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Archive for Junho, 2011

Não-acontecimento

O documento caiu-lhes na caixa de e-mail e logo houve um aumentar do tom dos murmúrios e um apressar de passos a caminho das impressoras. Folhas soltas que passaram de mão em mão, olhos ávidos de novas estórias, daquela palavra que lhes podiam mudar o dia, o entusiasmo.

escrever, ler, escrever, ler, escrever, ler.

As horas foram passando, apressadas, como que a brincar com caracteres e caracteres escritos à velocidade da luz. Não havia novidades, é certo.  Como alguém escreveria mais tarde, neste caso, ‘no news are bad news’. Os cortes foram os esperados, as contenções, os aumentos, as diminuições. Mas era preciso mostrar ao País que tudo se mantinha. Pelo menos isso.

Tudo sem surpresas. Nem boas nem más. Mas uma com a estabilidade e a constância que fizeram com que os caracteres fossem acompanhados de suspiros.

Estamos cansados de surpresas. De desvios à verdade. De novidades todos os dias. De promessas quebradas. Hoje as estórias não são novas. Mas são verdade. E quem diz a verdade…às vezes sabe bem um não-acontecimento.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da apresentação do Programa do Governo de Passos Coelho, dia 28 de Junho de 2011, na Assembleia da República.

 

 

 

 

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Agarraste a oportunidade como quem se agarra à vida: com a mesma garra, confiança e certeza. Sabes que a vida não é fácil e que estás, há anos, a remar contra a maré. Com sucesso, é certo. Mas com muita dificuldade.

Deixaste de ter tempo para os amigos, para a família, para ti própria. Não que não estejas presente, porque estás. Mas estás menos do que todos gostaríamos. “Tem que ser”, dizes com o rotineiro encolher de ombros que dá lugar ao sorriso aberto de quem já nem tenta justificar-se. Não precisas. Sabemos que é tudo por amor.

Trabalhaste, durante dois meses, sem veres os teus textos serem invadidos por outros olhares. Soubeste pessoas, contaste estórias e acarinhaste numa barriga-que-não-é o teu segundo ‘bebé’. Voltas a ser chamada para uma equipa das boas, com ideias das boas e pessoas das boas.

Voltas a mostrar quanto vales e o que ainda podes ser. O sol tisnou-te a pele e agora já não pareces cansada. Pareces só feliz. E é dessa felicidade que me encho quando te vejo, sem to confessar.

Em segredo, levo para casa o teu sorriso, o teu encolher de ombros e a tua certeza gravada no olhar. E tento ser igual a ti. Todos os dias.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito do teu novo projeto. Da tua luta. Da tua vida.

 

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Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não ?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!…

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa Incompreendida…

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
‘Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.

Fernando Pessoa.
Entrada na Nossa Agenda a propósito do dia de aniversário de Fernando Pessoa.

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A guerreira

O cabelo curto e encaracolado foi afagado, vezes sem conta, por uma mão esquerda irrequieta. O olhar, perdido nas paisagens do Oeste, tinha o brilho de todos aqueles que amam a vida e o que dela fazem. Brincos coloridos espreitam por entre um caracol mais rebelde. Na mão direita o gravador, companhia de uma viagem que começou há tanto tempo e que não tem prazo para terminar.

Palavras discorridas a cada quilómetro percorrido!,a contar as historias que compõe a sua e que a fazem caminhar, errante, por uma Europa onde estudou mas que não tem como casa.

O relato, feito em voz baixa num autocarro semi-vazio, podia ser contado a um microfone que a ligasse directamente ao mundo. Provavelmente tenta guardar, pela voz, os sentimentos que a invadiram a cada facto, a cada pessoa, a cada pormenor.

“Vou escrever esse livro”, disse, confiante, à pessoa que a acompanhou à porta do autocarro. “Vou ter que ler muito, ainda ,mas vai dar certo”, concluiu com o sorriso dos projectos de uma vida.

A mochila verde, pequeno santuário de qualquer jornalista itinerante, fica, muda e queda ao seu lado enquanto ela fala do tanto que aconteceu este fim-de-semana.

E continua a contar as histórias dos outros, enquanto, sem perceber, escreve também a sua. Mão esquerda junto ao peito, mão direita no gravador. Olhos fitos no horizonte.

Recosta o banco em que viaja, arruma as coisas e fecha os olhos. A guerreira descansa antes de se atirar a mais uma história, em mais uma cidade desconhecida, num Pais que não é o seu.

Entrada na Nossa Agenda a propósito de todos os que amam o que fazem.

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