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Posts Tagged ‘vida’

E ontem, quando bateu a saudade, abri pela primeira vez a única coisa tua que tenho  em casa. E quase te pude ver a usar estes brincos, esta pulseira, estr colar… E todos os outros que guardo com o carinho e a angústia de quem queria era ter-te aqui nas coisas ao invés de ter só as coisas sem ti.

E não me julgues mal, que a saudade é proporcional à alegria que sinto por teres ido. Arriscado. Porque agora te sei melhor e mais completa. Agora vejo-te, novamente, como há uns tempos: genuína, observadora, sem limites para a escrita, para o mundo.

Mas esta coisa da saudade – boa – é uma maçada sobretudo em alturas destas. Em que trocava tudo por um jantar em terras de um Paramaribo imaginário. Só nosso.

Tenho saudades tuas. E se as palavras as não aplacam, vou esperar que o tempo – e o saco cheiinho de coisas tuas que lá anda por casa – o faça.

[guardei tudo novamente no saco de pano e pus junto às minhas coisas. A ver se te sinto tão perto quanto as nossas bijuterias estão umas das outras 🙂 ]

Entrada na Nossa Agenda a propósito da distância da Mariana. O meu outro par de mãos.

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Não, claro que ainda não me habituei. Ainda sinto a falta do burburinho constante, dos telefones a tocar muito alto, dos gritos à hora de fecho – ou à hora de tomar decisões. Ainda sinto a falta dos telefonemas às 8h de alguém que afinal tem uma informação que pedi ontem, dos almoços sem horários, das manhãs entre café e montes de páginas de jornais.
 
Não, claro que ainda não me habituei e ainda digo ‘nós’ sempre que falo do jornal. Ainda olho para as notícias à procura de quem a escreveu, de tentar descobrir quem teriam sido as fontes. Ainda tenho vontade de pegar no telefone a desancar quem não me passou informação que acahava que devia ser minha.
 
Sim, ainda sinto a falta de subir aquelas escadas todos os dias e de sentir o cheiro a pó, às pessoas que passavam por mim demasiado maquilhadas, a correr para um direto..tenho saudades da agenda chei de entrevistas e de histórias novas. Até dos terminais da Bloomberg sinto a falta.
 
Mas não sinto a falta de ter o que fazer. Não sinto que tenha abrandado o ritmo. Não sinto falta de sair às 21h e perder tantos momentos importantes de tantas pessoas importantes. Não sinto a falta de ter que cozinhar o almoço do dia seguinte, todos os dias, ainda que tivesse chegado as 22h. Não sinto falta do cheiro das ruas. Nem do café que cheirava a fritos.
 
Sinto falta de algumas pessoas que tornavam os meus dias mais brilhantes. Mas essas trouxe comigo, e levá-las-ei para a vida.
 
Entrada na Nossa Agenda a propósito da mudança de vida. Da minha vida.

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Da vida

Fugaz. Efémera. Curta. Imprevisível. Corre-nos por entre os dedos, com aquele ar malandro de quem pode ser controlada, mas foge-nos assim que lhe tentamos deitar a mão. Cruel. Dura. Como se nos quisesse ensinar, todos os dias, que somos mais frágeis do que nos julgamos. A tirar-nos da cabeça o complexo de Deus que tantas vezes se apodera de nós, ingénuos humanos que achamos que podemos tudo. Que sabemos tudo.

O turbilhão. As decisões que achávamos que podíamos tomar e não tomamos. A confusão na nossa cabeça, no nosso corpo. Barulho. Tanto barulho. Ao longe, ao perto, como se tentassem passar-nos uma mensagem por entre o burburinho, mas não no-la quisessem dar diretamente.

A única certeza é a de que mais tarde virá a calmaria. o silêncio. o descanso. E que tudo ficará bem.

Porque assim é a vida. Incontrolável, mas cíclica.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das contrariedades da vida

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Ela chorou quando soube da notícia. Tinha medo – como toda a gente tem – do desconhecido. Ele não. Ele sorriu porque a ideia já tinha aparecido, bem antes das notícias tristes.

Ele e ela costumavam preocupar-se em fotografar os momentos importantes e os outros. Aqueles a que uma pessoa normal não liga de tão…normais. As tardes de domingo a roubar a manta um ao outro no sofá apertado da sala em que cabiam os dois a custo. Ou os almoços esporádicos em que, ambos faziam um esforço nas agendas e conseguiam almoçar juntos em casa. Bob tinha registo da primeira vez que foram ao cinema – ele fotografou os dois bilhetes – ela não quis o dela, que não gostava de “guardar lixo”; depois, surpreendeu-a com a fotografia numa moldura com flores em relevo, pintada de branco. E com uma dedicatória no verso que dizia. És o meu filme preferido.

Naquele dia – como dizia – ele não se assustou porque sabia o que a ia curar. Rir ia curá-la. Deu-lhe um abraço, limpou-lhe as lágrimas e arrastou-a, a custo, para casa. Depois seguiu para a pequena retrosaria do bairro onde pediu à menina do balcão tule. Três metros de tule cor-de-rosa. Naquela noite, depois do chá de camomila, levou-a ao colo para a cama, deu-lhe um beijo de até já e fugiu para a sala. A cama foi ficando quente, os lençóis aquecidos por ela. E ele longe, sentado à mesa, computador de um lado, máquina de costura do outro. Procurou instruções, mediu a cintura, cortou o tecido com cuidado. Já era de manhã quando conseguiu vestir o tutu. O tutu cor-de-rosa. Nessa manhã, quando ela acordou, ele sentiu-a chamar. De tutu vestido – só de tutu vestido – agarrou no tabuleiro com o pequeno-almoço e levou-lho à cama. Pousada numa mesa, a máquina fotográfica, com a primeira fotografia de tutu cor-de-rosa vestido.

