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Silêncio.

Silêncio. Depois da notícia, dita em apenas quatro palavras, foi silêncio o que mais se ouviu. Um raro silêncio unânime num País onde tanto há a dizer sobre toda a gente. Desta vez só o silêncio da humildade de quem sabe da pobreza que recaiu sobre todo um País.

Sempre que um Homem morre é toda uma biblioteca que se incendeia, diz um provérbio indiano. Repetiram-no durante o dia inteiro. Como se as palavras ajudassem a entender e sobretudo a aceitar.

Parece certo, o provérbio. Mas não percebo por que não param de o repetir. Não é como se fosse uma biblioteca. Um livro? Talvez… Sim!, sessenta anos de vida dão um bom livro. Interessante, talvez. Mas uma biblioteca? Não. Precisaria mais de 150 anos para poder ser algo parecido com uma…

Olha de cima, agora, como nunca olhou antes. Vê o mundo que quis melhorar com a distância de quem, apesar de tudo, ainda pode fazer tanto para ajudar: pelo trabalho, pelo empenho. Ficam as memórias. Os exemplos.

Era apenas o que tinha que ser feito. Remar contra a maré. Gritar aos quatro ventos as crenças. Trabalhar para um mundo – para um País – melhor. Entregar-se. Literalmente. E dar a vida pelos ideais que espera que não morram também com ele.

Eles vão conseguir. O preço a pagar é alto, mas a recompensa…ah!, sim, eles vão conseguir. No descanso de quem nunca quis parar, a certeza de que o mundo não ficou igual depois da sua passagem. Firme. Determinado. Genial. Empenhado. Destemido. Levou o País mais longe. Fez capa de revistas internacionais. Ora, não foi nada de especial. Era o que tinha que ser feito. O mundo reverenciou-o como nunca o País.

Que, no entanto, se quedou mudo num silêncio de tristeza, de perda e de pesar profundo. Um País que afinal ainda sente. Ainda sofre. Ainda cala no luto. O País para onde sempre quis voltar. O meu País. O meu País.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte de António Borges.

http://www.publico.pt/economia/noticia/antonio-borges-um-economista-liberal-1603942

 

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E ontem, quando bateu a saudade, abri pela primeira vez a única coisa tua que tenho  em casa. E quase te pude ver a usar estes brincos, esta pulseira, estr colar… E todos os outros que guardo com o carinho e a angústia de quem queria era ter-te aqui nas coisas ao invés de ter só as coisas sem ti.

E não me julgues mal, que a saudade é proporcional à alegria que sinto por teres ido. Arriscado. Porque agora te sei melhor e mais completa. Agora vejo-te, novamente, como há uns tempos: genuína, observadora, sem limites para a escrita, para o mundo.

Mas esta coisa da saudade – boa – é uma maçada sobretudo em alturas destas. Em que trocava tudo por um jantar em terras de um Paramaribo imaginário. Só nosso.

Tenho saudades tuas. E se as palavras as não aplacam, vou esperar que o tempo – e o saco cheiinho de coisas tuas que lá anda por casa – o faça.

[guardei tudo novamente no saco de pano e pus junto às minhas coisas. A ver se te sinto tão perto quanto as nossas bijuterias estão umas das outras 🙂 ]

Entrada na Nossa Agenda a propósito da distância da Mariana. O meu outro par de mãos.

Quando ela lhes contou que, nas redacções comuns, se preparavam os obituários, eles ficaram de boca aberta. Não faziam ideia. Como raio pensavam eles que o El País preparava especiais sobre a vida de escritores, de músicos, de bailarinos e de políticos em tão pouco tempo? A redacção esquecia o resto da actualidade e punha todos os jornalistas a trabalhar, fossem que horas fossem, mal se sabia da morte de x ou de y? Pensaram duas vezes: era capaz de ser verdade. Como é que nunca tinham pensado nisso?

