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Archive for Junho, 2009

Sabia aquele caminho de cor, com se tivesse vivido sempre ali. Os poucos dias que passara na enfermaria, pareciam anos de solidão. Pesados e duros. Sem ponta de solidariedade. De uma alegria fria. De uma extraordinária frieza, incontornável passagem de tempo, envelhecimento, morte. Subir as escadas pé ante pé era um tormento. Arrastava o corpo débil e cansado, dos anos exposto ao sol, tão exposto à vida. Sempre que lhe apetecia conversar, tinha de correr para ocupar um lugar na fila do telefone do piso onde dormia. Onde comia. Onde era tratado. Onde não recebia visitas.

Aquele piso era uma casa vazia, ainda que cheia de aparelhos e de zumbidos estranhos. De pequeno aparelhos com luzes azuis e verdes, sempre alerta, dia e noite. Zumbiam nos ouvidos os batimentos cardíacos dos companheiros de enfermaria que lhe ladeavam a cama. Arrastavam a voz sem forças para continuar a caminhada solitária para lado nenhum. Proíbido de receber visitas, era através do único telefone do piso interdito a todos-menos-aos-de-máscara-e-bata que ouvia as vozes familiares daqueles que haviam deixado de ser a sua família.

A família dele, agora, era a marquesa barulhenta com o resguardo branco que de tão frio no inverno, lhe gelava os ossos e lhe corroía as entranhas. A família dele agora eram os companheiros da fila para o telefone. Aqueles com quem conversava enquanto esperava, sedento, por vozes de conforto e de ânimo. Aqueles, a quem se abraçava quando a hora de regressar ao quarto chegava sem que a fila avançasse o suficiente para poder fazer a sua chamada. Eram eles que lhe ouviam as mágoas. Lhe silenciavam as lágrimas. Eles, a sua casa.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da reportagem do Alexandre Soares publicada no i. Pode ser lida aqui ou vista aqui.

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As malas estavam prontas na sala do lado. Lá dentro, as compras e os momentos de uma estada de seis meses do outro lado do Oceano. O último olhar ao quarto que foi casa. Ao placard já vazio de fotografias e lembranças dos amigos de um lado e do outro. Virar as costas e não olhar para trás. Tens a certeza de que não queres que vamos ao aeroporto? Tenho toda a certeza do mundo. Não gosto de despedidas. Como disse o H. depois da “festa de despedida”, não te vou dizer adeus, Magá. É um até já!

Mochila às costas, malas nas mãos e uma cabeça cheia de sonhos. Os primeiros gestos de adeus na rodoviária tão familiar. Adeus família brasileira. Obrigada por tudo. Até já!! A viagem de quarto horas, entre um dormitar e um filme dobrado foi passando. A paisagem corria veloz, à velocidade do pensamento. Os prédios. Os shoppings. O movimento, a correria, a agitação da cidade. A cidade pela qual me apaixonei e na qual passei alguns dos melhores momentos da minha estada por terras de Vera Cruz.  No próximo final de semana não há balada por aqui. Nem visitas às redacções nem passeios pelos museus.

O pensamento divide-se entre os amigos de meses que parecem de ano, entre as experiências, entre tudo o  que  deixo e tudo o que me espera. Entre o país dos sonhos e o país da vida de sempre. O check in foi feito com calma. Sozinha. Com a apatia de quem recusou as despedidas para se concentrar no regresso e se despedir convenientemente da cidade grande. Duas horas de aeroporto, entre conversas alheias e  as músicas de sempre. Duas horas aborrecidas, como todo o tempo que se passa no aeroporto. Quem estará lá amanhã? Porta de embarque, atrasos, entradas, avisos da tripulação. São Paulo a adormecer. O avião levanta voo e começa a sessão de cinema. A diferença horária não dá sono e as dez horas passam devagar. Mais devagar seria se não houvesse uns filmes dos bons para ver. Mas vão passando e isso é que importa.

