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Archive for the ‘religiao’ Category

O ruído que vem lá do alto contrasta com o cenário monocromático que se estende em terra. A junção de todas as cores numa só, a sabedoria, a temperança, a divindade e o humano querem coabitar num espaço e num tempo que se faz presente, mas carregado de dúvidas, de preconceitos, de informação divergente e opiniões contraditórias.

O dourado que pende sobre aquela alvura brilha à luz do sol. Reflexo de uma riqueza que mais do que exterior devia ser interior. Sentida. Prioritária.

“Tu és Pedro”, cantam vozes infantis, sem que parte dos espectadores, dos ‘fiéis’, entendam porquê. “Tu és Pedro”, e não “Tu és Deus”.Porque não és. És a imagem daquilo que todos deveriam querer seguir. És o exemplo daquilo que deveria ser a Verdade, daquilo que deveria ser o Amor, daquilo que deveria ser o Bem.

Mas és homem. Por isso “tu és Pedro”, e não “és Deus”. Por isso os erros, os passos em falso, as excentricidades. Por isso nem sempre se quer ser como tu, “Pedro”. Porque, no fundo, todos queremos ser “Deus”. Sem errar, sem dar passos em falso, sem ceder às tentações, sem fazer vítimas.

Tu és homem. À tua volta todos são homens. Por isso o branco é só aquilo que deverias querer ser. O branco é mais do que aquilo que consegues ser, na verdade. No limite, o Branco é a verdade, enquanto tu és os erros que o maculam. Porque tu és homem. E, acreditando que fazes o melhor que podes, que consegues, que te deixam fazer, és amado e admirado.Mas és homem. E erras. E perdoas e escondes os erros dos outros homens, porque é assim a protecção das espécies.

“Tu és Pedro” e não Deus. Por isso podes errar. E podes ser perdoado. Ou não. Porque quem te perdoa também são os homens. O perdão de Deus, esse, terás mais tarde.

E é por isso que a fé não está em ti, mas sim n’Ele. Em Deus. E não em Pedro.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da visita do Papa Bento XVI a Portugal.

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A resposta era sempre a mesma quando ouviam a declaração: Ah, não pode ser. Está mesmo a falar a sério? E ele sorria. Como sempre.

Desde pequeno que era um garoto bem disposto. Acordava a sorrir, brincava com os irmãos, ia para a escola sem birras. Aprendera música desde cedo. Piano. E canto. Com o cabelo encaracolado e o sorriso aberto fazia as delícias de quem o ouvia. É um verdadeiro anjo. Que delícia de menino. A adolescência tinha sido aborrecidamente normal. Nada de muitas festas. Nada de muitos disparates típicos. Nada de bebida ou de tabaco. Continuava com as aulas de piano e passou para a composição. Os vizinhos adoravam os concertos gratuitos todos os dias. Especialmente quando a irmã o acompanhava no canto. Que maravilha. Estás a ouvir como ele toca cada dia melhor? Depois veio a fase dos amores. Da paixão. Da relação que ia ser para sempre. Porque eles são o casal mais bonito daqui. Têm tudo a ver! Não me admira que quando terminarem a faculdade estejam casados.

A entrada na faculdade. O curso, um dos mais exigentes. E um outro amor que se ia instalando. Causando angústia. Que ia tentando ganhar espaço num coração que – pensava ele – já estava totalmente preenchido. Como sempre o curso correu bem. A matemática não assustava. Nem a física. Mas aquela inquietação sim. E como decidir? Como se escolhe entre dois amores? Ou seria só um encantamento? Uma paixão? Um engano? Podia atirar os três anos daquela relação para o ar para abraçar aquilo que agora achava ser o correcto? E se estivesse errado?

A viagem podia ajudar a esclarecer. Ela sabia que algo não estava bem. A relação não era a mesma nos últimos meses. O sorriso esmorecera-lhe no rosto embora continuasse a emanar amor pelos gestos, os olhos, a música que nunca deixara de tocar. Até que ele decidiu. Desculpa. Mas vou ter que saber o que isto significa. Não é justo ficar contigo se não for a sério. Totalmente. E agora eu não posso estar contigo totalmente porque há algo mais no meu coração.

(…)

Os amigos já se tinham habituado à ausência física. Sabiam-no presente e tinham saudades dele. Mas sabiam que tinha feito a escolha correcta. Não se pode ter dois amores. Não dá para partilhar um coração. Porque ele é só um.  A todos custara a separação dos amigos, mas sabiam que era na felicidade dele, naquele dia, que estava toda a verdade! Olharam emocionados o rosto escondido pelos braços e olhos – sabiam, mesmo não vendo – fechados.

Vós me seduzistes, Senhor

E eu me deixei seduzir

Vós me dominastes

E venceste.

(…)

Olhou novamente para a senhora que o interpelara. É mesmo verdade. Sou padre! Novo, mas padre! E sorriu. Como sempre.

Entrada na Nossa Agenda a propósito do início do Ano Sacerdotal, hoje:

http://umasemanacom.blogspot.com/2009/06/ano-sacerdotal-o-que-e-ser-um-padre.html

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