Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for Março, 2009

Estádio cheio. Bancadas ao rubro. A cada ameaça de golo, o público respira mais alto. Suspira. Ouvem-se gritos. As mãos vão à cabeça num gesto, ora de temor, ora de alegria. O ambiente é contagiante. Como num jogo de futebol, cada um faz parte do todo. Aqui, a individualidade não existe. Bata um reagir, para a plateia acorrer em peso à mesma reacção. Os mais baixos não vêem bem aquilo que se passa à frente. Há pessoas mais altas que parecem autênticos gigantes na jornada do dia. Está calor, a brisa não arrefece. Só pesa, inteira, em cima dos corpos cansados. Suados. Martirizados. Com fome. No meio da multidão, ninguém se destaca. As roupas de todas as cores parecem um autêntico buquet de flores primaveris, que há muito não se encontram por aqui. Por cá não há água para beber. Por isso, as flores são postas em segundo plano. A vida é muito mais para além das flores. Sejam coloridas ou brancas, como aquelas que enfeitam o altar. Aquelas que contrapõem a teoria de manter as coisas simples. De dar o essencial.

Mas hoje ninguém se importa com a sede, com a fome, com o calor. Hoje as chagas são esquecidas e a dor atenuada. Há olhares de alegria por entre os de desalento. Desalento daqueles que não foram a tempo para ser parte da celebração da esperança. Esperamos pela volta. Sempre no espírito da espera. Que se uma coisa não acontece, é porque não tem que acontecer. Deus lá sabe o que faz.

Por entre as ondas de calor que teimam em subir e deixar uma sensação de sufoco quase angustiante, vê que se lhe soltou da mão. Aflita procura-o em todas as direcções. Mas o coração – e o segurança – fala mais alto. Está tudo bem.

 

Agora as memórias repousam na mesinha do quarto, qual altar improvisado no qual se recolhe todas as noites para uma oração. De agradecimento. De fé. De esperança.

Tem a certeza de que aquela criança vai ser muito mais do que todas as suas congéneres. Pelo menos, vai ter a capacidade de ser mais feliz. E lembra-se das palavras que antes não faziam sentido: “Tornai-vos como crianças…”

E segue pelo caminho empoeirado para a vida de todos os dias. Com um sorriso nos lábios e um coração cheio de bênçãos.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

O menino de um ano que fintou segurança do Papa

Fonte: JN

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1186534

 

 

Anúncios

Read Full Post »

Vencedor

Silêncio. O som dos ténis no piso bem tratado ecoa pelo campo. Cabeça baixa, músculos tensos. Sentiu todo o peso do silêncio nos seus ombros. Virou os pulsos e sentou-se. Bebeu água, pensou que tinha que concentrar-se. Ouviu o sinal. Levantou-se, pegou na raqueta e dirigiu-se à marca. A brisa leve não ia atrapalhar. Nem o sol. A roupa nova, desenvolvida para não aquecer demasiado, pesava-lhe no corpo totalmente tenso. O serviço veio do outro lado. Resposta. Bate. Bate. Flecte os músculos. Bate. Burburinho no público. Está quase. É só encontrar o ângulo morto do adversário. Ponto!

Serviço. Resposta. Bate. Bate. Bate. Bate…

O suor escorre pelo corpo, aumentou a adrenalina, aumentou a emoção e aumenta o cansaço, também. Sente-se novamente a emoção nas bancadas. A eterna rivalidade Portugal-Espanha pesa nos adversários.

Por um lado a racionalidade do melhor do mundo. Por outro a determinação do melhor português de sempre.

Portugal e Espanha. Portugal com Espanha. Portugal contra Espanha.

Venceu Espanha…novamente.

