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Archive for Fevereiro, 2011

Azul.

Acordou-me com um beijo. Gosto de acordar com os beijos dela. Sabem a pasta de dentes e a amoras silvestres, do creme que usa sempre antes de se deitar. Tinha o pequeno-almoço em cima da mesa do quarto, com direito a sumo de laranja, ovos mexidos, café e o jornal. Estranhei toda aquela atenção, mas achei melhor não discutir. Retribuí o beijo mas deixei-me ficar, naquele monte de roupa quente, enquanto a envolvia com os meus braços.
O cabelo dela cheirava a frutos exóticos e tinha vestida a mais bonita camisa de noite. Algo se passa aqui.. Olhei rapidamente para o relógio à procura de uma data que me fizesse não passar por marido que se esquece tudo. Nada. Não era aniversário de casamento, de namoro, de primeiro beijo, de primeira noite de amor, de primeiro fim-de-semana juntos…nada. Optei por me não fazer de esquisito e reagi aos avanços da manhã. Afinal, um dia não são dias e nada como começar o dia como uma espécie de lua-de-mel versão mais curta.
Fui para o banho, ainda assim, com a ideia de que algo me estava a falhar. Liguei a música alto e meti-me debaixo do chuveiro. Enquanto a água me lavava aquela estranheza impregnada na alma apercebi-me que de facto não importava. Porque importando significava que precisava de momentos, de datas, de dias para a amar. E não preciso. Nem quero precisar. E aquela frase – a sempre – começou a martelar-me: Amar é um exercício de vontade. Sem dia nem hora marcada.
Saí do banho e voltei a envolvê-la nos meus braços. A manhã seria nossa. Como a vida. Toda.

Rosa.

Ontem comprei um champô novo. Compro sempre os champôs pelo cheiro, e nunca pelas características. Os de amêndoa enjoam-me, os de côco lembram-me a praia e não gosto de a ter no cabelo, mas na pele. Gosto dos frescos, de frutos silvestres ou de citrinos. Gosto dos mais leves, como gosto dos vinhos brancos em vez dos tintos. Os brancos são mais frutados, mais amargos, menos encorpados. Encorpados, gosto de amores. Daqueles que me fazem querer gritar de tanto acreditar. Dos que me deixam sobressaltada pela ausência e pela aproximação. Dos que baralham os dados e nos fazem ser aquilo que nunca pensámos conseguir. Mais forte, mais corajosa, menos maricas, mais comunicativa, melhor. Como estava a dizer: hoje comprei um champô novo. Estava a acabar o outro e resolvi mudar, que o meu cheiro já me é familiar de mais. Quero um aroma que se misture com o meu, uma pessoa que seja a minha casa, um perfume que se misture com a luz da manhã. Quero um novo amor.

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Todos os dias a mesma mecânica. O dia nasce mais cedo ou mais tarde consoante a estação do ano, mas nasce sempre pelas mesmas horas. No hemisfério Norte há mais frio. No Sul, mais calor. Nos cinco continentes diferem as cores, a luz, os sabores, os cheiros e as recordações. Em cada país divergem a cultura, os hábitos, as dificuldades e as especificidades de povos, mais ou menos antigo.

Queremos que todos eles tenham lugar Na Nossa Agenda. Pelos olhos de quem os visitou, de quem lhes sentiu a essência, e a tentou retratar através de uma simples lente que encerra em si os segredos do congelar de momentos. Queremos também que, em poucas palavras nos contem a História e as estórias. Porque Na Nossa Agenda cabe um mundo inteiro de sonhos, de palavras, de imagens!

Assim, a cada segunda 2ª feira de cada mês, está marcada Na Nossa Agenda uma viagem pelo mundo fora. Por diferentes caminhos, experiências e objectivos. Com novos olhares. Diferentes do nosso!

Hoje, o olhar é da Sónia Morais Santos.

