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Archive for Março, 2013

Do cansaço

Foi como se um balde de água gelada caísse sobre mim. Eu sei que parece um cliché, mas a sensação é mesmo essa. A de não conseguirmos respirar, de tanto que se aperta o coração, numa angústia que nos arrebata pela surpresa. Durante todos estes anos duvidei de mim própria. Já não sei o que é verdade ou mentira. Já não sei se me convenci de que sou inocente ou se, de fato, não tenho nada a ver com o que se passa.

Mas sei que me castigam desde então. Sei que a minha vida não passará pelas coisas com que sonhei, que planeei quando ainda não tinha preocupações maiores do que passar no exame do semestre. Sei que, sendo culpada ou inocente, já fui castigada e carregarei sempre o peso de uma sombra que nunca, nunca me abandonará. É a incerteza que me consome. Não sei se daqui a dois anos não estou atrás das grades. Não sei se continuarei a viver em liberdade. Não sei o que fiz. Não sei em quem acreditar.

Por agora, a única coisa de que tenho a certeza é de que estou cansada. De esperar, de lutar, de não saber. Estou cansada desta em quem me tornei. Das capas de jornal, dos olhares na rua, da culpa que nunca me abandona.

Estou cansada de ser. Com tudo o que isso implica.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Itália anula absolvição de americana acusada de morte de colega britânica

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Da vida

Fugaz. Efémera. Curta. Imprevisível. Corre-nos por entre os dedos, com aquele ar malandro de quem pode ser controlada, mas foge-nos assim que lhe tentamos deitar a mão. Cruel. Dura. Como se nos quisesse ensinar, todos os dias, que somos mais frágeis do que nos julgamos. A tirar-nos da cabeça o complexo de Deus que tantas vezes se apodera de nós, ingénuos humanos que achamos que podemos tudo. Que sabemos tudo.

O turbilhão. As decisões que achávamos que podíamos tomar e não tomamos. A confusão na nossa cabeça, no nosso corpo. Barulho. Tanto barulho. Ao longe, ao perto, como se tentassem passar-nos uma mensagem por entre o burburinho, mas não no-la quisessem dar diretamente.

A única certeza é a de que mais tarde virá a calmaria. o silêncio. o descanso. E que tudo ficará bem.

Porque assim é a vida. Incontrolável, mas cíclica.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das contrariedades da vida

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Viver para contar

Acordou cedo porque o calor era tanto que nem a cama do quarto do hotel, a centenas de metros de altitude, era suficiente para a aguentar. Tomou banho e nem lavou o cabelo – na noite anterior tinha-o secado levemente – sem grande necessidade de se prolongar mais do que 10 minutos ao contrário de uma situação normal, em que os 20 minutos de secador não teriam chegado. O ar, muito quente e seco, ajudava a secar o grosso cabelo castanho escuro. O pó também ajudava a secá-lo – não só pela falta de humidade como pelo pó. Vestiu-se rapidamente, não sem antes espalhar o protector solar factor 30, para precaver potenciais escaldões ou até as marcas da camisola de manga cava branca que escolheu para esse dia. “Um básico”, pensou, ao mesmo tempo que se sentava na cama para apertar os atacadores daquelas all star branco sujo – já meias cinzentas e cor de tijolo pelos passeios no deserto. Acordou-os depois de se vestir, pediu-lhes que se apressassem e saiu antes deles para o pequeno-almoço. Sentou-se na sala: não havia ninguém, a não ser a miúda que servia os desayunos. Agradeceu a oferta, disse-lhe que queria iogurte e café fresco, acabado de fazer, para ver se acordava. Entretanto pôs-se a olhar para o cartaz emoldurado – o Chile como fundo, o deserto de Atacama como horizonte. Pensou nos quilómetros de carro sob céu azul e calor de Verão, na paisagem árida sem sinal de gente, sem sinal de vida. Acabado o pequeno-almoço, entraram no carro. Foi folheando o guia, enquanto eles perguntavam pela rua o caminho para o observatório. Seguiram pela terra batida, como se o calor fosse só mais uma razão para estarem ali, naquele sítio, àquela hora. Chegaram à entrada e perguntaram se podiam subir. A vista foi tudo. Tanto mas tanto que não conseguiram lembrar-se de mais nada que contar.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do ALMA, no Chile.