Ténis: Frederico Gil “cai” ante Rafael Nadal

O tenista português foi eliminado pelo líder mundial, na terceira ronda do torneio de ténis de Miami.

http://aeiou.expresso.pt/tenis-frederico-gil-cai-ante-rafael-nadal=f506200

Read Full Post »

Hoje

Agitas as mãos enquanto falas, não vá a velocidade do pensamento matar algumas ideias. Ritmada, entoas melodias ao compasso dos dias. Agora – imagino – mais em brasileiro. Caminhas rápida, em cima de saltos ou de sapatos rasos, que ajudam nos caminhos íngremes que planeias com tanto critério e – admirável – antecedência. Falas rápido – é certo – mas o sorriso nos lábios ajuda na compreensão aos que fixam primeiro o verniz vermelho que o significado das palavras. Fazes o orgulho dos que te rodeiam, por viveres sonhos deles sem duvidares se são bons ou maus. São sonhos, e isso – partilhado ou não – chega. Pensas num monte de coisas ao mesmo tempo. Desdobras-te em várias. Partes os bocadinhos do teu coração – e do teu tempo – para estares sempre presente em todas as vidas. E inteira. Sonhas o mesmo que eu – curiosa e felizmente. E estranhamente, o caminho é feito a par há tão pouco tempo. Desculpa-me empregar tantos advérbios de modo, mas há uma palavra que hoje não me escapa. Parabéns. Longe ou perto. O meu pensamento está contigo. Hoje – mais do que nunca -gostava  de ter uma máquina de teletransporte só para te ir aí dar um abraço e voltar. *

 

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do teu aniversário. Porque tu aqui és metade.  E metade é muita coisa. Parabéns.

Read Full Post »

Rotina

Via-o todos os dias chegar. Sabia de cor todo o guarda-roupa. Sabia das calças azuis vincadas, das meias escuras e dos sapatos, invariavelmente castanhos. E de marca. Sabia dos tiques das mãos no cabelo. Dava pelos cortes de cabelo. Pelo lavar do carro. Pelo engraxar das botas de Inverno. Sabia de tudo ao pormenor. Da maneira como agitava a mão direita dentro do bolso à procura da chave de casa que estava sempre na mala preta que trazia a tiracolo. Sabia que a caneta preta que ele usara durante anos, havia sido substituída num Natal qualquer, quando andava de caso com a menina que vinha às vezes e se enganava na campaínha do prédio. Decorei-lhe os trejeitos, as formas do corpo. O quotidiano. Decorei-lhe as horas de saída. E de chegada. A forma como fechava com cuidado a porta do prédio, com a ajuda do pé esquerdo enquanto o braço direito tentava equilibrar os posters e os convites para exposições. Sei que houve vezes que quase o obriguei a convidar-me como acompanhante, entre as que o encontrava ‘acidentalmente’ no hall do nosso andar. Sei-o quase de cor. Mas vou acabar por esquecer-me. Quebrou-se-me a rotina. E estou sem reacção.

 

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Detenido el ‘Madoff’ del comercio de arte

El galerista Lawrence Salander está acusado de fraude y falsificación y de robar 65 millones de euros a inversores

Fonte: elpais.es

http://www.elpais.com/articulo/cultura/Detenido/Madoff/comercio/arte/elpepucul/20090327elpepucul_2/Tes

Read Full Post »

Entrou na porta, como fazia todos os dias, já lá vão mais de vinte anos. Cumprimentou a recepcionista e passou o cartão magnético que lhe dava acesso ao edifício. O sorriso era o de sempre. Há vinte anos. O andar, o de sempre. Há vinte anos. O estilo de roupa o de sempre. Há vinte anos. A pasta, claramente a de sempre. Há vinte anos. Virou à esquerda e subiu o lance de escadas. Gostava de subir pelo elevador de serviço. Cumprimentava as funcionárias da limpeza, os colegas dos outros departamentos que tinham fugido para o café matinal, os estagiários que com ar assustado se escondiam no canto do cubículo móvel.

Com os trejeitos de sempre entrou na redacção e sentou-se na secretária. Ligou o computador. Como sempre. Não como há vinte anos, que nessa altura lia somente os faxes ou os bilhetes escritos em letra apressada. Leu os e-mails. Respondeu aos que pediam resposta. Encaminhou os restantes. Vagarosamente começou a arrumar a secretária. Papéis na caixa da direita. Registos sonoros na caixa da esquerda. As canetas na lata. A agenda na pasta. Em menos de nada tudo estava em ordem. Nunca fora muito desorganizado.