Uma hora antes da aterragem a luz do sol desponta sobre as nuvens. Lisboa está a acordar. Preparar para sair, para encontrar sabe-se lá quem, para voltar a casa e aos braços dos que estão sempre aqui. Saímos do avião com as queixas do costume. Doem as pernas, os braços. Os ovos do pequeno-almoço estavam péssimos. E as malas? Vão demorar horas, aposto. Não demoraram. Na alfânedega, a assimilação de que já não sou uma estrangeira em terras desconhecidas. Sou  uma cidadã que chega como estrangeira e vê tudo como quem olha pela primeira vez.

O carrinho vai cheio de malas e de recordações. Quando olho, sorrio. O ciclo fecha com os rostos conhecidos que me esperam àquela hora da manhã. Que me deixaram naquele mesmo lugar seis meses antes. Que me acompanham antes e depois da aventura. Os nervos estão praticamente ao mesmo nível do dia da partida. Porque agora volta a ser o desconhecido, mesmo que na terra que conheço tão bem. Obrigada a todos por terem vindo…

Agora um novo ciclo começa. Não se sabe o que trará, o que reserva. É a surpresa, novamente… O inesperado. É voltar a pensar no que será a vida. Mas há coisas que nunca mudam. E é isso que nos faz sempre regressar.

A certeza de que quem importa espera por nós. Deste ou do outro lado do Oceano.

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Miss Maggie é de estatura média. Dedos longos, pose altiva. Tem nome de personagem de desenho animado, mas a maneira como fala transmite mais do que simples morais da história. Há na cadência da sua voz, o encanto de terras de Vera Cruz. Há expressões que parecem vindas das novelas, memórias que se vêem até na cor do verniz que traz nas unhas. Alter ego, miss Maggie caminha insegura e empurra o carrinho com quatro rodas, com dificuldade. Na bagagem traz muito para além dos vinte e três mais dezasseis mais sete quilos de malas cheias de sapatos e de vernizes Risqué. Miss Maggie olha para a rampa curta das chegadas e sorri, como se tivesse saído de um sonho e entrado numa realidade de fantasia. Viveu uma vida paralela – miss maggie – entre os dois lados de um mesmo oceano. Como se a distância fosse só teórica e como se o afastamento físico se reduzisse, num instante, a uma proximidade controlada. Miss Maggie controlou tudo e foi contando na primeira pessoa e com olhos de quem vê com palavras, as sensações de chegar a um país diferente sem deixar – de todo – o país de origem. E as pequenas expressões cariocas não são mais que marcas temporárias do que vai ficar depois gravado no coração. A origem passa a destino e o destino a origem, num ápice. Valha a miss Maggie a memória farta de meses rápidos e bem-vividos. Miss Maggie voltou. E vai sentir-se para sempre dividida entre a saudade. E o samba.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da chegada da Meg. A minha notícia do dia. O destaque na minha agenda.

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Sempre gostei de escrever. Acho que por isso segui jornalismo. Era a paixão pelas palavras, pelas letras, pelas frases. A vontade de dar significado às coisas, o prazer de transportar as pessoas que me liam para um lugar onde poderia nunca ter estado, mas que lhes pareceria – através das minhas descrições – completamente familiar. Nunca tinha pensado fazer jornalismo de guerra. Assustava-me ter medo constante de andar pela rua. O receio de assistir a bombardeamentos. A cenas de violência que poderiam marcar-me para sempre. A imagens que poderiam consumir-me as horas de sono, trazer-me mudanças de humor repentinas, alterar-me a minha maneira de ser e reduzir-me à minha insignificância. Os cenários de guerra – contavam-me – são difíceis porque se afastam de tudo aquilo que se conhece. Àparte a enorme violência a que nos expõem, pode ocorrer que as palavras nunca sejam suficientemente pesadas, fortes e duras para descrever a quem não está aquilo que se passa. E aí, se nos faltas as palavras, o trabalho do jornalista não cumpre a função. E passa a ser inglório.

