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Posts Tagged ‘Portugal’

Falem bem, caramba. Não se diz “há quatro anos atrás”. Tenham vergonha. Não dêem a emigração como desculpa para a abstenção num país de greves mensais e de queixas hora a hora. Num país assim, as pessoas deviam fazer fila à hora de abertura de urnas, porque sentem que há alguma coisa para mudar e porque têm o direito de se sentir participantes de um sistema que podem mudar. Não, não e não. Não venham com histórias de que a chuva e a praia e o vento e as dores de barriga e o preço da gasolina e o raio que o parta são desculpa para não irem votar. Tenham tino. Deixem de se queixar das irresponsabilidades dos políticos e olhem mais para dentro. Quantos, de vossa casa, têm mais de 18 anos e foram votar?

Olhem para os números: já bastam os declarados mortos que estão vivos e os mortos-vivos chamados às urnas. É assim tão grande o esforço de largar o Facebook e voltar àquela escola primária onde aprendemos a ler para sentir que também nós somos responsáveis pelo nosso futuro? Basta. Chega desta apatia desmedida que nos retira a capacidade de sermos mais. Chega de dar desculpas esfarrapadas para não fazer aquilo que nos cabe. Todas as razões são boas para sair de casa, e esta ainda melhor. É nestes dias em que podemos contribuir para alguma coisa que devemos fazer uso do nosso egocentrismo diário: sair de casa por nós.

Está tudo bem com as pessoas? Já chega de deixar a nossa vida nas mãos dos outros e, por cima disso, ainda dizer que não podemos fazer nada. A culpa disto também é nossa, muito nossa. Será que ninguém se dá conta? Caramba, que autoridade a nossa de estar sempre a criticar sem tentar olhar para o outro. Mexam esse rabo. E não me venham com histórias.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito disto. Que tristeza.  

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Silêncio. Depois da notícia, dita em apenas quatro palavras, foi silêncio o que mais se ouviu. Um raro silêncio unânime num País onde tanto há a dizer sobre toda a gente. Desta vez só o silêncio da humildade de quem sabe da pobreza que recaiu sobre todo um País.

Sempre que um Homem morre é toda uma biblioteca que se incendeia, diz um provérbio indiano. Repetiram-no durante o dia inteiro. Como se as palavras ajudassem a entender e sobretudo a aceitar.

Parece certo, o provérbio. Mas não percebo por que não param de o repetir. Não é como se fosse uma biblioteca. Um livro? Talvez… Sim!, sessenta anos de vida dão um bom livro. Interessante, talvez. Mas uma biblioteca? Não. Precisaria mais de 150 anos para poder ser algo parecido com uma…

Olha de cima, agora, como nunca olhou antes. Vê o mundo que quis melhorar com a distância de quem, apesar de tudo, ainda pode fazer tanto para ajudar: pelo trabalho, pelo empenho. Ficam as memórias. Os exemplos.

Era apenas o que tinha que ser feito. Remar contra a maré. Gritar aos quatro ventos as crenças. Trabalhar para um mundo – para um País – melhor. Entregar-se. Literalmente. E dar a vida pelos ideais que espera que não morram também com ele.

Eles vão conseguir. O preço a pagar é alto, mas a recompensa…ah!, sim, eles vão conseguir. No descanso de quem nunca quis parar, a certeza de que o mundo não ficou igual depois da sua passagem. Firme. Determinado. Genial. Empenhado. Destemido. Levou o País mais longe. Fez capa de revistas internacionais. Ora, não foi nada de especial. Era o que tinha que ser feito. O mundo reverenciou-o como nunca o País.

Que, no entanto, se quedou mudo num silêncio de tristeza, de perda e de pesar profundo. Um País que afinal ainda sente. Ainda sofre. Ainda cala no luto. O País para onde sempre quis voltar. O meu País. O meu País.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte de António Borges.

http://www.publico.pt/economia/noticia/antonio-borges-um-economista-liberal-1603942

 

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Não suporto o cinismo e a incredulidade. Aqueles que se entranham na pele e nos fazem mais pálidos só porque lhes passamos ao lado. A facilidade do pessimismo que tolda o pensamento faz-me, quase todos os dias, pensar em algo que para muitos é quase ofensivo: tenho pena de ter nascido em Portugal. Não pelo País, em si. Portugal tem o melhor clima de sempre, uma costa lindíssima, boa comida, bons vinhos. Mas aos portugueses falta-lhes a clarividência. A vontade.

