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Archive for Janeiro, 2011

As imagens passavam-lhe diante dos olhos qual filme de terror que teimava em não acabar. Terra, gritos, madeira, escombros, lixo e água, tanta água.

As lágrimas corriam-lhe, em silêncio, pela cara gelada de terror, de uma adrenalina que lhe habitava cada poro e que não o deixava sentir os 40 graus centígrados de mais um Verão quente e húmida em terras de Vera Cruz.

Lá em baixo, para onde não conseguia deixar de olhar, deixara quatro filhos. Enterrados numa terra que tudo devorava e que não permitia luta. Ou pior, que parecia ganhar força a cada esbracejar, a cada tentativa desesperada de lutar contra aquela enxurrada eviada por Deus ou pelo Demónio, nem sabia. Nem queria saber. Sabia que aquela dor não ia passar tão depressa, talvez nunca. Ficar-lhe -iam gravadas, para sempre na memória, aquelas imagens atrozes de vidas colhidas por uma força maior.

Virou costas, enquanto as lágrimas continuavam a correr. Não conseguia mais. As suas forças, como os seus filhos, estavam enterradas sobre toneladas de lama.

Agora era altura de tratar dos vivos. As águas não esperaram por Março e fecharam o Verão mais cedo. E como o fecharam…

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/chuvas-no-rj/noticia/2011/01/mp-rj-divulga-lista-de-desaparecidos-na-regiao-serrana.html

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Não era preciso falar mais do que o nome dele para ela ficar com os olhos a brilhar. Ela falava dele com o interesse do mais interessado dos alunos, daqueles que fazem as perguntas mais pertinentes, dos que analisam com cuidado tudo aquilo que querem saber para depois irem exactamente à questão sem se preocuparem com o resto. Ela tinha o fascínio dos apaixonados, dos que vêem em casa gesto um motivo de interesse, em casa palavra um sinal de encanto, em casa traço uma característica a amar. Mais uma,  mais uma, mais uma. Assim se constróem as grandes paixões – pensei eu – do fundo da minha insignificância, quando olhei para ela e nos olhos dela só o via reflectido a ele. Ele já era ela, pensei. E ela confirmou como quem olha para uma evidência e acena com a cabeça. Era verdade.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da entrevista de Jennifer Robinson ao El País.

“Hablar con Julian es intelectualmente excitante”

http://www.elpais.com/articulo/ultima/Hablar/Julian/intelectualmente/excitante/elpepuult/20110118elpepiult_2/Tes

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Apagaste as velas com a mesma força que emprestas a tudo.  De saia às bolinhas, naquele sorriso que te já é tão habitual, deixaste que te ocupassem a casa e o coração, sedenta de uma alegria que teima em não chegar, porque tu és assim: exigente contigo, com os outros, com o mundo que parece não te querer fazer as vontades.

Seguiste à risca o lema ‘Ano novo, vida nova’, e atiraste-te de cabeça numa nova aventura. Conhecias os riscos, sabias os prós e os contras, pediste conselhos, ponderaste, dormiste sobre o assunto, tentaste evitar e por fim decidiste. Sabias, que, melhor ou pior, era a única solução.

Aplacaste a tua fome por coisas novas, actuais, fervilhantes, e guardaste a energia para coisas não tão emocionantes. Desconfio de que nos próximos meses vai ser difícil ouvir-te falar, como dantes, das coisas que escreves, que descobres, que revelas ao mundo naquele discurso tão teu.

Mas hoje o dia é teu. E é teu com toda a alegria, a força, a garra com que te agarras às coisas em que acreditas. É teu, ainda que nublado, porque é a tua determinação que há-de fazê-lo mais bonito. É teu porque há mais de duas décadas que mostras ao mundo que apesar de todos os obstáculos, de todas as dificuldades, de todas as teimosias, a preserverança e, acima de tudo, a paixão, levam sempre a melhor.

Eu só tenho a agradecer o tanto que me ensinas na partilha de projectos, de sonhos, de vontades. “Porque remar contra a maré a duas é difícil…mas é possível”.

Parabéns. Num dia só teu.

Entrada na Nossa Agenda a propósito do teu aniversário*

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(In)felicidade

Sempre gostara de ver o nascer do sol do alto daquela colina. Adorava acordar de madrugada, quando a Natureza ainda dormia, e despertar com ela. O contraste de cores, de odores, de sentidos fazia-a sentir-se maravilhosamente.

