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Archive for Outubro, 2010

Adeus, Tuma*

Os 78 anos de Romeu Tuma lhe deram alguns cabelos brancos, rugas e uma fascinante profundidade no olhar.

Quem olha para ele não vê o político, muito menos o membro do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Vê um homem de gestos simples, bem-humorado e que invariavelmente faz refletir sobre o que o terá levado a integrar o regime ditatorial imposto pelo golpe militar de 1964, ou como ele lhe chama, o regime da “revolução”.

Como, aliás, fazem muitos daqueles que também lutaram junto dos ditadores da história.

Poderá essa vivência influenciar a forma como se faz política hoje? Foram opções conscientes e que obedeceram a crenças explícitas ou Tuma integra o grupo dos colaboradores “fordistas” – aqueles que, como autômatos, obedecem cegamente a ordens vindas de cima sem questionamento ideológico?

Interrogado sobre se se definia como político de esquerda, de direita ou de centro, Tuma responde peremptoriamente que se define “como um Brasileiro com amor à pátria”. Resposta que remete à passagem do Senador do DEM para o PTB em Setembro de 2007. Por que uma mudança tão brusca diretamente da oposição para a base do governo seria uma pergunta válida, não fora o PTB se integrar naquele grupo de partidos que não tem uma ideologia demarcada e que serve, portanto, os interesses dos candidatos que não estão dispostos a perder. A apresentação de um outro candidato para disputar a vaga do DEM no Senado levou Tuma a abandonar o partido e garantir, assim, assento na casa, pelo PTB.

A crise ideológica – bem como a sede de poder – é, aliás, uma das discussões que mais se repete ao redor do mundo, com sociólogos e cientistas políticos a falar de uma “política desideologizada”, e de uma vaga de oportunismo que surgiu e se instalou no poder político, contribuindo para a “dança das cadeiras”, comenta o sociólogo Pedro Pereira Neto. Afirma ainda que “é claro que a democracia brasileira é demasiado recente para ter ainda pacificado a memória do regime militar, e renovar a geração que fez parte desse período”, o que inevitavelmente agrava a crise de ideologias.

Especialmente quando se fala também de um país onde dificilmente alguém toma responsabilidades. Como Tuma – “Eu não trabalhei a favor da ditadura” – muitos outros deixam de lado esse tempo e preferem esquecer o que o passado teima em lembrar.

Cecília Thompson, ex-jornalista do Estado e forte opositora da ditadura à época, acredita que “realmente, os políticos que ‘serviram à ditadura’, por ideologia ou interesses pessoais, ou os que a ela ‘se dobraram’, por medo, têm não ‘alguma’ dificuldade em admiti-lo, mas não o fazem mesmo”. Cecília afirma ainda que

“muitos, hoje, ‘posam de democratas’, como o próprio [José] Sarney, Paulo Maluf, o governador de São Paulo [Paulo Egídio Martins] à época da morte do Vlado [Herzog] – e tantos, tantos outros, que ‘voam conforme o vento’, pela imensa sede de poder que têm”.

Mas e aqueles que seguiram o regime somente porque era o regime, desprovidos de qualquer informação sobre a ideologia que pregavam? O filme O Leitor, de Stephen Daldry, explora exatamente essa visão. A protagonista Hanna Schmitz alista-se nas SS, tortura, mata, e termina sua vida acreditando que até ao seu limite sempre fez o que devia, guardando as prisioneiras que lhe confiavam. Mas e a consciência de que não se está a fazer bem ao próximo? Pode ela ser controlada e portanto esquecida, ou todos os humanos, reduzidos à sua condição, sabem o que fazem?

Quando apresentada em julgamento, a defesa de Schmitz é a de que sempre cumpriu sua função para com o regime. Confrontada com os números das vítimas, reafirma a sua dedicação e o seu profissionalismo.

Pode ser Romeu Tuma – e tantos que como ele ainda hoje continuam na política – comparado a Hanna Schmitz? O senador relembra que era policial e que trabalhou em prol do bem do departamento. E garante que conduziu sempre com dignidade e respeito as pessoas que se opunham ao regime que ele servia, destacando que nenhuma análise pode fugir da análise composta, remetendo para realidades individuais.

Cecília, salientando que tem opiniões muito próprias, garante porém, que esse “recalcamento” que muitos políticos fazem do passado “contribui também para o atual estado de corrupção e falta de comprometimento”.

