rio. No pouco que lhe vi e lhe conheci. O Rio pelo qual me apaixonei e sorri.

E que me fez decidir qual o próximo destino de férias!

Entrada na Nossa Agenda sobre a estada no Brasil

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A equação é muito simples. Eu sou tão bonito quanto ele, tão charmoso quanto ele, tão convincente quanto ele e só ainda não sou tão conhecido porque enfim, os nossos países são um pouco diferentes. Portanto, eu vou fazer o mesmo que ele. E vai resultar. Tem de resultar. No gabinete todos seguem atentos a nova estratégia para a campanha que se aproxima. As antigas campanhas, as gravatas escolhidas, os fatos verde-azeitona que desapareceram do armário. Foi uma autêntica auto-remodelação. Tudo mudou de repente. Hábitos velhos que se perderam, um conjunto de mudanças drásticas que me foram apresentadas e às quais cedi sem pestanejar. Sabem que os tempos não vão ser fáceis, mas nada é impossível. Aliás, 2008 foi o ano em que ficou mais do que óbvio que nada é impossível. Basta acreditar. E convenhamos, estamos a falar de outro público, se lhes podemos chamar assim. Se resultou lá, por que não aqui? Os mais cépticos franzem o sobrolho e debitam razões para o esquema não funcionar. Os mais optimistas dizem para seguir em frente. Há dúvidas no ar, é certo. Mas o passado assegura que a História é cíclica. E diz o povo, tão sábio, que depois da tempestade vem a bonança. As novas tecnologias são o melhor meio de atrair população. E o facto de grande parte da população portuguesa nem sequer ligar aos avanços da modernidade não vai ter importância nenhuma. Porque a velha estratégia nunca é abandonada: a do sorriso sedutor e das palavras que querem ser ouvidas. Se ele conseguiu, eu consigo! Até tenho uma vantagem…aqui já todos me conhecem. E sejamos sinceros…muitos adoram-me!

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

José Sócrates contrata equipa de Obama para as legislativas

Fonte: i

http://www.ionline.pt/content/4161-jose-socrates-contrata-equipa-obama-as-legislativas

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Todos os dias a mesma mecânica. O dia nasce mais cedo ou mais tarde consoante a estação do ano, mas nasce sempre pelas mesmas horas. No hemisfério Norte há mais frio. No Sul, mais calor. Nos cinco continentes diferem as cores, a luz, os sabores, os cheiros e as recordações. Em cada país divergem a cultura, os hábitos, as dificuldades e as especificidades de povos, mais ou menos antigo.

Queremos que todos eles tenham lugar Na Nossa Agenda. Pelos olhos de quem os visitou, de quem lhes sentiu a essência, e a tentou retratar através de uma simples lente que encerra em si os segredos do congelar de momentos. Queremos também que, em poucas palavras nos contem a História e as estórias. Porque Na Nossa Agenda cabe um mundo inteiro de sonhos, de palavras, de imagens!

  Assim, a cada segunda 2ª feira de cada mês, está marcada Na Nossa Agenda uma viagem pelo mundo fora. Por diferentes caminhos, experiências e objectivos. Com novos olhares. Diferentes do nosso! Hoje, o olhar é da Luisa Lopes. 

Uma viagem às Galápagos parece irreal e maravilhosa. Será?

Parti para este arquipélago de 14 ilhas situado ao largo do Equador a partir de Quito (a capital). Daí fiz a viagem de avião até ao aeroporto da ilha de Baltra. Esta é inóspita, uma ilha pequenina cujo aeroporto é  mesmo o acontecimento. Atravessa-se a curta distância de barco até Santa Cruz, a maior ilha do arquipélago e uma das quatro habitadas.

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E quando embarquei a bordo do barco comandado por Carlos Ayala, a aventura finalmente começou.A melhor forma de visitar as Galápagos é mesmo pernoitando no barco, percorrendo as várias ilhas calma e docemente, a saborear a vida animal ao seu ritmo sem importunar.

 

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A minha viagem durou uma semana, com um grupo de 16 pessoas, num barco modesto, ideal para quem aprecia o slow-rhythm, sem telemóveis, televisão ou computadores, ao invés do bulício de 50 turistas de máquina fotográfica a tiracolo e a largar gritos de entusiasmo cada vez que um animal novo está à vista.

