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Archive for Julho, 2013

Quando ela lhes contou que, nas redacções comuns, se preparavam os obituários, eles ficaram de boca aberta. Não faziam ideia. Como raio pensavam eles que o El País preparava especiais sobre a vida de escritores, de músicos, de bailarinos e de políticos em tão pouco tempo? A redacção esquecia o resto da actualidade e punha todos os jornalistas a trabalhar, fossem que horas fossem, mal se sabia da morte de x ou de y? Pensaram duas vezes: era capaz de ser verdade. Como é que nunca tinham pensado nisso?

Organizaram uma lista: pessoas importantes, gente de quem se fala, gente que dá que falar. Gente mais desconhecida na política mas que tem uma voz activa noutros sectores da sociedade. Gente que faz rir outras pessoas. Gente que se ri de si própria. Da lista, uma pasta na rede partilhada. Obituários. Repartiram os nomes: os primeiros foram disputados por muitos, os últimos nem tanto e, por isso, repartidos irmamente pelos que tinham menos trabalhos à sua responsabilidade. Nas pastas, subpastas. Cada uma com a sua organização: vida, formação, família, trabalho, hobbies, testemunhos. Esta última, sempre vazia. Até ao dia em que, mal se sabe da notícia, as redacções fervilham e começam a ligar para todos os nomes da lista dos testemunhos a perguntar o que sentem naquela hora. A alguns, são os próprios jornalistas que dão a notícia. Já lhes aconteceu serem insultados, desligarem-lhes o telefone na cara acusando-os de insensibilidade ou ainda terem que confortar a pessoa do outro lado, entre soluções e lágrimas.  

No dia em que se soube que ela tinha morrido, deram-se conta: esqueceram-se dela. Os jornalistas dão o que falar quase todos os dias. Mas raramente falam ou escrevem sobre eles. Refizeram a lista.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Helen Thomas, primeira-dama de dez presidentes norte-americanos.

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Olhou para a janela e suspirou. Mais uma vez. Há meses que a única coisa que fazia, sem dar conta, era respirar e suspirar. Nem sempre por esta ordem. A cabeça feita em água a querer fugir para as memórias de quando estava no lugar de quem agora julgava. Nem um sorriso. Os olhos, cansados, postos no jardim bem arranjado e no rio, lá ao fundo, como se quisesse uma resposta que tardava em chegar.

Ouvia lá ao fundo o burburinho da sala que pedira para abandonar. Estava cansado. Muito cansado. Tinha demasiadas décadas em cima do corpo, demasiada informação, demasiados obstáculos, demasiados erros no currículo, também. O que raio lhes passou pela cabeça? Onde é que está a responsabilidade que juraram ter?

O dia estava quase tão cinzento quanto a sua pele, a ressacar de sol, de vento, de descanso. Nem eu sei o que estou a fazer. Nem eu sei se é a solução ideal. Mas é a única que temos. A frase martelava-lhe na cabeça ininterruptamente, quase como para se tentar convencer de que não poderia ter feito outra coisa. Estava farto de discussões. Farto de ouvir toda a gente a gritar na rua como se houvesse solução fácil para os problemas. Farto que lhe dissessem que fazia sempre tudo mal. Fechou os olhos. Voltou a suspirar. Os dedos crispados nas costas da cadeira que lhe suportava o peso denunciavam a falta de paciência que tinha marcado os últimos dias. Respirou fundo. Também isto passará, pensou. Só não sabia quando. Nem como. Nem onde estaria quando tudo passasse.

Senhor Presidente? Precisam de si na sala

Suspirou mais uma vez. Endireitou a cabeça e preparou-se para sair.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Belém e Governo nas reuniões de salvação nacional

 

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Não, claro que ainda não me habituei. Ainda sinto a falta do burburinho constante, dos telefones a tocar muito alto, dos gritos à hora de fecho – ou à hora de tomar decisões. Ainda sinto a falta dos telefonemas às 8h de alguém que afinal tem uma informação que pedi ontem, dos almoços sem horários, das manhãs entre café e montes de páginas de jornais.
 
Não, claro que ainda não me habituei e ainda digo ‘nós’ sempre que falo do jornal. Ainda olho para as notícias à procura de quem a escreveu, de tentar descobrir quem teriam sido as fontes. Ainda tenho vontade de pegar no telefone a desancar quem não me passou informação que acahava que devia ser minha.
 
Sim, ainda sinto a falta de subir aquelas escadas todos os dias e de sentir o cheiro a pó, às pessoas que passavam por mim demasiado maquilhadas, a correr para um direto..tenho saudades da agenda chei de entrevistas e de histórias novas. Até dos terminais da Bloomberg sinto a falta.
 
Mas não sinto a falta de ter o que fazer. Não sinto que tenha abrandado o ritmo. Não sinto falta de sair às 21h e perder tantos momentos importantes de tantas pessoas importantes. Não sinto a falta de ter que cozinhar o almoço do dia seguinte, todos os dias, ainda que tivesse chegado as 22h. Não sinto falta do cheiro das ruas. Nem do café que cheirava a fritos.
 
Sinto falta de algumas pessoas que tornavam os meus dias mais brilhantes. Mas essas trouxe comigo, e levá-las-ei para a vida.
 
Entrada na Nossa Agenda a propósito da mudança de vida. Da minha vida.

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