Em primeiro lugar dizer que estamos todos bem de saúde e que não é preciso ser assim tão demente para ir para um lugar tão longínquo como o México com três crianças pequenas. É verdade que demora um bocado a lá chegar, é verdade que no nosso caso foram 11 horas e meia de avião (estavam uns ventos do cacete) mas ninguém morreu e, com um bom pedaço de preparação psicológica, todos foram bem sossegaditos. A preparação mais difícil de aguentar foi aquela a que nos submeteu o Manel, filho mais velho, que avisou desde o primeiro momento que o avião ia cair. Não foi «acho que vai cair», não foi «tenho medo que caia», não foi «e se aquilo cai?». Não. Foi afirmativo e directo, sem paninhos quentes nem condicionais: o avião vai cair e ponto final. Parágrafo. Não caiu. E chegámos, em Dezembro, a uma temperatura amena e por vezes quente, a um hotel maravilhoso, em plena Riviera Maya.

O hotel chamava-se Grand Bahia Príncipe e era absolutamente gigantesco. Lá dentro havia três hotéis: o Grand Bahia de Tulum, o de Akumal e o de Coba. Seguidinhos, cada um com a sua praia em frente, todos dentro da mesma enormíssima propriedade. Para explicar melhor, dizer que há um comboiozinho interno que faz as ligações entre os quartos e os restaurantes e entre os vários hotéis e piscinas. Porém, apesar de ser gigante, tem a vantagem de estar muito bem feito, com pequenos empreendimentos, bem enquadrados na paisagem, sem ser um conjunto feio de prédios disformes. Muito bonito mesmo.

Olha o pé da Madalena, minha mai nova, ali no relax. Hummm… que saudades.

Enfim.

Mas os dias não foram só hotel, que isso seria muito estúpido. Uma vez no México, vai de conhecer o que importava. E uma das coisas que importava mais, diziam, era Chichen Itza, uma cidade arqueológica Maia, que funcionou como centro político e económico da civilização Maia. De todos os achados arqueológicos, o mais impressionante é a pirâmide de Kukulcán, construída no século XII d.C. Cada uma das suas faces alinha-se com um dos pontos cardeais, e os 52 painéis esculpidos na suas paredes referem os 52 anos do ciclo de destruição e reconstrução do mundo, segundo a tradição maia. O alinhamento da construção da pirâmide permite observar diversos fenómenos de luz e sombra, os quais ocorrem durante os equinócios e solstícios.  Assim, as grandes esculturas de serpentes emplumadas, que guarnecem a escadaria Norte, devido à forma como as suas sombras se projectam, parecem mover-se durante os equinócios da Primavera e do Outono.

Em 1988, a UNESCO declarou esta cidade maia como Património da Humanidade.

Ah, e espectacular! O nosso guia batia palmas em frente a ela e ouvia-se uma espécie de grito de pássaro. E diz que não era por acaso! Foi tudo pensado para que soasse assim, que os maias eram gente muito devota à natureza.

Para irmos até Chichen Itza, arranjámos um bom preço numa agência pequenina que encontrámos em Playa del Carmen (a cidade maior e mais cosmopolita da Riviera Maia). Nada de comprar essas coisas no hotel… quer dizer, a menos que se queira pagar muito mais do que o razoável.

Por falar em Playa del Carmen, cá  fica uma imagem, tirada na Quinta Avenida. Não é piada, é mesmo o nome da principal avenida:

 

A nossa micro-agência, descoberta na Quinta Avenida, forneceu um pequeno autocarro bem jeitoso e um guia muito entusiasmado e conhecedor da cultura Maia, para irmos então a Chichen Itza. Mas, como sempre nesta coisa das excursões, há os almoços no restaurantezinho turístico da praça. E lá fomos nós, na molhada, e lá assistimos a um espectáculo deprimente, em pleno restaurante, tão mau mas tão mau que dava a volta e ficava bom.

Aqui ficam umas imagens bonitas dessa linda performance.

 

Mas pronto. A coisa passou-se e a gente sempre se riu.

A seguir fomos a um Cenote, que é uma lagoa subterrânea de beleza ímpar (e água gelada, segundo meu homem e duas crias machos – que eu e a cria fêmea ficámos em terra, a fotografar). Um cenote é um poço enorme, natural, que parece retirado de um filme. Lindo.