No dia em que me mandaram a Teerão para cobrir as eleições, nunca pensei ter de lidar à força e sem esperar, com um cenário de guerra. Há lixo e sangue pelas ruas. As bermas não existem e, pessoas e carros misturam-se nas estreitas vias cimentadas. Porque o alcatrão é demasiado caro – e demasiado escuro – para uma cidade já tão fustigada pelo negro dos dias e pelo bréu rigoroso das noites. Há oito dias que os confrontos não abrandam. Há oito dias que não durmo, com medo de perder algum pormenor que me impeça de contar a quem me lê, me vê e me ouve, aquilo que realmente se passa em Teerão. É que sou só um. Filmo, escrevo, falo. Gravo, reflicto, penso. E vivo isto tudo comigo. É difícil estar aqui, na solidão desta profissão que nunca me deixa sozinho. Sou eu o portador das histórias deles. E eles confiam em mim para as fazer chegar ao mundo. E agora, que dia-a-dia o desafio aumenta e constrange os olhos que querem mas não querem ver mais, espero que a redacção mude de ideias e me deixe ficar. É que ficar é duro. Mas dureza extrema vai ser quando não estiver ninguém de nós, nenhum olhar sensível que se sinta desafiado a descrever tão dura realidade em palavras. Para que o mundo realmente saiba que por detrás da confusão, dos tiros, das pancadas, das tribunas de voto, das batalhas e das batotas, da violência e das eleições, há pessoas. E histórias que merecem ser contadas.  

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Media

BBC confirma que o correspondente em Teerão deverá abandonar o país

http://www.ionline.pt/conteudo/9715-bbc-confirma-que-o-correspondente-em-teerao-devera-abandonar-o-pais

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Um. Dois. Som. Pum. Teste. Som.

Céu limpo. Nem vestígios do nevoeiro dos últimos dias. Há sempre o medo de que as coisas não corram tão bem como se espera. Um nervoso miúdo de quem há tantos anos anda na estrada e ainda não se habituou a escrever dedicatórias nas camisolas com a própria fotografia. Há nele a humildade de quem nunca pensou chegar onde chegou. Há nele a constante surpresa de quem tem sonhos por realizar mas nunca espera que eles cheguem tão cedo. À frente do palco, a multidão vai-se amontoando. Há t-shirts assinadas, bonés. Grupos vindos de todo o país. Sobretudo mulheres. E crianças. Várias gerações de mulheres que se junta num gosto comum. Numa paixão comum. Num encantamento. E cantam numa só voz. O palco está preparado. Testam-se as últimas luzes. O som. Os instrumentos. Na relva, sentadas, esperam que ele apareça. Que lhes envie um sorriso. Isso chega. E faz tremer. Porque na vida, simples e vaga, são precisos heróis. Ele tinha um sonho. Veio de baixo. Do fundo. Pegou na guitarra e começou a tocar.

Não importa o que toca. Porque toca corações. Faz as pessoas crédulas. E seguidoras das suas palavras. É seguido, nas palavras, nos acordes, nos percursos e nos concertos por uma legião de fãs. Crentes. É um deus. E elas as suas musas inspiradoras.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

BELA VISTA
Mega pic-nic dia 20 em Lisboa com Tony Carreira

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A resposta era sempre a mesma quando ouviam a declaração: Ah, não pode ser. Está mesmo a falar a sério? E ele sorria. Como sempre.

Desde pequeno que era um garoto bem disposto. Acordava a sorrir, brincava com os irmãos, ia para a escola sem birras. Aprendera música desde cedo. Piano. E canto. Com o cabelo encaracolado e o sorriso aberto fazia as delícias de quem o ouvia. É um verdadeiro anjo. Que delícia de menino. A adolescência tinha sido aborrecidamente normal. Nada de muitas festas. Nada de muitos disparates típicos. Nada de bebida ou de tabaco. Continuava com as aulas de piano e passou para a composição. Os vizinhos adoravam os concertos gratuitos todos os dias. Especialmente quando a irmã o acompanhava no canto. Que maravilha. Estás a ouvir como ele toca cada dia melhor? Depois veio a fase dos amores. Da paixão. Da relação que ia ser para sempre. Porque eles são o casal mais bonito daqui. Têm tudo a ver! Não me admira que quando terminarem a faculdade estejam casados.