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Dos sonhos

Há poucas coisas que me dão mais prazer do que escrever contigo. A quatro mãos. A quatro olhos. A dois sorrisos. Ninguém diria que o nosso ódio à primeira vista acabasse assim. Devagarinho, quase sem dar conta, foste ganhando o teu espaço na minha vida. No meu coração. Com esse jeito desprendido e despreocupado, com o sorriso fácil e o olhar penetrante, sabes ler e contar o mundo como poucos.

E agora? Voltaremos a escrever a quatro mãos com um oceano a separar-nos!?:) Partilharemos via mail as aventuras e desventuras de dois países tão distantes, como já fizemos uma vez. Mas vais fazer-me falta. Com os programas de ultima hora, com os almoços a meio dos dias de correria, com os jantares regados em vinho do bom – tantas vezes do teu.
Mas vai ser tão mas tão feliz que o meu coração não podia estar mais feliz – ainda que contrito por uma saudade antecipada. E não sei se vou conseguir levar-te ao aeroporto como fizeste comigo (desconfio de que vais embora enquanto estou fora). Mas sei que te vou sentir a falta como nunca. E que os meses vão demorar a passar. Porque tu és uma miúda e tanto.
E eu tenho a sorte da vida por o nosso ódio se ter transformado em amor. E não importa quão longe a vida te leve: os nosso caminhos estão inevitavelmente no caminho uma da outra.
Entrada na Nossa Agenda a propósito da tua mais recente conquista.

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Foi com uma pequena, pequenina, quase inexistente dose de surpresa que a notícia foi recebida. Mas morreu mesmo? A sério?

Sim, mesmo a sério. Ou pelo menos, agora já é oficial. Porque dizem os rumores que já está morto há muito mais tempo. Sabe Deus – ou outra qualquer outra entidade divina, uma vez que o senhor não era crente – se chegou a sair com vida de Cuba. Fechou-se um ciclo. Não fosse ainda a sombra de Fidel Castro a pairar sobre Cuba, e as Américas Central e do Sul entravam definitivamente numa nova era.

Yo no qiero morir, terá dito, à medida que foi sentido a vida evadir-se de um corpo quedo. Yo no quiero morir, ouviu-se no quarto daquele sob a alçada de quem morreram tantos inocentes. Yo no quiero morir, lamentou aquele que ficará para sempre na História do país e do mundo pelas paixões e ódios exacerbados que conseguiu despertar. Yo no quiero morir, como se de uma ordem se tratasse. Como, se à semelhança de toda a sua vida política, pudesse fazer com que a Morte obedecesse às suas ordens. Yo no quiero morir, com a certeza de que a sua passagem no Mundo acabara, no momento em que destilara ódio por toda a medicina mais avançada e decidira refugiar-se nos médicos do amigo Castro.Yo no quiero morir, foi a última ordem de El Comandante.

Que a Morte não cumpriu.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte de Hugo Chávez.

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carne viva

Peguei no telefone e liguei. Apresentei-me. Do lado de lá, uma voz negou aquilo que os outros escreviam. Notícia falsa, título sensacionalista. Larguei a história: nós não podemos incendiar as coisas que não são combustíveis, pensei. Economia positiva. Economia positiva. Às vezes é preciso esperar sorrateiramente, sem fazer barulho, e só ver as coisas acontecer à nossa frente. Como quando estamos à espera de uma boleia à entrada de um prédio qualquer, encostadas a uma parede. E as pessoas passam – nós vemo-las passar, sem fazer barulho, só a observar. E os olhares nunca se cruzam a não ser quando a boleia chega.

Ele nunca lá tinha ido e parece que foi de propósito. O jantar, combinado há uma semana, calhou exactamente no dia em que a polémica estoirou. Perguntei-lhe se tinha a certeza. Disse-me que sim. Há a visão romântica das coisas: o manifesto dado ao mesmo tempo que a factura em nome da empresa, um sorriso meio a medo, umas gargalhadas e uns olhares cúmplices de quem passou tanta coisa e há tanto tempo, e ainda assim não esqueceu nada. Como uma marca que se deixa, se entranha sem se estranhar, se apropria dos seus clientes sem que eles percebam que, de repente, passaram a precisar dela. Ontem, sem querer, não passámos de cavalo para burro. 100%.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito desta e de outras notícias relacionadas.

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