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Archive for Setembro, 2011

A obra imortal de Primo Levi, um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocusto.

 

Num sábado, dia 11 de Abril de 1987, por volta das 10 horas da manhã, a porteira de um sólido edifício cinzento do século XIX situado no Corso Rei Umberto de Turim tocou à porta do 3º andar para, como todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu, recebeu o correio, agradeceu e reentrou. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente, como revelou a autópsia, que não detectou no seu corpo qualquer sinal de violência.

Suicídio foi a primeira explicação oficial que quase todos se apressaram a aceitar.

 

Levi desistia de ser “o bem educado cicerone do inferno.” “Até ao dia da sua morte, eu estava convencido de que ele era a pessoa mais serena do mundo”, disse o filósofo italiano e seu amigo, Norberto Bobbio.

O inesperado suicídio de Levi começava a parecer agora tão previsível. Concluído a tarefa de testemunhar, que o prendera à vida desde esse dia já longínquo de Janeiro de 1945 em que ganhara a batalha impossível da sobrevivência contra Auschwitz, a memória tornara-se-lhe insuportável.

Em Novembro de 1962, Levi tinha escrito: “Há um sonho pleno de horror que não deixa de me visitar (…). É um sonho dentro de um sonho. Varia nos detalhes mas não na substância. Posso estar sentado à volta de uma mesa com a minha família ou com amigos, ou no trabalho, ou num campo verde. Em suma, num ambiente pacífico e descontraído, sem qualquer tensão ou aflição aparente; e, no entanto, sinto uma profunda e subtil angústia, a sensação definitiva de uma ameaça pendente. E, de facto, à medida que o sonho continua, devagar ou brutalmente, de cada vez de uma forma diferente, tudo se desintegra à minha volta, o cenário, as paredes, as pessoas, enquanto a angústia se torna cada vez mais intensa e mais definida. Agora, tudo se transforma em caos. Estou sozinho no centro de um nada cinzento e perturbador e agora sei o que significam as coisas e também sei que sempre o soube. Estou no Laager e nada é verdadeiro fora do Laager. Tudo o resto era uma breve pausa, uma ilusão dos sentidos, um sonho (…). Este sonho dentro do sonho terminou e o outro sonho continua, gélido. Uma voz bem conhecida pronuncia uma única palavra, que não é imperiosa, apenas breve. É a voz de comando do amanhecer de Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida, esperada: “Wstawách!. Levanta-te.”

Poderá um homem sobreviver ao facto de ter sobrevivido a Auschwitz?

Rita Levi Montalcini, cientista italiana e sua velha amiga, foi a primeira a pôr em dúvida a versão do suicídio, argumentando que Levi era um químico e que conhecia mil outras maneiras, menos dramáticas e violentas, de pôr termo à vida.

 

Para os seus amigos, os seus admiradores, os seus leitores em todo o mundo, aceitar a ideia do suicídio era aceitar que a sua profunda humanidade fora finalmente vencida pelo mal absoluto, desmentido a mensagem de esperança que inscrevera na sua obra literária de sobrevivente.

“Escrever é a única salvação, mas escrever é também a única impossibilidade”, disse Jorge Semprum, outro escritor-sobrevivente dos campos de extermínio nazis que só conseguiu testemunhar sobre os anos que passou em Buchenwaldt em 1994, num livro a que chamou “A Escrita ou a Vida”.

 

Primo Levi, químico de formação, judeu italiano nascido em Turim em 1919, que apenas descobriu o total significado de ser judeu em 1944, terminou o seu testemunho de 11 meses de permanência em Auschwitz apenas um ano depois de ter sido libertado.

Não se trata de um livro de ficção. É apenas uma discrição objectiva, serena, contida, desprovida de amargura, do dia-a-dia de um prisioneiro de Auschwitz que se esforça por não esquecer que é um ser humano. “Se isto é um homem”, publicado pela primeira vez em 1947, depois de ter sido rejeitado pelas grandes editoras italianas, já foi lido por milhões de pessoas em quase todas as línguas do mundo.

