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Archive for Setembro, 2009

Os boatos apareceram um mês e meio antes das eleições e ninguém lhes deu crédito. Há coisas que mais vale nem comentar – pensavam muitos, à espera de acalmarem a curisidade latente neste tipo de histórias que levantam suspeitas. E como um rastilho de pólvora, silencioso e discreto, percorreu caminhos sem que ninguém lhe desse importância. De repente, revelaram-se nomes, falou-se em pessoas, descredibilizaram-se notícias, pôs-se em causa a segurança, a intimidade, o direito ao pessoal. Mas o rastilho ainda não chegara ao barril, apesar de ter passado por picos que provocaram danos em alguns, e levaram outros a considerarem-se beneficiados. De resto, nada. Nem uma palavra. Um silêncio abrasador. Uma verdade à espreita, tímida e benevolente, envergonhada, que não gosta de aparecer senão no momento certo. Agora que passaram os votos, que se contaram os papéis, que o povo escolheu um líder por detrás de caras insatisfeitas por falta de alternativas, o barril falou. E explodiu connosco. Porque continuamos sem saber o que aconteceu, por que aconteceu, e com quem aconteceu. E agora? Esperamos pela próxima explosão, ou fugimos já?

Entrada Na Nossa Agenda a propósito das declarações do Presidente da República, sobre as alegadas escutas a Belém.

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Do riso

Nem sempre a vida é assim. Engraçada, sorridente, cheia de imprevistos curiosos que se transformam em gargalhadas só porque sim. Mas há quem consiga fazê-lo mesmo quando parece impossível. Ou improvável. Multiplicam-se pelo mundo como os novos vírus. Parece que depois de terem surgido nunca mais abrandaram o ritmo de proliferação. Altos, baixos, homens, mulheres, gordos, magros, bonitos ou feios. São de todas as nacionalidades e são de todas as estaturas. Fazem sucesso no seu país (nem todos conseguem ser tão bons que façam funcionar além-fronteiras), geralmente entre as gerações mais novas. Ou mais ligadas ao mundo.

Nem sempre a vida sorri. Mas enquanto houver quem faça os outros sorrir – do circo à stand up – vale a pena sorrir para a vida. Com a ajuda de profissionais. Do riso.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Jogando no Quintal e Cia. Barbixas improvisam em cima de notícia de jornal

Fonte: Estadão

http://tv.estadao.com.br/videos,JOGANDO-NO-QUINTAL-E-CIA-BARBIXAS-IMPROVISAM-EM-CIMA-DE-NOTICIA-DE-JORNAL,72286,0,0.htm 

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Rebeldia

Geralmente é assim que funciona. Há organizações compostas por membros. Todas as organizações têm regras. Essas regras são seguidas por todos.  Mas como em todos os casos, há sempre uma excepção que confirma a regra. Ou, falando de outra forma, há sempre um membro que é adepto da rebeldia.

E isso não é de espantar. Todas as pessoas êm o seu quê de rebeldia. Nuns ela é visivel em tenra idade. Noutro ela transparece mais tarde, por votla da adolescência. Há também aqueles que parecem nunca passar por ela mas eis que, entrados na idade adulta, se rendem à adrenalina dos actos rebeldes.

Mas convém que não esquecer que até em idades mais avançadas há quem goste de um ou outro momento de rebeldia. Isso apimenta a vida. Faz com que ela seja mais colorida, divertida.

Funciona assim com os membros das organizações. Quais são as diferenças? Numa organização um acto de rebeldia implica mais gente, afecta mais gente e geralmente tem consequências maiores.

Os actos rebeldes nunca surgem quando não há mais assunto em agenda, porque senão eles não teriam o impacto de rebeldia que tanto almejam. Portanto, nada melhor do que a data em que termina a reunião do G20 onde se aprovaram novas medidas para combater a crise, nomeadamente, substituir o G8 pelo G20 como principal ponto de cooperação económica.

Assim eles até aproveitam o facto de estarem já todos juntos. E óbvio que vão tomar alguma medida. Mas isto assim também tem muito mais graça.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Potências aumentam pressão contra Irã após 2ª usina nuclear

Obama exige que Teerã permita inspeção da ONU em instalação atômica secreta para enriquecimento de urânio

Fonte: Estadão

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,obama-acusa-ira-de-ocultar-construcao-de-2a-usina-nuclear,440830,0.htm

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Stronger*

Começou no Sul. Veio sem aviso, ainda havia recordações frescas (e geladas) do Natal. Chegou com a força de uma tempestade e a crueldade da morte, envolta num manto negro que esconde aquilo que todos querem conhecer para poder evitar.

Num primeiro momento manteve-se assim. Estupidamente silenciosa por vontade própria ou dos outros, delimitada numa fronteira que afinal nunca existiu porque sempre lhe foi superior. Fez manchete de  jornais, abertura de telejornais, mobilizou milhares de pessoas e pôs um mundo em alerta. Sem razão nenhuma, diziam uns. Será que não é ainda pior do que se tem mostrado?, questionavam outros.