Organizaram uma lista: pessoas importantes, gente de quem se fala, gente que dá que falar. Gente mais desconhecida na política mas que tem uma voz activa noutros sectores da sociedade. Gente que faz rir outras pessoas. Gente que se ri de si própria. Da lista, uma pasta na rede partilhada. Obituários. Repartiram os nomes: os primeiros foram disputados por muitos, os últimos nem tanto e, por isso, repartidos irmamente pelos que tinham menos trabalhos à sua responsabilidade. Nas pastas, subpastas. Cada uma com a sua organização: vida, formação, família, trabalho, hobbies, testemunhos. Esta última, sempre vazia. Até ao dia em que, mal se sabe da notícia, as redacções fervilham e começam a ligar para todos os nomes da lista dos testemunhos a perguntar o que sentem naquela hora. A alguns, são os próprios jornalistas que dão a notícia. Já lhes aconteceu serem insultados, desligarem-lhes o telefone na cara acusando-os de insensibilidade ou ainda terem que confortar a pessoa do outro lado, entre soluções e lágrimas.  

No dia em que se soube que ela tinha morrido, deram-se conta: esqueceram-se dela. Os jornalistas dão o que falar quase todos os dias. Mas raramente falam ou escrevem sobre eles. Refizeram a lista.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Helen Thomas, primeira-dama de dez presidentes norte-americanos.

Olhou para a janela e suspirou. Mais uma vez. Há meses que a única coisa que fazia, sem dar conta, era respirar e suspirar. Nem sempre por esta ordem. A cabeça feita em água a querer fugir para as memórias de quando estava no lugar de quem agora julgava. Nem um sorriso. Os olhos, cansados, postos no jardim bem arranjado e no rio, lá ao fundo, como se quisesse uma resposta que tardava em chegar.

Ouvia lá ao fundo o burburinho da sala que pedira para abandonar. Estava cansado. Muito cansado. Tinha demasiadas décadas em cima do corpo, demasiada informação, demasiados obstáculos, demasiados erros no currículo, também. O que raio lhes passou pela cabeça? Onde é que está a responsabilidade que juraram ter?

O dia estava quase tão cinzento quanto a sua pele, a ressacar de sol, de vento, de descanso. Nem eu sei o que estou a fazer. Nem eu sei se é a solução ideal. Mas é a única que temos. A frase martelava-lhe na cabeça ininterruptamente, quase como para se tentar convencer de que não poderia ter feito outra coisa. Estava farto de discussões. Farto de ouvir toda a gente a gritar na rua como se houvesse solução fácil para os problemas. Farto que lhe dissessem que fazia sempre tudo mal. Fechou os olhos. Voltou a suspirar. Os dedos crispados nas costas da cadeira que lhe suportava o peso denunciavam a falta de paciência que tinha marcado os últimos dias. Respirou fundo. Também isto passará, pensou. Só não sabia quando. Nem como. Nem onde estaria quando tudo passasse.

Senhor Presidente? Precisam de si na sala

Suspirou mais uma vez. Endireitou a cabeça e preparou-se para sair.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Belém e Governo nas reuniões de salvação nacional

 

Não, claro que ainda não me habituei. Ainda sinto a falta do burburinho constante, dos telefones a tocar muito alto, dos gritos à hora de fecho – ou à hora de tomar decisões. Ainda sinto a falta dos telefonemas às 8h de alguém que afinal tem uma informação que pedi ontem, dos almoços sem horários, das manhãs entre café e montes de páginas de jornais.
 
Não, claro que ainda não me habituei e ainda digo ‘nós’ sempre que falo do jornal. Ainda olho para as notícias à procura de quem a escreveu, de tentar descobrir quem teriam sido as fontes. Ainda tenho vontade de pegar no telefone a desancar quem não me passou informação que acahava que devia ser minha.
 
Sim, ainda sinto a falta de subir aquelas escadas todos os dias e de sentir o cheiro a pó, às pessoas que passavam por mim demasiado maquilhadas, a correr para um direto..tenho saudades da agenda chei de entrevistas e de histórias novas. Até dos terminais da Bloomberg sinto a falta.
 
