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Posts Tagged ‘alegria’

Yes, I can.

Respirar. Olhar aquelas ondas, que se tornam maiores, menores, maiores, menores, maiores, menores. Deixar o sol queimar a pele, a vista e o cabelo. Deixar o sal lavar a alma. Respirar e agradecer, que a vida é feliz para quem agradece. Para quem sabe agradecer.

Passar em revista o último ano. O que fizemos de bem, de mal, de assim assim. Recordar os momentos melhores, os piores e escolher aqueles que queremos guardar na memória. No coração. Olhar aquelas ondas maiores, menores, maiores, menores e saber o que queremos que levem e o que gostaríamos que trouxessem. Sorrir por termos a felicidade de poder tomar opções. Por termos o coração cheio e a alma tranquila. Por podermos trocar as lágrimas por alegria, o cansaço por serenidade, a angústia por um sorriso.

Há tanto tempo que não te via sorrir, rir assim, disse ele. E eu ainda sorri mais, porque não me tinha dado conta de que o sorriso não me fizera falta apenas a mim.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da nova fase da minha vida. Porque remar contra a maré é difícil, mas não é impossível.

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Não era a voz. Grave, quase ligeiramente rouca. Não era a figura. Pequenina, enfezada, sem beleza alguma em particular. Nem sequer eram os olhos. Castanhos, iguais a tantos outros. Podia ser pelo sorriso. Autêntico, presente, cheio. Mas também não era.

Era todo o conjunto. Era a figura, que se transformava debaixo de uns holofotes escondidos. Era a emoção, que ainda hoje, trinta anos de silêncio depois, faz arrepiar quem a ouve a cada acorde. Era a melodia, alterada a cada espectáculo, mas sempre sem fugir do tom. Era o riso, a alegria, a cor, o movimento.

Elis era tudo e era nada. Inigualável porque genial. Deslumbrante porque modesta. Estupenda, porque sempre, a cada dia melhor.

A voz, inconfundível, única porque bem usada, calou-se há trinta anos. O génio, esse, nunca morrerá.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da celebração do 30.º aniversário da morte de Elis Regina.

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Do Natal nosso

Senta-se, o corpo cansado, na velha cadeira de baloiço no canto da sala. A lareira acesa, a lenha a crepitar, o calor do fogo, prepara-se já para a chegada deles. A mesa já está posta, os guardanapos alinhados com os pratos especiais que só vêem a mesa na noite da consoada, a mais importante do ano. Aconchega-se naquele sossego que é solidão nos dias normais, e fecha os olhos. Espera por eles, que hão-de chegar efusivos. Muitos, tantos, que às vezes até lhes baralha os nomes. Pensa em outros Natais, quando os grandes ainda eram miúdos, e ficavam, eles, a disputar a cadeira de baloiço do canto da sala enquanto esperavam que ele regressasse com o bolo-rei, as broas, o bacalhau.

As funções, com os anos, inverteram-se, mas o espírito, que parece propagar-se junto com  o calor que sai da lareira, é o mesmo. Os cheiros, os sabores, os gestos, repetem-se a cada ano, com mais ou menos sensibilidade, com a lentidão típica de quem já viveu muito, tanto, que vê marcada em cada linha do rosto as memórias de tantas vivências. Olha pela janela enquanto aquele torpor tão de Natal teima em se apoderar dele. Sorri, a antever o burburinho que em poucos minutos vai cortar o silêncio de neve ali ao pé da porta.

Levanta-se e ajeita aquele guardanapo que afinal parece ter querido sair do lugar. Olha para a sala que em tempos partilhou, diariamente, com aquela que ainda hoje considera a mulher mais bonita do mundo. Excepção feita para, talvez, as filhas mais velhas. Tem saudades do tempo em que não sentia a solidão entranhar-se-lhe nos ossos e em que o Natal acabava por ser só mais um dia no corrupio quase diário daquele soalho de madeira gasto por tantos passos.

Leva a mão aos olhos e limpa a água que, de quando em vez, teima em inundar-lhe a vista. Ouve o burburinho e ri. Com vontade. Porque sabe que a solidão que o acompanha, afinal, não passa de uma amiga que lhe permite gostar ainda mais dos dias em que não tem espaço para ouvir os seus próprios pensamentos.

A porta abre-se, de rompante, e entre as faces rosadas pelo frio e os cachecóis e gorros coloridos, a tristeza vai-se, sorrateira para que não dêem por ela.

Feliz Natal!, brada!, feliz abraçando todos naqueles braços de vida e de amor. Agora é hora de estar. De se sentarem à mesa e estar. A celebrar a vida, o amor, as presenças. A alegria. A felicidade. O Natal.

Feliz Natal, feliz Natal, feliz Natal.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das celebrações de Natal que hoje começa.

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Quase que se sente o coração da terra, tal é a proximidade. Quase que se sentem os corações ali ao lado tal é a angústia da partilha do saber. O sentir, o sofrer, o chorar e o rir.

Há papéis com mensagens curtas mas eficazes. Há fome e depois e a alegria da presença humana ainda que tão longe. Há raiva, revolta e uma capacidade enorme de fazer frente a uma adversidade que ninguém sabe como vencer porque nunca antes tinha acontecido.

Há prazos e esperanças e desespero. Há vozes, vídeos, jogos de futebol, de dominó, de cartas.

Partilha-se o dia, a noite, a tarde, a manhã. As semanas. Os meses. As horas. Os minutos. Contam-se os segundos. E da terra não há um pulsar mais acelerado, como que a dar sinais de que o fim está próximo.

Há força e determinação. Dentro e fora, nos dois mundos separados por 700 metros. Tão pouco e tão absurdamente tanto, ao mesmo tempo. Há poucas horas de sono que o tempo é um bem demasiado precioso para se desperdiçar quando ainda há tanto a fazer.

Há os melhores a trabalhar incansavelmente. E todos os outros a rezar fervorosamente. Há sol e chuva e calor e lágrimas.

E de repente o pulsar. Que é mais um ruído que lhes faz companhia durante horas e anima as almas cansadas da espera. Um ruído que continua e que eles não querem que pare mas que aumente até os incomodar tanto como se estivesse nas suas cabeças.

E no dia em que ele pára há gritos e risos e expressões de alegria. E são eles que se são ao ruído e que rezam, nos intermináveis vinte minutos do pulsar de uma terra que afinal é uma máquina. E a luz do sol [quase insuportável, agora]. E o cheiro do ar puro. E os abraços e os beijos e as lágrimas e os olhos cansados mas tão felizes que parecem saltar de órbita.

“Não me tratem como artista. Tratem-me como mineiro”.

E o sorriso que nunca se vai apagar pelo quase-milagre. E os arrepios. E as lágrimas. E a gratidão. Pela vida e pelo trabalho incansável de tantos homens e mulheres que nunca desistira. Tantos. E pelo  mundo que nunca deixou de acreditar.

 

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