 

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Logo no desembarque na primeira praia, vemos leões-marinhos, às dezenas, ao sol e indiferentes à presença humana. Cada desembarque atrai novos animais porque nas Galápagos não há uma praia igual à outra.

 

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Iguanas há-os na modalidade terrestre (os maiores) ou marinhos (mais pequenos) sempre sem pressas, indolentes e inofensivos, apesar da nossa desconfiança habitual… Um mergulho matinal com máscara permitiu-me nadar com tartarugas gigantes, leões-marinhos e até tubarões, enquanto ao longe uns pinguins das Galápagos (versão mini dos do Pólo Sul) se banhavam divertidos. Que mais se pode pedir? Caiu nesta altura por terra o meu primeiro receio – “aposto que não se vão ver aqueles animais todos que aparecem nos documentários da BBC”. O facto é que estes estão em todo o lado, pelicanos, fragatas, gaivotas.

 

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E mais, nunca tendo sido caçados, não olham o ser humano como predador, passeiam-se tão próximo das pessoas e com uma tal tranquilidade que nos permite olhá-los com calma e fotografar todos os momentos. Mais, ressalta no guarda do Parque Natural, o nosso guia, uma preocupação com a sua terra (ele, um galapaguiano…), a tentar minimizar o impacto da nossa passagem e a apontar-nos com orgulho aquela cria que nasceu a semana passada. Cada ilha tem mesmo uma identidade e pormenor particulares. A viagem é assim inesperadamente enriquecida e diversificada.

 

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A tartaruga gigante das Galápagos que aqui ilustro, é uma das habitantes do Centro de Investigação Charles Darwin (Santa Cruz), onde se criam as tartarugas em cativeiro, já que estão ameaçadas de extinção. Dragon (Santa Cruz) assim chamado devido aos inúmeros iguanas que aí habitam é uma visão inesquecível do barco. Depois de um pequeno passeio descobrem-se flamingos, inesperadamente num pequeno lago.

 

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A ilha de Rábida foi uma das preferidas com os seus leões-marinhos bebés que apetece tocar de tão amigáveis serem. Mas o guia avisa e nós cumprimos, nunca se toca nestes  animais sob pena de uma rejeição pela progenitora.

 

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Santiago é a ilha negra. Uma paisagem surpreendente, um mar de lava que solidificou em formas onduladas ganhando assim um aspecto dinâmico. E até é possível ver as bolsas criadas pela explosão de gás mumificadas para a posteridade. E aquilo que torna esta viagem única é o silêncio, a imensidão do Pacífico só com o nosso barquinho à vista.

 

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Neste silêncio ruiu o meu segundo receio, que houvesse gente a mais, barulho a mais, comércio e  turismo a mais… Desengane-se quem como eu, céptica, receava que as Galápagos pudessem ser um experiência com turistas a mais e natureza a menos. Errado. Só se pode entrar neste santuário acompanhado de guias certificados do Parque Natural. O Governo e a Direcção do Parque Natural têm permitido que os visitantes explorem a ilha mas de um modo de tal modo organizado e limitado que permitiu minimizar o impacto humano na vida animal.

 

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Aquela ilha que mais me surpreendeu, é a que chamo de ilha dos pássaros, a de Seymour, pela profusão de fragatas, um dos ex-libris do arquipélago, cujos machos tentam atrair as fêmeas com a sua bolsa vermelha insuflada. Mas o meu preferido é mesmo o bobo de patas azuis, que qual personagem de desenhos animados dança à volta da fêmea sob os nossos olhares extasiados… Fomos sempre o único barco à vista, o único grupo naquela ilha, à excepção de duas ilhas já no final da viagem nas quais nos cruzámos com poucas pessoas. Assim, sempre que ao amanhecer víamos uma nova ilha no horizonte, sentimo-nos um bocadinho como Darwin, se a presunção o permite… no fim do mundo, um mundo maravilhoso.

 

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E assim vos deixo com a imagem do bobo de patas azuis, aquele que será sempre o meu símbolo desta viagem. 

