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Archive for Fevereiro, 2010

Vou levar o cinzento. Com as ‘jeans’. Tu?Tu podes levar o preto. Com as ‘jeans’ mais claras.

No meio da rua, por entre a neblina matinal e o frio, olhares entrecruzam-se na esperança de algo diferente. Uma confusão de casacos, botas, malas, cachecóis, gorros, luvas enche as ruas e torna o Inverno ainda mais…inverno.

Na calçada coleccionam-se capas de botas, pedaços de tecido, solas que não resistiram ao mau tempo ou ao uso consecutivo. Há lojas com manequins infelizes à espera que alguém entre para os despir da roupa que há tanto tempo carregam no corpo. Há montras coloridas e outras nem tanto. Funcionários entediados ou somente aborrecidos pelo dia cinzento, que não têm a certeza se preferem ter clientes a quem terão que  mentir sobre a roupa que lhes fica bem; ou se preferem continuar sozinhos a pensar na monotonia da luz de Lisboa.

Quero ver aquele casaco ali, por favor.

O azul-escuro?

Sim, sim, obrigada.

Há tristeza no rosto dos transeuntes. A vida não está fácil, é certo, mas nem tudo tem que ser mau. Mas em Portugal é assim. Se tudo não está conforme queremos sai um Vai-se andando ou a vida não está para brincadeiras. Há sempre quem diga Deves pensar que eu tenho a tua vida. Tudo isto dito com um olhar carregado, as rugas da testa acentuadas, a roupa escura como o tempo e eventualmente um esgar de impaciência pelo aborrecimento que é ter que falar a alguém. Ou ver alguém.

Não quer ver o vermelho?

Mas o senhor acha que eu tenho idade para usar essas coisas?
Enquanto a porta da loja se fecha, sente o ritmo pesado da cidade. Olha à volta e pensa Sim, pelo menos a rua está de acordo com o que toda a gente sente. Ah, o nosso fado, o nosso fado. Olhe, é como diz o outro: Vamos andando, devagarinho… Os olhos pousaram em cada casaco, em cada camisola, em cada par de calças, em cada cachecol, em cada gorro. Tudo escuro. Como deve ser em tempo de contenção.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia

Como se vestem os portugueses?

Fonte: Revista Pública, 28 Fevereiro

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Aqui ao lado

Muito falamos nós das festas a que vamos, do que comemos ontem naquele jantar para que fomos convidados ou das caipirinhas que bebemos na noite de Carnaval. Muito vamos nós à missa, muito nos queixamos da vida regrada, sempre igual. Muito praguejamos nós que os anos passam e nos sentimos envelhecer sem que nada façamos para poder evitar a passagem inexorável do tempo. Sem dizer até amanhã ao namorado com quem estamos chateados. Ou sem ligar à avó, que já não vemos há meses, porque saímos demasiado tarde do trabalho. Ou demasiado moídos do ginásio. Ou demasiado ocupados da vida. Dos problemas que vemos em cada esquina. Das dificuldades que se nos atravessam no caminho. Permanentemente. Sem avisar nem dat descanso. Muito nos queixamos nós da vida calma, da chuvinha irritante que nos dificulta as gargalhadas – muito mais fáceis quando o sol quentinho nos aquece a cara por mais que sejam oito da manhã e esteja frio. Pouco agradecemos por estarmos assim. Só com a chuvinha. Só com o frio suportável. Só com uma barriguinha cheia. Só com um trabalho que nos preenche. Só com o que comer. Só com uma conta bancária que nos deixa ir ao cinema. E ao teatro. E jantar com amigos. E almoçar fora de vem em quando. E comprar umas sandálias da colecção de verão (mesmo sem a chuva ainda ter dado descanso). “Só”. Só que aqui ao lado, não. É diferente. Mesmo aqui ao lado. Só isso.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da tragédia do mau tempo na Madeira:

Las unidades de rescate siguen buscando víctimas en Madeira

http://www.elmundo.es/elmundo/2010/02/21/internacional/1266764771.html

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Sempre se ouviram mil histórias sobre ti. E desta vez não é uma hipérbole, são mesmo mil. Cresci com bandas desenhadas, com histórias mais ou menos sérias. Fazes parte do meu imaginário desde que me sei gente. Nada de novo. Acho que fazes parte das lembranças de toda a gente, ao redor do mundo.