Mas não sinto a falta de ter o que fazer. Não sinto que tenha abrandado o ritmo. Não sinto falta de sair às 21h e perder tantos momentos importantes de tantas pessoas importantes. Não sinto a falta de ter que cozinhar o almoço do dia seguinte, todos os dias, ainda que tivesse chegado as 22h. Não sinto falta do cheiro das ruas. Nem do café que cheirava a fritos.
 
Sinto falta de algumas pessoas que tornavam os meus dias mais brilhantes. Mas essas trouxe comigo, e levá-las-ei para a vida.
 
Entrada na Nossa Agenda a propósito da mudança de vida. Da minha vida.

Eu sei que parece. Eu sei que de repente o mundo dá a sensação de que se abriu aos teus pés e que nada consegue aplacar essa angústia que te aperta o peito, te mareja os olhos e te faz sentir aquilo que raramente sentes -a impotência e a injustiça de um mundo que julgavas melhor. Eu sei. Eu sei que a distância só piora tudo e que na verdade tens vontade de estar cara a cara a perguntar por que raio te aconteceu isto.

Mas eu cá tenho a minha teoria, e ainda que ela te não resolva as angústias, um dia vai revelar-se certa. Eu sei. Eu sinto. E tu sabes que as coisas que sinto são coisas que acontecem.

Minha querida, pensa exatamente ao contrário do que fazes agora. Não é por mal que as coisas acontecem. A maior parte das vezes, é por bem. E só as coisas que nos custam nos fazem crescer. Primeiro, porque são coisas que nos são queridas – e isso é bom. É tão bom termos coisas queridas, que adoramos. Depois, porque é assim mesmo, às vezes a perder o que de tão bom temos, que nos abrimos ao mundo para algo melhor.

Não duvides. Primeiro, não duvides de ti. Tu és grande, és enorme. És maior que este Oceano que nos separa e maior do que o que tens feito. Podes ser mais, assim abraces este novo desafio. Podes ser maior. Mereces ser maior. Vais ser maior.

Começo eu por acreditar nisso, mesmo que o não faças já já. Ser maior precisa de tempo. Precisa de crença. Mas é para isso que cá estou. Para remar contigo. ‘Porque a duas é difícil mas é possível’.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito do novo desafio da Mary.

escrever

Saiu de casa a correr. Adormeceu na cama na noite anterior, ainda vestida. Tinha saído tarde do trabalho, vestira à pressa aquele vestido preto justo, pintara os lábios de vermelho e as bochechas de um cor de rosa clarinho e as pestanas com rímel preto. Vestiu-se à pressa, umas calças, uma tshirt, um blazer básico preto, umas botas de salto alto. A carteira a tiracolo, as chaves no bolso do casaco, o telemóvel numa mão e os óculos escuros na outra. No autocarro, procurou o bloco de notas que nunca largava: era fiel àquelas folhas em branco, sempre escritas a lápis, onde quer que fosse. A lapiseira tinha sido prenda dos pais quando acabou o curso. “Há sempre maneira de apagar as coisas menos boas fazendo-as bem”, disse-lhe o pai naquele dia meio nebulado de Maio, antes da missa da Benção das Fitas.

E era sempre o que andava com ela na carteira, fosse para onde fosse. Quando se esquecia do caderno, era na lapiseira que ela se refugiava. Roubava guardanapos dos cafés que ia enchendo de rabiscos, pedia folhas emprestadas. Apontava o que via, coisas que lhe chamavam a atenção, ideias de coisas para fazer. Tirava notas até no verso de papéis de embrulho. Escrevia sobre as pessoas que conhecia nos cartões de visita que lhe davam, observava para contar. Acumulava apontamentos em carteiras, em bolsos de bolsos de carteiras. “Um dia hei-de pôr estas ideias em prática”. Naquele dia, ao sair de casa para mais um dia de trabalho naquele escritório cinzento e monótono, com caras cinzentas e monótonas a rodeá-la, apontou no caderno de notas, a lápis, que aquele era o dia. O último assim.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito destas e de outras manias.