Conseguiu colocar todos os continentes num raro momento de cooperação, esquecendo quezílias ou inimizades. O velho lema Juntos seremos mais fortes pareceu passar pela cabeça de todos os que deixaram para trás as horas de sono e os problemas tão minimizados, agora.

Os meses foram passando e ela foi quase esquecida. Especialmente no Norte, onde o sol brilhou com força e como sempre apagou as lembranças más e os pensamentos pouco auspiciosos. Abrandou-se a luta, baixaram-se as defesas. E ela apareceu novamente. Para provar que afinal ficou mais forte. Quando todos tiveram a ousadia de pensar que a tinham vencido.

 

*mais forte

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Primeira morte em Portugal por gripe A

Fonte: Jornal i

http://www.ionline.pt/conteudo/24481-primeira-morte-em-portugal-gripe-a

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Estava frio quando saiu, naquela manhã. Aconchegou o cachecol e fechou o último botão do casaco. Ainda bem que vim de botas, pensou enquanto estugava o passo até ao carro. Bom dia, senhor, sorriu-lhe o motorista, respiração gelada e luvas de pele, encolhido no grande sobretudo de pele. Bom dia. Pode colocar o carro pertinho da porta? Está frio para as crianças virem até aqui.

Elsa sairam, só quase olhos debaixo de tantos agasalhos. Adeus, mãe, até logo. Quando chegaram à escola, o páteo era um mar de cor. Gorros e cachecóis verdes, amarelos, vermelhos, azuis, às riscas e às bolinhas. casacos compridos, botas de borracha. Ele sorriu para elas e seguiu viagem que o dia ia ser longo. Para variar.

(…)

Querido, tens a certeza de que é preciso ires de botas?, disse-lhe ela em ar de graça. Claro, como não? Viste o frio que estava ontem? Ia gelando da porta até ao carro.

Abriu a porta de casa e sentiu um bafo quente. Não era Verão, mas parecia claramente que a Primavera se tinha antecipado e que decidira fazer-lhes uma surpresa. Ia morrrer de calor se repetisse os agasalhos do dia anterior. Meninas!, troquem de roupa!! Está demasiado calor para botas e luvas, hoje.

A caminho da escola pensou em como tudo muda tão rapidamente. E em como ele, agora, tinha o poder de fazer alguma coisa para ajudar. Sim, faria parte das prioridades da agenda. Mais um erro da administração anterior para corrigir, mas, apesar de já ser tarde, era pior se não fizesse coisa alguma.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Conferência sobre o clima na ONU
Obama diz-se “determinado” a combater aquecimento global 
 
 

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Subiu devagar as escadas do prédio, mesmo apesar da pressa em chegar ao sofá e descansar as pernas. Sentia-se cansada, e a barriga já pesava, apesar de ainda faltarem mais de três meses para o nascimento. Quase seis meses e nenhuma desconfiança evidente. Nem olhares piedosos, nem perguntas indiscretas. Nada. A estranha sensação de passar despercebida – não que não quisesse, mas… – pelas ruas habituais, pelas lojas do costume, por desconhecidos e até pelos pais, que a conheciam tão bem. Há dezassete anos.

Apoiou a mão no corrimão e puxou o peso do corpo, sempre na tentativa de lhe dar balanço que servisse de impulso à barriga proeminente. Os braços tinham ficado mais fortes, os ombros mais largos, a cintura menos marcada e os tornozelos mais grossos. E com o verão a chegar e a temperatura a subir, sentia-se inchada – força das circuntâncias – e cobria de creme hidratante todos os pedaços de pele aos que conseguia chegar com os braços curtos, típicos de uma estatura pequena como a dela. As calças, há muito que deixaram de servir-lhe na barriga. Os botões das camisas mais justas saltavam quando os tentava – ingloriamente – apertar. E as t-shirts marcavam demais a curva frontal, que iria denunciar rapidamente o segredo escondido.

Tinha um bebé a crescer-lhe na barriga e nunca pensara desfazer-se dele. Antes morrer, pensava tantas vezes, mesmo no momento em que soube da gravidez, naquele instante de choque e dúvida e tristeza e rejeição e revolta. Imaginava-lhe a cara, o nariz pequeno, o cheiro doce, a energia inesgotável. Falava-lhe muitas vezes em viagens que poderia fazer com ele, nos gelados frescos no pico do verão, e nos passeios à beira-mar ao final do dia. Nunca sonhara ser capaz de levar avante a ideia. Nem por teimosia. Mas nunca pensou desfazer-se dele. Antes morrer. Repetia. Antes morrer.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Madres adolescentes

Criar un hijo a los diecisiete

http://www.elpais.com/articulo/portada/Madres/adolescentes/elpepusoceps/20090920elpepspor_9/Tes

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A Catedral da Sé de São Paulo, marco central da cidade podia ficar-se por isso mesmo: ser um monumento belíssimo, no ponto zero da capital do Estado, à volta do qual se reúnem todos os dias camelôs, homens-propaganda (vestidos com os cartazes da loja que representam), moradores de rua, empresários, oficiais de justiça ou simples transeuntes que gostam de passear no centro velho. E isso não seria pouco.
 