Enquanto descia a Avenida, saia comprida e botas nos pés, o sol rompendo a medo umas semi opacas nuvens, sentiu a cara molhada. Há muito tempo que não sentia o ‘clique’ do encaixe. Tudo é um drama.  Tudo é difícil. Tudo é problemático. Como se também ela não tivesse os problemas de todos os dias. Somos sempre os piores, só sabemos imitar bem, não criamos, não somos, não sabemos.

Contou, e chegaram-lhe os dedos das duas mãos, os portugueses que esboçavam um sorriso. Que andavam, pelo menos ligeiramente felizes. A desesperança sentia-se no ar enquanto apressava o passo, sedenta de que o ar do rio lhe pudesse aliviar a dor da alma. Não quero estar aqui, repetia, incessantemente, quase cantando a mesma melodia. Não quero estar aqui. Não quero estar aqui.

Sabia-se mais.Sabia-se melhor. Sabia que os portugueses eram mais do que aquilo que diziam. Que queriam ser. Tinha a certeza – sabia-o como a si mesma – de que havia portugueses fantásticos no mundo. De que a vida lhe tinha mostrado isso com as pessoas com quem se tinha cruzado. E de repente aquele som, inimitável, de um ‘email’ a chegar.

Abriu um sorriso. Eu sabia, murmurou. E reviu, vezes sem conta, aquele vídeo que – lá está, ninguém queria saber – também falava português.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da campanha ‘Retratos da Real Beleza’, da Dove.

 

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O ciclo repete-se. Despertador toca. Entre uma espreguiçadela e um sorriso, levantamo-nos a custo. Dar comida ao gato, ao cão e ao peixinho. Banho. Os gestos são mecânicos. Tanto quanto a nossa vida parece ser também. Está frio, hoje. Toalha ao largo. Roupa quente. Botas. Make up. Como é que eu viveria sem make up? Um pequeno-almoço rápido enquanto se ouvem as notícias. Futebol, que as manhãs são parcas em importância nos noticiários.

Sair. Enfrentar o frio o trânsito, os caminhos cortados. O ciclo repete-se. Bom dia, como está? Há quanto tempo? Sorrisos. Ainda bem que veio. Sorrisos. O ciclo repete-se. Sentar à secretária. Escrever. Contar. Falar. Telefone. Barulho. Televisão. Contar. Contar. Contar. Escrever. A luz começa a desvanecer-se ao mesmo tempo que as ideias. O cérebro aguenta cada vez menos horas de trabalho seguidas. Está tudo bem. This is your life. Do what you love and do it often. Como um mantra, repete-se a leitura. This is your life. Para o bem e para o mal.

Percorrer, pela enésima vez, os sites de informação. (Re)ler trinta vezes o que aí vem:

Governo quer diluição de pelo menos um subsídio no privado já em Janeiro.

Actividade económica cai e agrava-se em Setembro

Governo prepara-se para aumentar horário de trabalho no Estado

O ciclo repete-se. Eu não quero morrer sem braços e sem pernas e com a bandeirinha na boca. O patriotismo acabou. A esperança acabou. O ciclo repete-se. O burburinho recrudesce à medida que a luz se esvai. Aceleram-se os movimentos. Contar. Escrever. Ouvir. Contar. Contar.

Abrir a porta de casa e fazer uma festa ao gato. Alimentar o cão, o gato e o peixe. Fazer o jantar. Enrolar numa manta e sentar no sofá. Amanhã é outro dia. Infinitamente igual. O ciclo repete-se. Tal como a História.

E a História diz que também isto passará.

