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Archive for the ‘No mundo’ Category

Sessenta…

Sessenta, murmurou, olhos fixos no espelho. Sessenta, repetiu, com a voz cansada de quem não quer baixar ainda os braços. Lá fora, conseguia ouvir, a multidão delirava com os festejos. Debaixo de um céu cinzento, e com as temperaturas abaixo dos 10 graus centígrados em plena primavera, eram sons de júbilo.

Olhou em volta, para o quarto que ocupava desde os vinte e seis anos e suspirou. Haviam-lhe roubado a juventude, a idade adulta, e haviam-na transformado numa velha quando deveria ter ocupado o tempo a escolher modelitos novos e a montar a cavalo. Ah, há quanto tempo não passeio por aqueles campos, pensou sem ousar verbalizar o que lhe passava pela mente. Aprendera desde cedo – demasiado – a esconder as emoções por detrás de uma máscara parecida com aquela que agora transeuntes empunham pelas ruas da capital inglesa. Raramente sorria e com ainda menor frequência deixava olhar-se nos olhos. São o espelho da alma, advertira-a a sua mãe, durante toda a vida.

Levantou os olhos e viu o mar de gente que a esperava. Sessenta anos, doze primeiros-ministros,e dezasseis territórios. O povo chamava-a, aclamando como no dia da coroação. Muitos que viu nascer, é certo. Outros tantos aos quais sobreviveu.

Voltou-se para a porta e chamou a aia – gostava de usar o termo aia, ainda que estivesse a cair em desuso. Está na hora.

Saiu do quarto com a pose ensaiada desde pequena. Pé-ante-pé. Cabeça-erguida-como-se-estivesse-presa-a-um-fio-inviível-que-sai-do-céu. Pé-ante-pé.

Rodeia-se da família e prepara-se para sair. Sente-se novamente com vinte e seis anos. A adrenalina. O júbilo dos súbditos. A certeza de que deu o seu melhor. A afirmação da monarca britânica mais velha da História. A caminho do mais longo reinado de sempre.Sim, a máscara cabe-me bem.Que me saia o sorriso de diamante que esperam de mim.

Em frente aos enormes portões de Buckingham ergueu os olhos aos céus e ordenou:

Que comecem os festejos.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das Comemorações dos 60 anos da coroação da Rainha Isabel II.


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A sala escura aguarda expectante o som da primeira nota.
O palco é um todo de luz e sombra. Escuridão. Luz.
Ao fundo, como clarão, um corpo quase inerte aproxima-se do piano, num movimento compassado que encanta.
Vestido de preto, caminha como se da primeira vez se tratasse. A plateia é sempre diferente, uma conquista mútua, pensa.
Os dedos percorrem então o teclado branco e negro, ainda sem qualquer som na sala cheia mas em silêncio profundo.
O alívio instala-se nele e no auditório quando os dedos tocam finalmente as teclas e o piano entra em consonância perfeita com o ar que se respira no espaço escuro. Pessoal e colectivamente, cada um respira de alívio.

A nota soa pela primeira vez e preenche o vazio do silêncio que se instalou de repente, mal as luzes se apagaram.As mãos percorrem a medo e a confiança as tiras brancas num movimento avassalador de tão seguro e ao mesmo tempo, virgem.

A cabeça, muito direita é abraçada por breves momentos pelos ombros. Depois, ao mesmo tempo que se levanta, agita-se desregradamente, sem destino.
Rumo ao infinito, qual estrela cadente, encontra conforto quando tropeça novamente nos ombros e finalmente os olhos encontram paz nas brancas teclas do piano negro.
Silêncio insurdecedor da plateia. E finalmente a salva de palmas de pé, que funde artista e público num só. Fim do espectáculo.

Escrevi este texto em Outubro de 2007, a primeira e única vez que ouvi e vi Bernardo Sassetti em palco. Morreu hoje. E entra para a nossa agenda. Provavelmente pela primeira e única vez.