Mas a Sé é também o encontro da Alemanha, Espanha, França Itália, Portugal e Brasil num só edifício. Ponto de convergência de um polígono geográfico que atravessa o Atlântico e se ergue em imponência e majestade como arauto de uma cultura de sinergias.
 
Quando em 1918 foi lançada a primeira pedra, estava a abrir-se caminho para 36 anos de colaboração cultural em prol de um único objetivo. O arquiteto alemão Maximilian Emil Hell, autor do projeto; os canteiros portugueses e espanhóis, que esculpiram à mão cada entalhe de pedra que pode ser visto na Catedral; os mobiliários e mosaicos italianos e o investimento e mão-de-obra brasileiros.  O edifício é assim espelho de uma quantidade de culturas ainda hoje tão presentes na cidade de São Paulo, desde sempre destino de emigrantes de todo o mundo. “Quando queremos conhecer uma cidade, precisamos voltar nosso olhar para sua igreja matriz: ela é o reflexo de sua identidade. No caso da Sé de São Paulo: veio ocupar o lugar de uma igreja colonial, com o ideal francês e italiano (estilo neo-gótico), assim como toda a cultura paulistana da época.”, afirma Bianka Tomie, gerente editorial, e autora um trabalho científico, pela UNESP, intitulado” O Estilo Eclético da Catedral da Sé de São Paulo e suas Manifestações Neo-góticas”.
 
Mas então São Paulo não se queria libertar dos ideiais colonizadores, que durante anos agrilhoaram o país às culturas europeias, por meio da força e da subjugação? Pelo contrário, refere Bianka. “A Sé foi erigida para transpor o período colonial vivido pela cidade, que aceleradamente, se transformava em metrópole. Na escolha do estilo arquitetônico, optou-se pelo gótico, símbolo da elevação e do desenvolvimento para reforçar o ideal de progresso que se almejava naquele período”.
 
Progresso é também o objetivo do novo projeto do cura da Catedral da Sé, Valter Caldeira, que, à semelhança do apóstolo que dá nome à cidade, pretende que a comunidade possa ser exemplo de conversão. Quando ainda era Saulo de Tarso, São Paulo perseguiu e matou cristãos, considerando-os hereges que pregavam contra os valores judaicos que seguia. Mas a figura de “Apóstolo” maior surge com a sua conversão, que o transformou num dos mais ardentes proclamadores do Evangelho.
 
É seguindo seu exemplo que o padre Valter iniciou agora esforços para, em conjunto com a Secretaria do Bem–estar social, inaugurar um novo projeto para todos os que andam vagueando pela Sé. O cura pretende que um assistente social esteja na Catedral duas a três vezes por semana, ajudando na orientação dos desabrigados e dependentes químicos que ali encontram sua morada. O principal objetivo é “humanizar a Sé”, transformando um dos lugares mais emblemáticos da cidade, num espaço aprazível, podendo  desta forma continuar a estabelecer um paralelo entre o caminho de Paulo, o Apóstolo e São Paulo, a cidade.
 
 
Pode considerar-se que o caminho de São Paulo até à conversão simboliza o percurso do país e da cidade, em concreto, até ao final da colonização. Toda a História de São Paulo, metrópole, aponta, depois, para um caminho de busca de identidade, de esforço comum, de acolhimento, de convergência cultural. Tal como Paulo, que, falando quatro línguas – grego, hebraico, latim e aramaico – acolheu sempre os estrangeiros que o abordavam, saiu da sua terra ao encontro dos outros e falava da importância da caridade acima de tudo, depois de ter encontrado seu caminho pessoal.
O próprio edifício da Sé é sinal claro desse acolhimento sem distinção, ao abrigar todos aqueles que estão desamparados e que procuram um teto sob o qual descansar e um caminho pelo qual seguir.
 
A simbiose cultural que hoje se vive na Sé de São Paulo mostra como essa cosmovisão da cidade permitiu que se transformasse no espaço eclético que a torna tão única e inigualável. Construída por mãos de diferentes raças e estratos sociais, a Catedral continua a mostrar que muito mais do que ponto central da cidade, marco zero de onde todos os caminhos saem, ela continua a ser palco de lutas e de conquistas. A Catedral da Sé será, acima de tudo, centro de difusão cultural e da magia do acolhimento paulino.
 
Ou não estivesse uma estátua de São Paulo a guardar o lugar com a mesma postura firme e acolhedora com que anunciou a força de um Amor maior. E quem não ama um passeio até à Catedral da cidade?

Entrada na Nossa Agenda a propósito das matérias produzidas para o CIJA do jornal “O Estado de S. Paulo”. Esta foi a primeira.

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