Mas, como há muita ruína Maia por aquelas bandas, achámos que ainda não estava tudo visto. E não estava. Vai daí que fomos ver mais uns achados arqueológicos, ali mesmo em Tulum, mesmo perto do hotel.

 

Impressionante o que os Maias sabiam de astronomia, e os cálculos incríveis que faziam para que o sol, com o movimento da terra, entrasse em janelas diferentes, fazendo efeitos incríveis que já não sei descrever. Mas tudo era pensado, numa linguagem deslumbrante entre o homem e a natureza.

Muito recomendável também é uma ida a Cozumel, uma ilha paradisíaca que fica a uma hora de barco, partindo de Playa del Carmen. Vale a pena fazer snorkeling (não sei se é assim que se escreve), vale a pena andar lá naqueles barcos de fundo transparente a ver a bicharada em habitat natural, vale tudo muito a pena. Nós não fizemos nada disso porque, lá está, somos malucos e levámos três crianças, mas almoçámos que nem uns abades numa praia bonita. Que parrilhada de peixe incrível!

E pronto. Quer dizer, foi isto, mais coisa menos coisa.

E também os bichos exóticos. Um guaxinim, ou lá o que era. E iguanas. Aos molhos.

E tirando os bichos, muitas margueritas e comida mexicana bem caliente!

 

 

 

 

 

Se recomendo? Mucho!

Se pudesse lá voltar não perderia os parques aquáticos (Xcaret e Xel-Há), que dizem que são lindos e também um parque aventura (Xplor) que mete cenotes e descidas em rappell e o diabo a nove. Mas, lá está, ficar 6 dias e ir a tudo não dá. E nós estávamos com miúdos e a precisar também de descansar e de usufruir do hotel. Que vale mesmo a pena.

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Vitória!

Foram gritos e socos e pontapés e barulho. Violência, lágrimas, sorrisos, lutas. Arregaçaram-se mangas, compuseram-se gritos de guerra, hinos de paz. Fizeram-se cartazes, das pedras armas, dos paus bastões, da ideia uma guerra.

Encheram-se ruas, salpicou-se sangue, ouviram-se tiros de revolta, de indignação, de uma liberdade reprimida que a todo o custo queriam ver recuperada. Apertos no peito, mortes que não foram em vão, porque afinal, há lutas que valem a vida. As vidas.

Houve sonhos desfeitos, rostos desfeitos, corpos desfeitos. Sorrisos de dor e orações que nunca tinham tomado tanto sentido como nos últimos 18 dias.

No final, como se de uma história dos irmãos Grimm se tratasse, foi mesmo a voz do povo que venceu. E todos os reticentes passaram a acreditar que quando se rema contra a maré, tudo é possível. No Egipto foi.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Egypt’s Mubarak resigns as leader

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-12433045

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Não se trata de ser ousado – que ousados são aqueles que desafiam todas as leis só com a força interior, sem precisarem de ratings nem de empréstimos do BCE, nem sequer de votos nos domingos eleitoriais. Não é uma questão de coragem: coragem é ir para a guerra e deixar a família em casa. Coragem é decidir continuar quando anda descalço por um caminho de brasas e pedras pontiagudas. Coragem é remar contra a maré sem saber bem para o que se vai, sabendo apenas que aquilo que há não é aquilo que se quer. Tomar medidas que arrancam críticas dos outros – dos que decidem a médio prazo mas que têm uma mui curta memória – é fácil. Tendo as costas quentes, os bancos do nosso lado a amparar-nos as quedas, um pára-quedas para uma saída de emergência e uma rede para quando o fio do equilíbrio falha é fácil de mais. Não é coragem, não é ousadia, não é personalidade. Não é sequer mérito. É só obrigação. E isso demonstra pouco da essência da palavra vida. É cobardia. Reconhecida por cobardes. Iguais a tantos outros.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Sarkozy felicita a Zapatero por sus “valientes decisiones”

http://www.elpais.com/articulo/espana/Sarkozy/felicita/Zapatero/valientes/decisiones/elpepuesp/20110203elpepunac_5/Tes

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