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Archive for Julho, 2011

Dentes-de-leão

Quando as luzes se acenderam deixou de sentir: medo, ansiedade, pânico. Deixou de sentir tudo o que a tinha praticamente paralisado atrás daqueles panos que durante tanto tempo quisera conhecer. Pisou aquele palco com o cuidado de quem caminha por entre dentes-de-leão, não vá o movimento abrupto espalhar os pequenos pedaços daquela espécie de algodão que sempre admirara.

Olhou em frente, para aquele holofote que, sabia, segui-la-ia durante as próximas horas, e engoliu em seco. E se me falha a voz? E se não é isto? E se a água não estiver ali? E se…

Ouviu os primeiros acordes e soube que não havia como voltar atrás. Respirou o silêncio dos milhares de pessoas que, sustendo a respiração, faziam aquela sala parecer uma espécie de templo, onde o único som era a melodia que teimava em saltar das teclas do piano ali ao lado.

Fechou os olhos e

I heard you’re sattle down…

A voz, portentosa, única, encheu uma sala cheia de expectativa, carinho e surpresa. De alguns rostos soltaram-se sorrisos, de outros as lágrimas de quem nunca antes ouvira uma voz que expressasse tanta emoção em palavras banais que tantas vezes já tinham sido trocadas por esse mundo fora. Por tantas vozes e tantos olhares e tantas mãos e tantos sorrisos.

I wish nothing but the best for you too…

Era o timbre, a comoção, a afinação. Era a interpretação brilhante  e cheia. Era a entrega e a inocência em conjunto com a força e o talento.

Abriu os olhos e soube-o mal voltou a enfrentar a luz daquele holofote. As suas raízes estavam ali. Por entre dentes-de-leão imaginários.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Adele is a truly great star in the making

http://www.thisisbristol.co.uk/Adele-truly-great-star-making/story-13012147-detail/story.html

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Olham para lugar nenhum, com olhos tristes, vazios daquele brilho que associamos à felicidade. Velhos, novos, pretos, brancos, amarelos. Casados, noivos, solteiros, viúvos.

Desempregados ou quadros de empresas – são conjeturas, estas, que não sei quem são ou o que fazem estas pessoas que todos os dias me cruzam os passos. Sei que estão cansadas. Que aos 16 (não terá mais a miúda sentada aqui, agora) têm um olhar de sonhos desfeitos, quando ainda nem sequer os começaram a sonhar.

Têm olhos tristes estes que deviam agora levantar-se e lutar, com a mesma força com que há séculos se partiu por esse mundo fora quando esta terra não chegava para fazer sorrir. Têm olhos tristes e sem força.

E eu não gosto destes olhos. Não os quero ter, ver ou o ou ter qualquer ligação com olhares como estes. Lisboa devia ter olhos felizes, em cada uma das sete colinas com vista para o Tejo.

Entrada na Nossa Agenda a propósito do atual estado de espírito português.

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(Re) edições

Nasceu na Maia, estudou em Lisboa e faz sucesso no Brasil. Hugo Veiga tem 29 anos e “um espírito insatisfeito”. Há quase cinco anos que vive em São Paulo, onde é redactor da Ogilvy, uma das mais conceituadas agências de Publicidade do mundo. Mas a história deste criativo começou com um nome diferente, há seis anos. Hugo Veiga é o Professor Carago, “grande médium, vidente, curandeiro e copywriter”.

A apresentação está num papelinho em tudo semelhante aos que os verdadeiros médiuns distribuem no metro de Lisboa. Tem fotografia, número de telefone e uma descrição dos serviços oferecidos: “O poder do Professor Carago destrói rivais da criatividade e protege negócios da sua empresa e clientes…”

Distribuídos estrategicamente à porta de agências de publicidade, os anúncios valeram-lhe várias entrevistas e consequentemente várias propostas de emprego. Seria a primeira de muitas ideias de sucesso. “Se não te sabes vender, como é que vais vender um produto?”

Um estágio de seis meses no Brasil foi o prémio de um concurso de jovens criativos ao qual concorreu três vezes antes de ganhar. O estágio “correu tão bem que eles me chamaram, depois. Estava há seis meses aqui, na TBWA, em Lisboa, quando me fizeram a proposta”. E ele não resistiu, sabendo que estava a ir “para ficar e fazer muito mais”, conta numa mistura de pronúncia do norte e de Brasil, por entre um gole de café e a paisagem do Chiado. Desde então vive numa cidade com mais habitantes do que Portugal, onde tem construído uma carreira consistente e até premiada, ajudada sempre pelo seu estado de espírito. “Vou vivendo, vou trabalhando, vou curtindo”, para garantir a continuidade do sucesso, brinca. E reforça, mais a sério, que “para te manteres numa grande agência tens que ser premiado. Não tem outro jeito”, recordando que “os maiores prémios que tive, em termos de grandiosidade, foram dois ‘Grands Prix’, que curiosamente não foram dados por publicitários”.

Um deles – por um anúncio televisivo para o Exército da Salvação – foi votado pelo público. “E é engraçado como sendo português eu consigo comunicar com e agradar aos estrangeiros”. O outro, um anúncio para uma produtora de som, ganhou a preferência dos colunistas da imprensa brasileira, no final de 2009. A viver num dos países que mais bem paga no mundo da publicidade, a trabalhar numa das mais conceituadas agências e a viver numa das cidades que mais contribuiu para o PIB brasileiro, Hugo acredita que em Portugal é preciso fazer mais e protestar menos para que as condições de trabalho e de vida melhorem. “Toda a gente diz que as coisas estão mal, mas ninguém faz nada para mudar”. As vitórias profissionais atenuam as saudades da família e dos amigos de sempre, e vão sendo partilhadas com aqueles que agora fazem parte da sua vida. “Tive a sorte de fazer grandes amigos no Brasil. Lá, sinto que tenho uma família. De amigos, mas uma família”. E namorada. Um compromisso que foi adiando porque nunca sabia quando poderia voltar a Portugal, mas que fez sentido quando percebeu que o Brasil não vai sair da sua vida tão cedo. Quanto à distância que o afasta dos que por cá ficam, lembra que apenas “a percepção de proximidade é que muda. Eu estou aqui mesmo ao lado. Estou a doze horas daqui, já com a ida ao aeroporto e tudo. Não estou assim tão longe”, diz a sorrir.

Entrada na Nossa Agenda a propósito de todos aqueles que vivem a sua vida, com sucesso, longe do país que os viu nascer.

*Texto publicado na NS 230 de 5.06.2010

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