Por ti criámos as fantasias mais curiosas. Quisemos ir até ao Egipto e ver como são as pirâmides de verdade. Desconfio até de que teremos escrito coisas sobre ti. Novas, mas nem por isso menos falsas. Escrevemos sobre ti aquilo que fomos imaginando. Até porque a tua história deixa, tantos são os recantos obscuros de que se reveste.

Mas agora há novidades. Verdadeiras. Irrefutáveis. Que podiam deixar a tua magia pelas ruas da amargura e fazerem-nos apaixonar por outro alguém envolvido em mais mistério. Em mais segredo.

Mas tu és tu. O menino de ouro do reino que não conhecemos. Agora sabemos que foste doente. Que tinhas provavelmente malformações que te não deixavam andar sem ajuda. Que tinhas problemas de ossos. Talvez até fosses feio. E a tua mãe afinal não era aquela.

Mas és tu. A magia de um Egipto que ninguém conheceu.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Nefertiti no era la madre del rey

http://www.elpais.com/articulo/cultura/Nefertiti/era/madre/rey/elpepucul/20100218elpepicul_5/Tes

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Do desemprego

Caminhou em direcção a casa com um autómato. Sem pensar, sem sentir, sem ver. Sabia que aquele estado de torpor não podia durar para sempre, mas também não ia lutar contra ele. Não queria. Era mais fácil assim.

Sentou-se na sala varrendo com os olhos o seu interior. Viu a chave do carro, a televisão nova, o home cinema, os sacos ainda por arrumar do último final de semana passado nas compras. Olhou para cima da mesa, onde repousavam os bilhetes de mais uma viagem – pelo menos uma por ano – de férias.

Quando ele entrou, as palavras ficaram presas. Olhou nos olhos deles e o mundo ruiu, de repente. Os sinais já tinham chegado há muito tempo mas eles não os viram. Não os quiseram ver. Acharam que era problema dos outros. Que não lhes ia chegar.

Mas chegou. E agora era hora de mudar. Pelo menos aquilo que ainda fosse possível. Porque tudo ia piorar [muito] antes de melhorar.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Desemprego em Portugal aumenta para 10,1%

http://economico.sapo.pt/noticias/desemprego-em-portugal-aumenta-para-101_81771.html

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Da injustiça

As injustiças dão cabo de nós. Chegam de mansinho, escondidas por sorrisos e palmadinhas nas costas. Geralmente estão à nossa volta, a pairar como aqueles fantasmas que teimam em nos atormentar.

Mas nós gostamos de acreditar. De acreditar que o mundo é melhor. Que as injustiças estão a acabar, que à nossa volta é tudo verde, rosa, amarelo, azul-cor-de-céu.

Quando o sol se pôs ela chorou. De dor. De sofrimento atroz por se saber enganada por sorrisos e palmadinhas nas costas. Por se sentir terrivelmente traída pelo sistema. Pelas pessoas.

Quando o sol nasceu ela ergueu a cabeça. Sempre com o apoio daqueles que importa, sorriu mesmo que magoada e seguiu em frente. Certa do seu valor e de que o seu trabalho valia bem mais do que aquilo que lhe faziam crer.

Certa de que apesar das injustiças e das crueldades do mundo, ela ia vencer mais este desafio. Como fizera a sua vida inteira. Porque é isso que ela é: uma vencedora!

Entrada na Nossa Agenda a propósito das pessoas que são todos os dias injustiçadas. E que não desistem!

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