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Mundos

Primeiro foi o espanto. Depois a resignação. Olharam em volta, tentando encontrar no outro o conforto que também procuravam neles. De repente um mundo de letras, de estórias, de conhecimento, de entrega, de dedicação, era deitado fora. Dispensado, como se dispensa algo indesejado.

As pilhas de jornais, amontoados em cima, em baixo ou ao lado de cada secretária, contavam muito mais que as histórias que tinham impressas. Os computadores, as máquinas fotográficas, as agendas riscadas de tantas cores eram tão mais do que apenas registos físicos dos tempos que passaram juntos. Das adversidades. Das lutas.

O silêncio instalou-se no arauto do ruído. Até as teclas pareciam fazer menos barulho, enquanto nas cabeças de todos a mesma imagem lhes passava diante dos olhos: como chegámos até aqui? O que vou fazer da vida? Como vai ser? Que páginas poderei encher?

Olhos rasos de lágrimas deturparam as imagens de computadores velhinhos, receptáculos de crises, de novidades, de grandes investigações, de desafios. O mundo a que tinham dado tantos mundos acabara de se desmoronar. E pouco sentido fazia continuar sentados a uma secretária que nunca mais poderiam chamar de sua.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

El Mundo prepara despedimento coletivo de um terço dos seus 600 colaboradores

http://www.ionline.pt/media-televisao/el-mundo-prepara-despedimento-coletivo-terco-dos-seus-600-colaboradores

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Ela chorou quando soube da notícia. Tinha medo – como toda a gente tem – do desconhecido. Ele não. Ele sorriu porque a ideia já tinha aparecido, bem antes das notícias tristes.

Ele e ela costumavam preocupar-se em fotografar os momentos importantes e os outros. Aqueles a que uma pessoa normal não liga de tão…normais. As tardes de domingo a roubar a manta um ao outro no sofá apertado da sala em que cabiam os dois a custo. Ou os almoços esporádicos em que, ambos faziam um esforço nas agendas e conseguiam almoçar juntos em casa. Bob tinha registo da primeira vez que foram ao cinema – ele fotografou os dois bilhetes – ela não quis o dela, que não gostava de “guardar lixo”; depois, surpreendeu-a com a fotografia numa moldura com flores em relevo, pintada de branco. E com uma dedicatória no verso que dizia. És o meu filme preferido.

Naquele dia – como dizia – ele não se assustou porque sabia o que a ia curar. Rir ia curá-la. Deu-lhe um abraço, limpou-lhe as lágrimas e arrastou-a, a custo, para casa. Depois seguiu para a pequena retrosaria do bairro onde pediu à menina do balcão tule. Três metros de tule cor-de-rosa. Naquela noite, depois do chá de camomila, levou-a ao colo para a cama, deu-lhe um beijo de até já e fugiu para a sala. A cama foi ficando quente, os lençóis aquecidos por ela. E ele longe, sentado à mesa, computador de um lado, máquina de costura do outro. Procurou instruções, mediu a cintura, cortou o tecido com cuidado. Já era de manhã quando conseguiu vestir o tutu. O tutu cor-de-rosa. Nessa manhã, quando ela acordou, ele sentiu-a chamar. De tutu vestido – só de tutu vestido – agarrou no tabuleiro com o pequeno-almoço e levou-lho à cama. Pousada numa mesa, a máquina fotográfica, com a primeira fotografia de tutu cor-de-rosa vestido.

No dia seguinte, apareceu-lhe com outra moldura – branca com flores de relevo -, com a fotografia emoldurada. No verso, escreveu. És a minha dança favorita.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do projecto “The Tutu Project”. Saiba mais aqui.

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Não era a voz. Grave, quase ligeiramente rouca. Não era a figura. Pequenina, enfezada, sem beleza alguma em particular. Nem sequer eram os olhos. Castanhos, iguais a tantos outros. Podia ser pelo sorriso. Autêntico, presente, cheio. Mas também não era.