Levantou-se, e com a energia de sempre pegou nas caixas e fez todo o caminho inverso. Parou somente para tomar um café. Aquele café cujo gosto não poderia esquecer. Tantas horas de trabalho que o café tinha permitido. Aquele. Com aquele cheiro. Aquela cor. Aquele sabor.

Saiu finalmente no torniquete. Cumprimentou novamente a recepcionista. Disse adeus ao segurança.

Pela última vez. Desde há vinte anos…

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

EUA: The New York Times e Washington Post anunciaram novos cortes nas despesas

http://aeiou.expresso.pt/eua_the_new_york_times_e_washington_post_anunciaram_novos_cortes_nas_despesas=f505617

Read Full Post »

Hoje consegui mais três. Foi tão rápido que quase não deram por nada. O trabalho era fácil. As folhas já meio secas acumulavam-se no chão. Os galhos já pediam para serem retirados, depois de meses e meses sem serem tocados. E com a ajuda do vento perderam o controlo num ápice. Lancei as minhas garras sem sequer arregaçar as mangas. A minha força é indestrutível. Sou o todo-poderoso. Rei. E senhor. Tudo se verga à minha passagem. Tudo se dilui. Se torna cinza. Pó. Quando olho para o caminho, sem obstáculos intransponíveis, tenho a certeza de tudo o que posso fazer. Do alcance do meu avançar. Ano após ano tenho-me tornado mais cruel, mais rápido, mais esquivo. Ano após ano tentam proteger-se de mim e eu ultrapasso todas as protecções. Ano após ano os estragos são maiores porque o meu trabalho está facilitado: eu nunca dou tempo para recuperarem. Os caminhos estão abertos à minha passagem porque mesmo ao longe eu provoco um medo de morte. Sim, dei umas tréguas nos últimos dois anos. Mas confessem…já sentiam a minha falta. A vida torna-se mais emocionante quando combate a morte. Combatam-me! Continuem a tentar, mas atentem em tudo o que já provoquei em tantos países. Tenham atenção ao que já fiz. Ao caminho que já conquistei. À estrada trilhada. Às árvores caídas. Queimadas. Às casas destruídas. Às famílias preocupadas. Sem tecto. Sem bens. Sem vida. Nunca me vão levar a melhor. Eu tenho a Natureza a meu favor. Eu sou uma força da Natureza! Aah, nunca conseguirão vencer-me!

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Peneda-Gerês, Montesinho e Douro Internacional Incêndios consomem mato e floresta em três áreas protegidas http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1370627&idCanal=2100

Read Full Post »

Exéquias!

Todos em fila. Como todos os dias. Como todas as semanas desde os incontáveis meses durante os quais conviveram. A cobrir o corpo, a pele. Nua, ressequida. Marcada pela agressividade dos Homens e da Natureza. Os cabelos baços, secos, sem vida. Como aquelas almas que caminhavam guiando-se umas pelas outras, mas sem certeza de não terem já morrido. Os gritos já não significavam nada. Os gestos não significavam nada. Tentavam andar, colados uns aos outros para minimizar o frio que lhes encurtava os ossos. Quando olhavam por cima da cabeça dos companheiros de destino, viam uma ténue linha no horizonte. Nem tinham a certeza se realmente existia, que os olhos estavam cansados da escuridão a que os submetiam. Mas era um caminho recto. Sim. E havia qualquer coisa que se destacava lá ao fundo. Não percebiam o que era. A miopia não deixava. O caminho parecia não ter fim. Nem o frio. A pele está roxa e os pulmões doem com o ar frio que entra.

Sim, agora é possível ver. São sinos. É uma torre e são sinos. Será? É mesmo verdade? Serão os sinos da salvação?

 

Não, estes só tocam as exéquias…

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

 

 

 

 

Auschwitz em risco de colapso

http://aeiou.expresso.pt/video_auschwitz_em_risco_de_colapso=f504738

Read Full Post »

Older Posts »