A entrada na faculdade. O curso, um dos mais exigentes. E um outro amor que se ia instalando. Causando angústia. Que ia tentando ganhar espaço num coração que – pensava ele – já estava totalmente preenchido. Como sempre o curso correu bem. A matemática não assustava. Nem a física. Mas aquela inquietação sim. E como decidir? Como se escolhe entre dois amores? Ou seria só um encantamento? Uma paixão? Um engano? Podia atirar os três anos daquela relação para o ar para abraçar aquilo que agora achava ser o correcto? E se estivesse errado?

A viagem podia ajudar a esclarecer. Ela sabia que algo não estava bem. A relação não era a mesma nos últimos meses. O sorriso esmorecera-lhe no rosto embora continuasse a emanar amor pelos gestos, os olhos, a música que nunca deixara de tocar. Até que ele decidiu. Desculpa. Mas vou ter que saber o que isto significa. Não é justo ficar contigo se não for a sério. Totalmente. E agora eu não posso estar contigo totalmente porque há algo mais no meu coração.

(…)

Os amigos já se tinham habituado à ausência física. Sabiam-no presente e tinham saudades dele. Mas sabiam que tinha feito a escolha correcta. Não se pode ter dois amores. Não dá para partilhar um coração. Porque ele é só um.  A todos custara a separação dos amigos, mas sabiam que era na felicidade dele, naquele dia, que estava toda a verdade! Olharam emocionados o rosto escondido pelos braços e olhos – sabiam, mesmo não vendo – fechados.

Vós me seduzistes, Senhor

E eu me deixei seduzir

Vós me dominastes

E venceste.

(…)

Olhou novamente para a senhora que o interpelara. É mesmo verdade. Sou padre! Novo, mas padre! E sorriu. Como sempre.

Entrada na Nossa Agenda a propósito do início do Ano Sacerdotal, hoje:

http://umasemanacom.blogspot.com/2009/06/ano-sacerdotal-o-que-e-ser-um-padre.html

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As folhas em branco repousavam sobre a mesa.  O professor esperava o toque da campainha para iniciar a distribuição dos exames.  Virados para baixo, para que ninguém começasse a prova antes do tempo estipulado. Ao segundo toque o “ruge-ruge” das folhas a serem viradas e a ansiedade a transparecer em cada rosto nervoso.  Numa secretária uma garrafa de água.  Na outra um chocolate. Em todas elas os Bilhetes de Identidade. Os primeiros sorrisos de alívio depois de uma passagem rápida por todo o enunciado. Os grandes fantasmas estavam de fora. Assim seria fácil. Tal como tinham previsto. Em ano de eleição nunca falha.

Para os repetentes, foi o prémio da lotaria. No ano anterior tinham tido vontade de chorar à primeira pergunta. Agora facilmente fariam todas. E mais, conseguiriam boas notas. Sem qualquer dúvida. É a vantagem. Quando corre muito mal num ano, no ano seguinte safamo-nos sempre. Ninguém quer um país em que a média das classificações na disciplina da línuga materna é 10…

José Saramago e Luís de Camões ficaram nos livros. Em casa.  Nem uma espreitadela aos exames dos quase-universitários. As eleições estão à porta. E a média dos últimos exames de português faz corar qualquer português que se preze – atenção, que se preze! Por isso, o mais fácil é mesmo tabelar por baixo. Se o exame for mais fácil todos tiram boas notas. Ficam contentes. Votam em quem lhes facilitou a vida. As notas sobem. As entradas nas universidades também. E o número de propinas.

Se é uma boa solução para todos, deixemos Luís de Camões descansar das suas aventuras e desventuras e José Saramago continuar a escrever bons livros.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Exames nacionais
Professores de Português consideram que prova não repetirá “resultados catastróficos” 

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