Era todo o conjunto. Era a figura, que se transformava debaixo de uns holofotes escondidos. Era a emoção, que ainda hoje, trinta anos de silêncio depois, faz arrepiar quem a ouve a cada acorde. Era a melodia, alterada a cada espectáculo, mas sempre sem fugir do tom. Era o riso, a alegria, a cor, o movimento.

Elis era tudo e era nada. Inigualável porque genial. Deslumbrante porque modesta. Estupenda, porque sempre, a cada dia melhor.

A voz, inconfundível, única porque bem usada, calou-se há trinta anos. O génio, esse, nunca morrerá.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da celebração do 30.º aniversário da morte de Elis Regina.

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Olhos fixos nas mãos que conhece tão bem. Há tanto anos. Enquanto esboça um sorriso sente as rugas a formarem-se nos cantos dos olhos. Cansados. Envelhecidos de tão pouco tempo que pareceu uma eternidade. Segura-lhe na mão com força e pergunta: tens a certeza de que conseguimos fazer isto novamente?

Ela olha, sorriso doce, cabelo caído como só permite na intimidade uma casa que já chamam lar: não faz sentido que o não faças. Que o não tentes. Que o não tentemos.

Lá fora ouvem-se os risos das crianças, já não tão crianças e os latidos do Boo. Ele olha em volta e respira fundo. Nas fontes, o cabelo grisalho de quem viveu para os outros quatro dos mais difíceis anos da vida de um mundo inteiro. Nem sempre com sucesso. Nem sempre tomando as melhores opções – sabe-o! -, nem sempre conseguindo fazer ouvir a sua voz no meio de um aparelho maior do que ele próprio.

Aperta aquela mão, macia, forte, que sabe sua aconteça o que acontecer. Levanta o olhar, exausto, com um último e vívido lampejo de força, de esperança, de compromisso. Sabe que não há escapatória. É o que quer fazer. É o que sente que deve fazer.

Yes, we can, diz. Yes, we can. Again!, repete. O sorriso volta-lhe ao rosto. A força ao olhar. A máquina está em movimento. Mais uma vez.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das eleições presidenciais nos EUA, em Novembro de 2012. Obama é o único candidato democrata. Os Republicanos estão em campanha para escolher o candidato que enfrentará o atual presidente na corrida à Casa Branca.

 

 

 

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Doutor

Nunca tinha ouvido falar nele.

Na verdade, achava que nunca tinha ouvido falar dele. Porque não se lembrava de ter ouvido falar dele. Ele, o génio da bola nos pés. Ele, o estudante irrepreensível. Ele, o jogador fora do comum, que jogava à bola, falava português do Brasil, fez um figurão nos mundiais de 82 e 86 e era médico. Sim, ele que tinha estudado Medicina. Quão estranho é isto de haver um jogador de futebol que, no auge da carreira nos anos 80, tinha já estudado para ser médico. Quão estranho é um Ás da bola ser médico no Brasil? Não querendo ser preconceituosa, quão improvável é haver um médico tão bom a jogar futebol que passa a ser chamado ‘doutor’ pelas receitas prescritas e pelos toques e fintas encantadores?

Por isso o doutor. Por isso a estranheza em nunca ter ouvido falar dele. Por isso, a curiosidade em ler sobre Sócrates. Sobre a carreira de um herói nacional, sobre os toques subtis na bola, sobre as opiniões de antigos colegas de equipa, sobre a vida e a carreira futebolística, sobre ele. Por tudo isso, a enorme estranheza de nunca ter ouvido falar neste médico jogador de futebol com nome de filósofo. A enorme estranheza de lhe escapar que, com uma vida tão cheia, lhe fizesse falta um bem tão precioso como o auto-controlo. Controlou os estudos, controlou a bola. Nunca soube controlar um adversário fatal chamado álcool. Daí a estranheza. Ouvir falar de uma vida tão cheia por causa de um fim tão estranho. Estranheza esta.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Sócrates, o doutor.

http://www.meutimao.com.br/materia/65471/quero_morrer_em_um_domingo_e_com_o_corinthians_campeao-socrates_em_1983

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