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Archive for Setembro, 2013

Falem bem, caramba. Não se diz “há quatro anos atrás”. Tenham vergonha. Não dêem a emigração como desculpa para a abstenção num país de greves mensais e de queixas hora a hora. Num país assim, as pessoas deviam fazer fila à hora de abertura de urnas, porque sentem que há alguma coisa para mudar e porque têm o direito de se sentir participantes de um sistema que podem mudar. Não, não e não. Não venham com histórias de que a chuva e a praia e o vento e as dores de barriga e o preço da gasolina e o raio que o parta são desculpa para não irem votar. Tenham tino. Deixem de se queixar das irresponsabilidades dos políticos e olhem mais para dentro. Quantos, de vossa casa, têm mais de 18 anos e foram votar?

Olhem para os números: já bastam os declarados mortos que estão vivos e os mortos-vivos chamados às urnas. É assim tão grande o esforço de largar o Facebook e voltar àquela escola primária onde aprendemos a ler para sentir que também nós somos responsáveis pelo nosso futuro? Basta. Chega desta apatia desmedida que nos retira a capacidade de sermos mais. Chega de dar desculpas esfarrapadas para não fazer aquilo que nos cabe. Todas as razões são boas para sair de casa, e esta ainda melhor. É nestes dias em que podemos contribuir para alguma coisa que devemos fazer uso do nosso egocentrismo diário: sair de casa por nós.

Está tudo bem com as pessoas? Já chega de deixar a nossa vida nas mãos dos outros e, por cima disso, ainda dizer que não podemos fazer nada. A culpa disto também é nossa, muito nossa. Será que ninguém se dá conta? Caramba, que autoridade a nossa de estar sempre a criticar sem tentar olhar para o outro. Mexam esse rabo. E não me venham com histórias.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito disto. Que tristeza.  

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Um vazio imenso. Um vazio ensurdecedor quando se olha, quando se absorve, quando realmente se tem a noção da dimensão. Um vazio quebrado – mas que não se enche – apenas por um som, constante, cheio, contínuo que se entranha na nossa pele, nos arrepios que não conseguimos deixar de ter porque finalmente se sente. É um vazio gigante, que nunca achei que fosse possível sentir. Um vazio num lugar cheio de gente, cheio da memória terrível de um dia que nunca vamos, que nunca podemos esquecer.

Sentei-me num dos poucos bancos que ali colocaram e fiquei de frente com a pequena árvore sobrevivente. Sinal de força e de resistência, com as suas folhas frágeis e os seus ramos presos por fios, porque sozinha não consegue medrar. Novamente. Pela terceira vez. E as folhas, verde claro – percebi finalmente por que o verde é cor da esperança – a mostrar que afinal a vida continua a ser possível mesmo depois de tantas mortes. Senti no coração o aperto de quem não perdeu alguém próximo mas de quem nunca conseguiu entender o que se passou. Como se tiram vidas assim, gratuitamente, sem remorsos. Senti os olhos encherem-se de lágrimas e fiquei presa a um chão que acolheu demasiados cadáveres para voltar a ser, algum dia, o que foi em tempos.

Quis ficar ali quieta, com o rosto salgado, como se conseguisse que, de alguma forma, o tempo voltasse para trás e afinal não fosse vazio o que sentia em meu redor. Para sempre.

É que, desde que se saiba (mesmo que, em linhas breves, o que se passou naquele Setembro que não foi de recomeço e que, ao mesmo tempo teve que ser) emociona pensar naquela aflição sem medida, nos gritos de horror e de medo, nos batimentos cardíacos mais acelerados e nos flashes de memória que passaram naquelas cabeças, em frente àqueles olhos fechados, a pensar na morte. Foram tantos, demasiados, os que ali ficaram para sempre, deixando a marca no país e no mundo. Há sítios que acolhem e nos marcam pela estranheza do corpo ali parado, a admirar a harmonia dos pilares da reconstrução, como se fosse só o edifício que ruiu. Mas só quem não sabe pode esquecer que, naquele onze de Setembro, ruíram ali histórias de vida que não tiveram o dia de amanhã para recuperar o tempo perdido em jornadas sem sentido.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito dos doze anos do 11/9. Que há memórias que nunca passam, por mais que passe o tempo.

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