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‘Geração à rasca’

“PROTESTO APARTIDÁRIO, LAICO E PACÍFICO.
Nós, desempregados, “quinhentoseuristas” e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal. Protestamos:
– Pelo direito ao emprego! Pelo direito à educação!
– Pela… melhoria das condições de trabalho e o fim da precariedade!
– Pelo reconhecimento das qualificações, competência e experiência, espelhado em salários e contratos dignos!

Porque não queremos ser todos obrigados a emigrar, arrastando o país para uma maior crise económica e social!”

Recebo, todos os dias, vários convites para participar neste evento. Uma manifestação que ‘vai mudar o mundo’. Que de repente vai deitar abaixo a nossa classe política, empregar milhares de pessoas e resolver todos os problemas do nosso país. A mesma geração que se quer juntar numa manifestação de ‘milhões’ na Avenida da Liberdade, é a mesa geração que vive em casa dos pais sem se importar, que não trabalha ‘fora da área’, que faz quatro estágios não remunerados  – porque o aceita!! – que rejeita dar passos atrás para dar mais em frente e que ainda diz mal das opções dos outros.

É a mesma geração que trabalha anos a recibos verdes porque ‘não tem opção’, que não vai para fora ‘porque não pode’, que não faz outros trabalhos ‘porque não tem que fazer’.

É a mesma geração que não percebe que é nas pequenas coisas que o mundo muda. Que não entende que por cada estágio não remunerado que aceita o está a legitimar para todos os que vêm atrás; que não entende que a cada mês que passa em casa dos pais está a adiar o futuro; que não tem sentido de sociedade de cada vez que aceita receber salários ‘por debaixo da mesa’, que não tem orgulho e que nem tão pouco sabe o que quer.

E esta geração, aquela a que eu pertenço, pede-me que me junte a eles num protesto que vai mudar nada. Porque não podemos fazer protestos mas não pedir aumentos no trabalho; não podemos fazer protestos e não pedir contratos; não podemos fazer protestos e quando vamos às festas dos amigos, oferecer-lhes um bilhete de concerto em vez daquilo que a pessoa pediu ou precisa. Não podemos ir a protestos quando só sabemos cobrar direitos e esquecer que temos deveres. Não podemos ir a protestos quando nem sequer levantamos o rabo da cadeira para ir votar.

Não, não vou a estes protestos ou manifestações ou whatever. Lamento. Mas lamento muito mais perceber que as pessoas gastam as energias em coisas muito menos úteis do que aquelas em que deviam.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito do protesto marcado para dia 12 de Março.

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Da ausência

Era para vir cá mais cedo, mas não deu. Há dias que penso em vir escrever, dar-te alguma atenção, conversar contigo. Mas os dias passam tão rápido, as horas tão ocupadas, os minutos tão avassaladores, que – e até tenho vergonha de admitir – nem sempre tenho ‘paciência’ para voltar aqui. És importante, não nego. Foste pensado ao pormenor, com carinho, com tudo aquilo que um projecto deve ter. Foste pensado a dois, como os bebés que nascem dos casais em todos os dias do ano. De todos os anos. E se vão multiplicando em expressão e em amor. Como nos filmes. E não há semana em que não me lembre de ti com todo o carinho com que te fui construindo. Mas as coisas são mesmo assim. Já dizem na vida real. Que as relações são mesmo de altos e baixos, de paixão e de desencantamento. De velocidade e pausa. Como a nossa. Por isso, hoje vou fazer uns bolinhos contigo, dar-te alguma atenção. Conversar contigo sobre os últimos meses. Fazer um balanço: o possível. Porque sei que não será o que eu mais queria. Mas aquele que é necessário para avançar.

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O nosso blogue é feito de estórias. Nossas, mas especialmente de todos aqueles que de uma forma ou de outra, constroem a história que é, inevitavelmente de todos nós. E o nosso blogue é também feito de ajudas. Porque o tempo [e o nosso em particular] teima em encurtar quando só precisamos que ele duplique. E porque há tantas estórias boas por aí, tantas opiniões escritas por mãos que tão bem o fazem…hoje as letras são do Paulo C. Graça Moura.

