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Archive for Dezembro, 2011

Ano Novo

Tempo. Foi a palavra do ano e temo que continuará a sê-lo em 2012. Por entre tempo – que demos, que partilhámos, que fizemos render – o tempo foi e será sempre o nosso melhor amigo. Devido ao ‘tempo’ nasceu o nome de um blogue que pouco tem estado na nossa agenda. Porque a nossa se encheu de riscos, de entrevistas, de projetos, de problemas, de soluções, de desafios que nos roubaram mais tempo do que aquele que achámos que seria necessário para fazermos a vida com que sempre sonhámos.

O tempo é caprichoso: exige-nos disponibilidade, rouba-nos liberdade, ocupa-nos os dias já atarefados e, mais do que tudo, deixa-nos pouco para pensar. É difícil gerir algo assim porque nos foge ao controlo: consentimos que nos consuma os períodos que destinámos aos amigos, à família, ao trabalho. O tempo que destinámos a nós. A estarmos connosco.


Mas foi também o tempo – escasso, precioso – que nos trouxe aqui. Que nos juntou, quatro mãos com pouco tempo e que tentam sempre roubar algum ao que ainda nos sobra. Quatro olhos que tentam ver para além dos minutos, dos segundos que teimam em passar mais depressa quando o mundo parece girar a um ritmo mais rápido do que o normal.

E apesar de o tempo não ter abundado, os nossos olhos não deixaram de passar – e de querer contar –  pela deposição e morte de alguns dos ditadores mais famosos do nosso século: Mubarak, Kadhafi, Ben Ali, Kim Jong-Il. Emocionámo-nos com as celebrações dos dez anos do 11 de Setembro. Chorámos a ausência da poderosa voz de Amy Winehouse. Lamentámos a perda da genialidade de Steve Jobs. Aplaudimos a morte de Osama Bin Laden. Mas arrepiámo-nos com os momentos desumanos que a antecederam. Cantámos – ainda que em silêncio – a voz calada de Cesária Évora. Contámos os presentes no ‘Occupy Wall Street’. Fechámos a cortina a Elizabeth Taylor. Espantámo-nos com o caso Strauss Khan, Angustiámo-nos com os tumultos em Atenas. Saímos à rua com os indignados em Lisboa. Quisemos estar na Líbia. Acenámos aos noivos reais britânicos. (E suspirámos por um amor assim.) Convidámos amigos para celebrar aniversários. Celebrámos aniversários de amigos. Demos beijinhos e abraços a quem mais gostamos e quisemos estar mais, revoltámo-nos com a ausência muitas vezes forçada e tantas vezes angustiante.

Tentámos ser, com o pouco tempo que nos sobra, um pouco do tempo que vos ocupa. Feliz Ano Novo!

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Doutor

Nunca tinha ouvido falar nele.

Na verdade, achava que nunca tinha ouvido falar dele. Porque não se lembrava de ter ouvido falar dele. Ele, o génio da bola nos pés. Ele, o estudante irrepreensível. Ele, o jogador fora do comum, que jogava à bola, falava português do Brasil, fez um figurão nos mundiais de 82 e 86 e era médico. Sim, ele que tinha estudado Medicina. Quão estranho é isto de haver um jogador de futebol que, no auge da carreira nos anos 80, tinha já estudado para ser médico. Quão estranho é um Ás da bola ser médico no Brasil? Não querendo ser preconceituosa, quão improvável é haver um médico tão bom a jogar futebol que passa a ser chamado ‘doutor’ pelas receitas prescritas e pelos toques e fintas encantadores?

Por isso o doutor. Por isso a estranheza em nunca ter ouvido falar dele. Por isso, a curiosidade em ler sobre Sócrates. Sobre a carreira de um herói nacional, sobre os toques subtis na bola, sobre as opiniões de antigos colegas de equipa, sobre a vida e a carreira futebolística, sobre ele. Por tudo isso, a enorme estranheza de nunca ter ouvido falar neste médico jogador de futebol com nome de filósofo. A enorme estranheza de lhe escapar que, com uma vida tão cheia, lhe fizesse falta um bem tão precioso como o auto-controlo. Controlou os estudos, controlou a bola. Nunca soube controlar um adversário fatal chamado álcool. Daí a estranheza. Ouvir falar de uma vida tão cheia por causa de um fim tão estranho. Estranheza esta.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Sócrates, o doutor.

http://www.meutimao.com.br/materia/65471/quero_morrer_em_um_domingo_e_com_o_corinthians_campeao-socrates_em_1983

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