Quando deixara a cidade para conhecer a propriedade que lhe calhara em herança sempre pensara que ia por duas semanas, talvez menos, e que voltaria às suas rotinas. Mas tudo aquilo tinha sido mais forte que a vida entediante e vazia de sentido de que fingia gostar tanto.

Respirou fundo, e esporeou o cavalo. Queria aproveitar a ausência de pessoas para ter toda aquela força esmagadora da natureza só para si. Cavalgou até o sol ter nascido, firme, naquele céu tão azul como nenhum outro. Sentia-se cansada mas feliz. Era assim que gostava de começar os dias. Cansada – mas um daqueles cansaços bons – e feliz. Fora ali, naqueles campos, por entre a sombra ausente daquela paisagem, que compreendera o que era ser feliz.

Acordou de repente, com o coração em sobressalto e olhou à volta. De repente não havia sol, nem colina, nem o seu bom e fiel cavalo, nem pessoas, nem calor, nem beleza. Escutou com mais atenção e conseguia ouvir, por entre o uivar daquele vento que teimava em não abrandar, o bater ritmado e assustador da chuva.

Foi até à janela – abençoada casa de pedra construída no ponto mais alto daquela quinta – e chorou. Chorou amargamente a paisagem destruída, as plantações arrebatadas pela força da tempestade, os estábulos destroçados.

Respirou fundo e sentiu-se cansada. E infeliz. Muito infeliz. Porque, pela primeira vez na vida, não sabia como recomeçar. Nem se tinha forças para o fazer.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Brisbane à espera de cheias “assustadoras”

http://www.publico.pt/Mundo/brisbane-a-espera-de-cheias-assustadoras_1474742

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Sentiu as luzes nos olhos e ouviu a música a aumentar de volume. Chegara o seu momento e avançou para ele como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. Vibrou com o público, os aplausos e a garantia de ser um dos melhores. Sabia que impressionava. Com o sorriso, o corpo, a simpatia.

Agarrou-se àqueles 20 segundos como se da própria vida se tratasse. Bebeu-os coma sofreguidão de um preso que ansiava por água. E sorriu ao sentir-se no topo do mundo: todos sabiam quem era, o que queria, ao que vinha.

O mundo podia ainda não lhe pertencer, mas já estava ao alcance das suas mãos. Dos seus sonhos. Era só não o deixar fugir.

[…]

Quando entrou no táxi, o olhar vazio e nervoso, disse o primeiro local que lhe veio à cabeça. Entrou e sentou-se na sala de espera, tal como lhe indicara a enfermeira de serviço. Pelos olhos passaram em revista os últimos meses da sua vida. Tal como nos filmes, houve uma ascensão e uma queda. Se bem que a queda não fora bem queda, porque a ascensão também não fora bem uma ascensão.

Chorou, ao não se reconhecer. Ao perceber que antes mesmo de a viver, tinha conseguido destruir a vida pela qual tanto lutara. Ou tentara lutar. Agora ela jazia, tal como ele, numa qualquer sala de espera do mundo. Só que provavelmente, para sempre.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Carlos Castro encontrado morto num quarto de hotel

http://aeiou.visao.pt/carlos-castro-assassinado-num-quarto-de-hotel=f585184

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Entrou naquele mundo que era dela e de tantos outros e percebeu que não sabia onde se encaixar. Tantos meses depois e ainda não sabia qual o seu lugar, o espaço que queriam – que queria – que ocupasse. Respirou fundo três vezes e preparou-se para enfrentar as consequências da conversa que, decidira, não passaria daquele dia.

Odiava problemas de comunicação e tudo o que deles advinha. A comunicação era a base de qualquer bom relacionamento, dissessem os outros o que dissessem. E acreditava pouco na máxima – que tanto os ‘grandes’ gostavam de apregoar – de que ‘comer e calar’ deveria ser uma tradição.

Subiu as escadas com a certeza de que aquela seria a conversa que lhe abriria ou fecharia, para sempre, tantas portas e janelas. Mas tinha que arriscar. Porque ‘dos fracos não reza a História’ e porque ‘quem não arrisca não petisca’. E para ela, o sedentarismo e a acomodação eram ideias que estavam no caixote do lixo. Dos outros. Longe, longe, longe.

Lembrou-se da M. e dos riscos que – ela sim – correra logo ao pisar 2011. E entrou na sala que já a aguardava. Certíssima de que iria sair de lá com um enorme peso fora dos ombros. Aliviada.

Entrada na Nossa Agenda a propósito de todos aqueles que tomaram importantes decisões de Ano Novo.


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