Não é mais um livro sobre o Holocausto. É um comovente ensaio sobre a própria natureza humana. “Lavar o rosto todas as manhãs, mesmo sem água e sem sabão, é a única maneira de se manter humano”, disse-lhe um velho prisioneiro judeu que não sobreviveu. Quando tentava ensinar italiano a um companheiro de campo, a memória longínqua e dispersa de um passado que tinha deixado de existir, apenas lhe trazia aos lábios os versos do episódio de Ulisses do “Inferno” (“Divina Comédia”) de Dante: “O que é um homem? O que é um homem?”

Depois de “Se isto é um Homem”, Levi não mais deixou de escrever, amarrado à vida pela escrita, sem nunca deixar de exercer a sua profissão de químico industrial que, provavelmente, lhe salvou a vida em Auschwitz. “Imploro ao leitor que não ande à procura de mensagens. É um termo que detesto porque me impõe um fato que não é meu e que pertence a um tipo humano do qual desconfio; o profeta, o adivinho, o vidente. Não sou nada disto. Sou um homem normal com uma boa memória que caiu num turbilhão e saiu dele mais por sorte do que por virtude, e que, desde esse tempo, manteve uma certa curiosidade sobre os pequenos e grandes turbilhões, metafóricos e actuais”, escreveu Levi num das suas últimas obras.

A sobriedade e a profunda humanidade dos seus escritos fizeram dele um símbolo do triunfo da razão sobre a barbárie. Por isso, a dúvida sobre o seu suicídio foi tão insuportável. Não vale a pena tentar reler a sua obra à luz do seu acto final. Basta lê-la e nunca mais esquecer.

 

*Por Teresa de Sousa, publicado aqui em Agosto de 2002

Entrada na Nossa Agenda a propósito dos contadores de estórias. Daquelas que merecem ser contadas e sabidas por todos.

 

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Yes, I can

Cabeça baixa e passo compassado. O sorriso, por norma fácil, esconde-se hoje sob a preocupação que teima em deixar-lhe na testa aquela ruga.

Começar com calma. Apostar nos bastidores. Faltam dois, tenho que trabalhar com esses. É uma luta demasiado grande para perder. Não posso. Não agora. Não tão perto.

O silêncio ensurdecedor da sala aumentava à medida que se dirigia ao púlpito. Já não era o mesmo homem que há dois anos e meio tinha feito um dos mais marcantes discursos da História dos EUA, frente à Casa Branca. Já não era a lufada de ar fresco acoplada ao ‘primeiro negro a chegar a Presidente na maior democracia do mundo’.

Carrega nos ombros, agora,  o peso de um mundo inteiro. Que de olhos postos nele continua a acreditar. Carrega o peso de uma classe política de um país que espera dele nada menos que o melhor. Não pode haver Palestina de pleno deireito. Não pode haver nove votos. Não pode haver um veto de Washington. São muitos não para tão pouco tempo, para tão poucas palavras.

Ah!, Henry Kissinger, tu é que devias estar aqui a dizer-me como isto se faz. Eu sou diplomata até à ponta dos dedos. Mas isto é diplomacia em estado puro. Da difícil. Da dura. 

O acentuar da ruga deu aos assessores a certeza de que tinha medo de falhar. Uma breve pausa em frente ao primeiro degrau. Respirou fundo e encarou de frente os dirigentes de todo um mundo que espera de si muito mais do que alguma vez achou possível.

Ouvirão de mim palavras de esperança. É isso que querem de mim. É isso que eu sou. Foi para isso, por isso que lutei.  – afirmou, em silêncio, para que a mensagem ficasse guardada só para ele. Chega de desalento. E que Deus me abençoe.

Subiu o último degrau, ouviu a respiração suspensa dos seus pares e sorriu naquele sorriso de dentes brancos. E voltou a acreditar que tudo era possível.