O que por sua vez leva à crise ideológica – Tuma também acredita que “nenhum partido tem uma ideologia totalmente definida” – ao esvaziamento das linhas condutoras dos partidos, à dificuldade em encontrar um rumo, ao não aprofundamento das raízes da ainda jovem democracia.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Morre em São Paulo o senador Romeu Tuma

http://blogs.estadao.com.br/radar-politico/2010/10/26/morre-em-sao-paulo-o-senador-romeu-tuma/

*Este texto foi escrito em 2009, no âmbito do Curso Intensivo de Jornalismo do jornal Estado de S. Paulo
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C’est ça!

São as mesmas luzes e a mesma paisagem. São as mesmas cores, tirando num lugarzinho ou outro. Mudaram os sons. Que são na mesma os sons de uma cidade, mas que agora soam de forma diferente. Porque são diferentes. Agora não há correrias entre comboios e autocarros. Nem entra e sai de lojas frenético, ao ritmo normal do dia-a-dia.

Mas há barulho e manifestações e gritos de revolta. Cidadãos descontentes com a vida que se sentem injustiçados pelo constante apertar do cinto no país. No mundo.

E depois há todos aqueles que de casa, da janela que dá para o parque, para a rua, para o jardim, assistem à paralisação de uma cidade que sentem sempre viva e fervilhante. Que ficam em casa porque não têm outra opção. Porque aquela luta não é a deles, mas respeitam-na.

C’est ça…C’est la vie à Paris.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,refinarias-aderem-a-greve-na-franca,625128,0.htm

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Quase que se sente o coração da terra, tal é a proximidade. Quase que se sentem os corações ali ao lado tal é a angústia da partilha do saber. O sentir, o sofrer, o chorar e o rir.

Há papéis com mensagens curtas mas eficazes. Há fome e depois e a alegria da presença humana ainda que tão longe. Há raiva, revolta e uma capacidade enorme de fazer frente a uma adversidade que ninguém sabe como vencer porque nunca antes tinha acontecido.

Há prazos e esperanças e desespero. Há vozes, vídeos, jogos de futebol, de dominó, de cartas.

Partilha-se o dia, a noite, a tarde, a manhã. As semanas. Os meses. As horas. Os minutos. Contam-se os segundos. E da terra não há um pulsar mais acelerado, como que a dar sinais de que o fim está próximo.

Há força e determinação. Dentro e fora, nos dois mundos separados por 700 metros. Tão pouco e tão absurdamente tanto, ao mesmo tempo. Há poucas horas de sono que o tempo é um bem demasiado precioso para se desperdiçar quando ainda há tanto a fazer.

Há os melhores a trabalhar incansavelmente. E todos os outros a rezar fervorosamente. Há sol e chuva e calor e lágrimas.

E de repente o pulsar. Que é mais um ruído que lhes faz companhia durante horas e anima as almas cansadas da espera. Um ruído que continua e que eles não querem que pare mas que aumente até os incomodar tanto como se estivesse nas suas cabeças.

E no dia em que ele pára há gritos e risos e expressões de alegria. E são eles que se são ao ruído e que rezam, nos intermináveis vinte minutos do pulsar de uma terra que afinal é uma máquina. E a luz do sol [quase insuportável, agora]. E o cheiro do ar puro. E os abraços e os beijos e as lágrimas e os olhos cansados mas tão felizes que parecem saltar de órbita.

“Não me tratem como artista. Tratem-me como mineiro”.

E o sorriso que nunca se vai apagar pelo quase-milagre. E os arrepios. E as lágrimas. E a gratidão. Pela vida e pelo trabalho incansável de tantos homens e mulheres que nunca desistira. Tantos. E pelo  mundo que nunca deixou de acreditar.

 

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O nosso blogue é feito de estórias. Nossas, mas especialmente de todos aqueles que de uma forma ou de outra, constroem a história que é, inevitavelmente de todos nós. E o nosso blogue é também feito de ajudas. Porque o tempo [e o nosso em particular] teima em encurtar quando só precisamos que ele duplique. E porque há tantas estórias boas por aí, tantas opiniões escritas por mãos que tão bem o fazem…hoje as letras são do Paulo C. Graça Moura.

Contra-ciclo. O Planeta Terra – antes orgulhosamente só – bóia num mar crescente de água que implode em sofrimento, numa clara manifestação de desagrado pelo comportamento do Homem. Num mundo em que o imediato é muitas vezes visto como pouco ambicioso, o degelo parecerá inofensivo. Ontem, tempo era dinheiro…hoje é mais, muito mais. Aliás, sempre demos valor a tudo aquilo que é escasso – base simplista do conceito de mercado e da lei da oferta e da procura.

Escassa é também como muita gente definirá qualidade na politica em Portugal.