No dia seguinte, apareceu-lhe com outra moldura – branca com flores de relevo -, com a fotografia emoldurada. No verso, escreveu. És a minha dança favorita.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do projecto “The Tutu Project”. Saiba mais aqui.

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Dentes-de-leão

Quando as luzes se acenderam deixou de sentir: medo, ansiedade, pânico. Deixou de sentir tudo o que a tinha praticamente paralisado atrás daqueles panos que durante tanto tempo quisera conhecer. Pisou aquele palco com o cuidado de quem caminha por entre dentes-de-leão, não vá o movimento abrupto espalhar os pequenos pedaços daquela espécie de algodão que sempre admirara.

Olhou em frente, para aquele holofote que, sabia, segui-la-ia durante as próximas horas, e engoliu em seco. E se me falha a voz? E se não é isto? E se a água não estiver ali? E se…

Ouviu os primeiros acordes e soube que não havia como voltar atrás. Respirou o silêncio dos milhares de pessoas que, sustendo a respiração, faziam aquela sala parecer uma espécie de templo, onde o único som era a melodia que teimava em saltar das teclas do piano ali ao lado.

Fechou os olhos e

I heard you’re sattle down…

A voz, portentosa, única, encheu uma sala cheia de expectativa, carinho e surpresa. De alguns rostos soltaram-se sorrisos, de outros as lágrimas de quem nunca antes ouvira uma voz que expressasse tanta emoção em palavras banais que tantas vezes já tinham sido trocadas por esse mundo fora. Por tantas vozes e tantos olhares e tantas mãos e tantos sorrisos.

I wish nothing but the best for you too…

Era o timbre, a comoção, a afinação. Era a interpretação brilhante  e cheia. Era a entrega e a inocência em conjunto com a força e o talento.

Abriu os olhos e soube-o mal voltou a enfrentar a luz daquele holofote. As suas raízes estavam ali. Por entre dentes-de-leão imaginários.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Adele is a truly great star in the making

http://www.thisisbristol.co.uk/Adele-truly-great-star-making/story-13012147-detail/story.html

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Agarraste a oportunidade como quem se agarra à vida: com a mesma garra, confiança e certeza. Sabes que a vida não é fácil e que estás, há anos, a remar contra a maré. Com sucesso, é certo. Mas com muita dificuldade.

Deixaste de ter tempo para os amigos, para a família, para ti própria. Não que não estejas presente, porque estás. Mas estás menos do que todos gostaríamos. “Tem que ser”, dizes com o rotineiro encolher de ombros que dá lugar ao sorriso aberto de quem já nem tenta justificar-se. Não precisas. Sabemos que é tudo por amor.

Trabalhaste, durante dois meses, sem veres os teus textos serem invadidos por outros olhares. Soubeste pessoas, contaste estórias e acarinhaste numa barriga-que-não-é o teu segundo ‘bebé’. Voltas a ser chamada para uma equipa das boas, com ideias das boas e pessoas das boas.

Voltas a mostrar quanto vales e o que ainda podes ser. O sol tisnou-te a pele e agora já não pareces cansada. Pareces só feliz. E é dessa felicidade que me encho quando te vejo, sem to confessar.

Em segredo, levo para casa o teu sorriso, o teu encolher de ombros e a tua certeza gravada no olhar. E tento ser igual a ti. Todos os dias.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito do teu novo projeto. Da tua luta. Da tua vida.

 

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Não é um papel que define as coisas. Mas o teu nome está para o meu desde que eu nasci. Fui buscar-te o primeiro apelido, coladinho ao meu. Ofereceste-mo de graça, porque quiseste que, oficialmente, fosse já uma parte de ti, uma continuação tua. Mas ainda antes disso, já te reconhecia a voz. Durante meses falaste comigo, tocaste-me através de uma camada fina de pele que parecia não existir, de tão alta que sentia a tua voz, de tão forte que sabia a ligação. Nem quando tossias e eu tremia, o barulho me assustava. Porque eu sentia-me protegido sob a tua responsabilidade. Não sei porque me escolheste a mim, o que motivou esta escolha, como soubeste que era eu, que tinha que se eu e não outro qualquer. Mas – apesar do desconhecimento – pareces certa da tua escolha, não hesitas um instante que seja, manténs a pose mesmo quando duvidas de uma ou outra atitude, mesmo quando choras depois de me ralhares porque não me porto bem. Eu, de ti, não tenho a dizer mais do que o bem que me fazes, do bom que é um abraço teu, do doce a que me sabe um beijo vindo daí ou do agradável que é sentir o teu cheiro na minha roupa lavada e guardada com cuidado no meu armário. Fazes questão de estar sempre e de dar tudo o que tens. E continuo a estremecer quando sinto que te aproximas. Como no primeiro olhar – em que soube que eras mesmo tu aquela que me falava e eu não via, que soube que eras tu a encarregada pela minha alimentação cuidada e pelo calor e conforto (e até das canções de embalar e das festinhas à noite, quando eu estava mais inquieto). Um dia – penso tantas vezes – quero ser como tu. Continuo, como na primeira vez, a ter a certeza: a minha, não podia ser outra pessoa senão tu, mãe.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do Dia da Mãe. Que mãe, há só uma.

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