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Amor-fé

O altar, ao fundo, sempre foi motivo de respeito. Branco, simples, pobre em artifícios, rico em simbologia. Não era mais do que a representação de uma mesa branca, é certo. Mas carregava com ele o peso do que se sentia quando por lá passava. Baixava os joelhos e fazia o sinal da cruz com a cabeça bem abaixo do nível dos ombros, em sinal de respeito.

Naquela tarde fez o mesmo gesto, e sentou-se ao fundo, num dos bancos de madeira, corrido, comprido, sem fim, do fundo da igreja. Gostava de sentar-se ali pela distância do altar, porque a li a vista era panorâmica e mais agradável aos olhos. Ali podia ver tudo. As figuras pintadas criteriosamente. As cores terra nas suas vestes. A parede rococó em talha dourada, que chegava a ferir os olhos. Os velhos azulejos azuis e brancos nas paredes. A passadeira da nave central. Gostava de ali estar algum tempo. Olhava de soslaio para a frente. Apreciava a diversidade de cores. E a riqueza da fé. Mas do que mais gostava quando estava naquele silêncio, acontecia quando ouvia a ranger a porta da sacristia. Sentia-lhe os passos pequenos mas apressados. Sorria mesmo com a cabeça baixa. O coração estremecia e começava a bater descompassado. Descontrolado. Ele aproximava-se e ela já lhe sentia o cheiro. E a vida que ele tinha, os sítios por onde já tinha andado a passar-palavra. As curiosidades que sabia e a graça com que as contava. Eram esse o fascínio. E claro, os olhos. O brilho dos olhos dele quando falava Dele. Era essa a fé. Dos dois. E apaixonaram-se. 

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Amores de confesionario

El padre Alberto, sacerdote que ha conmocionado Miami por su relación con una mujer, confiesa conocerla desde hace 10 años y quererla por su fe

http://www.elpais.com/articulo/sociedad/Amores/confesionario/elpepusoc/20090509elpepusoc_8/Tes

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Quando saiu para comprar o jornal, logo pela manhã, num ritual quase sagrado, deu por si a pensar nas voltas que a sua vida tinha dado. O sorriso desapareceu-lhe do rosto logo após o bem disposto bom dia, é o jornal do costume!, e decidiu sentar-se num dos bancos do jardim em frente ao quiosque. Deixara os vícios, os hábitos, os comodismos, o supérfluo. A vida resumia-se a um passeio diário, umas sestas no sofá, umas séries na televisão. Quando viu à sua frente um casal gay quase deu um pulo do banco. Conhecia-o havia tempo e não invejava as suas vidas. Afastados das famílias pela incompreensão do costume, viviam um para o outro e para a garantia dos direitos que consideravam fundamentais. Rapidamente traçou uma linha de tempo imaginária. O que lhes vai acontecer quando ficarem velhos? Quando não tiverem ninguém que cuide deles ou sequer se importe? O que vai ser de A. quando M. morrer?

De repente levantou-se e foi comprar chocolates. Os chocolates sempre lhe estimularam o cérebro quando precisava de pensar e agir rapidamente. Como é que não pensei nisto antes? Voltaria a ter as viagens em executiva, as obras de arte, os pequenos luxos. E tudo em prol de um bem maior. Passara a vida inteira dedicado ao trabalho. Não teve tempo para as diversos adolescentes. A proactividade nunca o deixou permitir-se ficar na cama até horas indecentes, só para recuperar de uma noite de dança e bebidas e sono mal dormido. Depois, quando foi altura de formar família, todas as paixonetas que tinha sentido durante o pouco tempo livre que tinha estava casadas. E com filhos. Tinha passado o tempo de deixar descendentes. A conta no banco – essa – engordava a olhos vistos. Não tinha tempo para gastar os louros do trabalho que o preenchia, mas que não dava mais nada senão isso – dinheiro. Mas nessa manhã lembrou-se deles. Lembrou-se que uma vida sem sumo, é como um jardim sem flores. Passe o cliché. E teve uma ideia. Contruir uma casa contra a solidão.

 

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia

Lisboa já tem um lar de idosos gay

Publicado em 07 de Maio de 2009

Fonte: i 

http://www.ionline.pt/content/3378-lisboa-ja-tem-umlarde-idosos-gay

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