Ex.mos Senhores e Senhoras…

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Palestinos buscam mais 2 votos no CS da ONU

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,palestinos-buscam-mais-2-votos-no-cs-da-onu-,775261,0.htm

 

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Flores

Foi para casa, a passo lento, enquanto aspirava o cheiro a flores a secar ao sol ainda de Verão. Aquele beijo tinha-a deixado, novamente, com o coração aos saltos. Não significara nada. Mas dizia-lhe que ainda podia acreditar na atração. Na química. No riso fácil. Se isso era o início de um amor ou de uma paixão, não sabia. Mas sabia que podia voltar a gostar. E isso deixou-a feliz.

Eu quero ficar contigo. Mas ainda não pode ser…tu sabes..os miúdos... Sempre tivera um dedo especial para os homens problemáticos: casados, comprometidos, com filhos. Dedicara-lhes a atenção que acreditava ser o amor. Anulara-se, esperara, dera cabo da sua auto-estima. E a frase continuava, repetia-se, com ela sempre a acreditar que seria a última: No próximo mês..no próximos mês eu falo lá em casa.

Da última vez, decidira que não iria permitir mais um falhanço. Que era mais, que merecia mais. Que o mundo girava demasiado depressa para que deixasse passar os dias, os meses, os anos, com pessoas que – sabia-o agora – nunca a tinham merecido. Disse um basta! a todos os que a tentaram seduzir e depois a deitaram fora. Percebera-se mais do que aquilo que a queriam ter feito sentir.

Nessa noite não houve mensagens, e-mails ou músicas. Não houve declarações de amor ou telefonemas inócuos. Mas aquele beijo, sabia-o, tinha-a despertado novamente. E se por um lado sabia que se o voltasse a encontrar o embate seria brutal, por outro estava decidida a voltar a acreditar no amor. Com quem lhe tinha quebrado aquele feitiço ou somente com quem mostrasse que a merecia.

Chegou à porta de casa e antes de colocar a chave na fechadura olhou em volta. Respirou fundo, sorriu e entrou. Esta semana começam as mudanças. Na vida e aqui em casa. Porque há decisões que não se devem adiar.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Pesquisa confirma: homens traem mais que as mulheres

http://mulher.terra.com.br/interna/0,,OI1298520-EI4788,00.html

 

 

 

 

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Corpo de memórias

‘Mas por que raio é que não acerto nesta nota, hoje? Não é assim tão difícil!’

‘Não!, mas o teu corpo guardou a memória da errada. E vai ser difícil mudar isso’

A história repete-se e não só com quem canta. Repete-se com quem ouve. Com quem vê. E sobretudo com quem sente. Há acordes que nos fazem bater o coração mais depressa. Há imagens que nos fazem, sem sabermos porquê, chorar. Há letras que nos tocam como se todo o nosso mundo fosse ruir em menos de nada.

Meses passados depois de tudo, decidiu que era hora de testar os limites. Chegado a casa, largou as partituras em cima da mesa, libertou-se do peso da roupa e carregou no ‘modo aleatório’ da aparelhagem. Sabia que as músicas iriam aparecer de surpresa e sem aviso prévio. Acreditou que não havia mais memórias gravadas naqueles três minutos de melodia inócua.

Enquanto preparava o jantar, começou a ouvir. E começou a sentir o estômago a encolher-se. Os sentimentos bateram-lhe com a força de uma onda em dia de tempestade. Fechou os olhos e tentou distrair-se. Não faz sentido. Já passou demasiado tempo. Não pode ser.

Mas podia. Porque o corpo é assim. Guarda-nos as memórias do que não queremos lembrar. E fá-las saltar quando baixamos as defesas e nem nos apercebemos. Para o bem e para o mal, temos um corpo de memórias. Escritas em páginas de vida.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito do lançamento de Silent Hill: Book of Memories

http://www.paraiba.com.br/2011/08/19/80969-novo-trailer-de-silent-hill-book-of-memories-gera-polemica-entre-fas-veja-video

 

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