Curioso é o facto de também aqui, o tempo sofrer de atrofia, envolto em contra-ciclos cada vez mais instantâneos. Depois de um 05 de Outubro de 1910 desenhado em mais de 2 anos, passando por um 25 de Abril de 1974 que se estabeleceu em pouco mais de 1 ano, que a história política de Portugal se faz de contra-ciclos mornos e enfadonhos.

Isaac Newton descreveria a democracia portuguesa como gravitacional. Um pêndulo que gravita da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, em movimentos absolutamente previsíveis.

Essa previsibilidade cria algumas interrogações, tais como, a utilidade dos partidos políticos. Na teoria, os partidos surgem como elites representativas dos cidadãos. No entanto, hoje em dia, os partidos políticos representam apenas o seu aparelho político e os seus próprios interesses, utilizando a lógica da eleição como uma ferramenta de legitimação.

Na verdade, creio que todos sabemos isso. A questão está onde sempre esteve: haverá melhores alternativas? Para responder a esta pergunta (ou tentar), teremos sempre que andar para trás. A democracia não me parece estar em causa. O desespero dos que nunca se sentiram representados cria algumas ilusões sem futuro. De facto, a democracia é um conceito bastante incipiente, todavia, sem retorno.

Não estando em causa o conceito, está em causa a forma. Existem na realidade variadas formas de democracia, todas elas com qualidades e defeitos, próprio de uma criação humana. Os paradigmas vão-se sobrepondo no tempo, na politica como na ciência, com experimentação. Mas não sejamos ingénuos, o poder exerce uma força maligna, quase animal sobre quem o detém. Como podemos nós livrar-nos de um mal necessário? Não podemos. Mas podemos trabalhar para minimizá-lo, controlando-o. Algo que se diz hoje ter sido a grande falha na causa da crise económica mundial.

Como controlamos a democracia sem estarmos no poder? Com votos. De facto, temos ao nosso alcance uma ferramenta poderosa e desde sempre adormecida: o voto em branco. Temos 3 alternativas: direita, esquerda ou nenhuma. Não está em causa a democracia mas sim os governantes, os tais que estão no poder com o objectivo de alimentar o seu círculo.

A politica e os partidos deviam fazer-se representar pela elite do Pais. No entanto, os partidos fazem-se de profissionais da politica que vão subindo desde as juventudes partidárias. Eles alimentam-se da politica como único meio de sobrevivência (bastante profícuo por sinal).

Embora defenda a necessidade da elite comandar o Pais, não é menos verdade que ela própria se auto-excluiu. A causa pública tem sido uma causa perdida, sendo a causa da causa a causa em si.

Compreender, aprofundar conhecimento, ganhar consciência do problema não o resolve por si. Uma das várias razões para a situação politica actual deve-se ao financiamento partidário. Mais uma vez proponho recusar a ingenuidade. A gigantesca máquina de financiamento partidário tem como sede as Câmaras Municipais. Uma roda-viva de interesses que começam e acabam nos concursos públicos ou muitas vezes na ausência dos mesmos. Podemos ter velhas conversas relativas à construção civil, mas na verdade, essa é a vítima mais fácil, a que está mais exposta – a ponta do iceberg. Difícil era prever o aquecimento global.

De igual dificuldade é prever o futuro próximo do panorama politico português, pelo que proponho uma alternativa que enche as medidas à maioria dos portugueses: tenham fé.

Eu, como agnóstico, vou continuar a acreditar em Darwin e na sobrevivência dos mais adaptáveis em detrimento dos mais fortes…pode ser que tenhamos boas surpresas.

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Eram duas. Uma de cada lado e tão diferentes que se se conhecessem provavelmente não se iriam dar bem. Uma era colorida, cheia de vida, com experiência e as maravilhas do conhecimento sempre à mão. Actual, bonita, descontraída, sã.

A outra era escura, cinzenta, fechada numa amargura que lhe vinha da imensidão de tempo de clausura da qual não se conseguia libertar. Eram duas e uma só. Com um coração partido e uma alma incompleta. Durante anos a fio que testemunharam ausências, dores, desaparecimentos e lutas incansáveis.

Eram duas. Condenadas à felicidade de serem uma. E afinal não se desentenderam nas suas diferenças mas acolheram-se nas suas semelhanças. E foram uma. Porque é assim que deve acontecer após um reencontro. Na felicidade, na euforia do encontro, no regozijo das palavras há tanto esquecidas e agora partilhadas.

Hoje são uma. E mais uma vez comemoram a alegria do reecontro. Já lá vão 20 anos.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da comemoração dos vinte anos da queda (oficial) do Muro de Berlim, a 3 de Outubro de 1990.

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