Contra-ciclo. O Planeta Terra – antes orgulhosamente só – bóia num mar crescente de água que implode em sofrimento, numa clara manifestação de desagrado pelo comportamento do Homem. Num mundo em que o imediato é muitas vezes visto como pouco ambicioso, o degelo parecerá inofensivo. Ontem, tempo era dinheiro…hoje é mais, muito mais. Aliás, sempre demos valor a tudo aquilo que é escasso – base simplista do conceito de mercado e da lei da oferta e da procura.

Escassa é também como muita gente definirá qualidade na politica em Portugal.

Curioso é o facto de também aqui, o tempo sofrer de atrofia, envolto em contra-ciclos cada vez mais instantâneos. Depois de um 05 de Outubro de 1910 desenhado em mais de 2 anos, passando por um 25 de Abril de 1974 que se estabeleceu em pouco mais de 1 ano, que a história política de Portugal se faz de contra-ciclos mornos e enfadonhos.

Isaac Newton descreveria a democracia portuguesa como gravitacional. Um pêndulo que gravita da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, em movimentos absolutamente previsíveis.

Essa previsibilidade cria algumas interrogações, tais como, a utilidade dos partidos políticos. Na teoria, os partidos surgem como elites representativas dos cidadãos. No entanto, hoje em dia, os partidos políticos representam apenas o seu aparelho político e os seus próprios interesses, utilizando a lógica da eleição como uma ferramenta de legitimação.

Na verdade, creio que todos sabemos isso. A questão está onde sempre esteve: haverá melhores alternativas? Para responder a esta pergunta (ou tentar), teremos sempre que andar para trás. A democracia não me parece estar em causa. O desespero dos que nunca se sentiram representados cria algumas ilusões sem futuro. De facto, a democracia é um conceito bastante incipiente, todavia, sem retorno.

Não estando em causa o conceito, está em causa a forma. Existem na realidade variadas formas de democracia, todas elas com qualidades e defeitos, próprio de uma criação humana. Os paradigmas vão-se sobrepondo no tempo, na politica como na ciência, com experimentação. Mas não sejamos ingénuos, o poder exerce uma força maligna, quase animal sobre quem o detém. Como podemos nós livrar-nos de um mal necessário? Não podemos. Mas podemos trabalhar para minimizá-lo, controlando-o. Algo que se diz hoje ter sido a grande falha na causa da crise económica mundial.

Como controlamos a democracia sem estarmos no poder? Com votos. De facto, temos ao nosso alcance uma ferramenta poderosa e desde sempre adormecida: o voto em branco. Temos 3 alternativas: direita, esquerda ou nenhuma. Não está em causa a democracia mas sim os governantes, os tais que estão no poder com o objectivo de alimentar o seu círculo.

A politica e os partidos deviam fazer-se representar pela elite do Pais. No entanto, os partidos fazem-se de profissionais da politica que vão subindo desde as juventudes partidárias. Eles alimentam-se da politica como único meio de sobrevivência (bastante profícuo por sinal).

Embora defenda a necessidade da elite comandar o Pais, não é menos verdade que ela própria se auto-excluiu. A causa pública tem sido uma causa perdida, sendo a causa da causa a causa em si.

Compreender, aprofundar conhecimento, ganhar consciência do problema não o resolve por si. Uma das várias razões para a situação politica actual deve-se ao financiamento partidário. Mais uma vez proponho recusar a ingenuidade. A gigantesca máquina de financiamento partidário tem como sede as Câmaras Municipais. Uma roda-viva de interesses que começam e acabam nos concursos públicos ou muitas vezes na ausência dos mesmos. Podemos ter velhas conversas relativas à construção civil, mas na verdade, essa é a vítima mais fácil, a que está mais exposta – a ponta do iceberg. Difícil era prever o aquecimento global.

De igual dificuldade é prever o futuro próximo do panorama politico português, pelo que proponho uma alternativa que enche as medidas à maioria dos portugueses: tenham fé.

Eu, como agnóstico, vou continuar a acreditar em Darwin e na sobrevivência dos mais adaptáveis em detrimento dos mais fortes…pode ser que tenhamos boas surpresas.

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