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Posts Tagged ‘perda’

Doutor

Nunca tinha ouvido falar nele.

Na verdade, achava que nunca tinha ouvido falar dele. Porque não se lembrava de ter ouvido falar dele. Ele, o génio da bola nos pés. Ele, o estudante irrepreensível. Ele, o jogador fora do comum, que jogava à bola, falava português do Brasil, fez um figurão nos mundiais de 82 e 86 e era médico. Sim, ele que tinha estudado Medicina. Quão estranho é isto de haver um jogador de futebol que, no auge da carreira nos anos 80, tinha já estudado para ser médico. Quão estranho é um Ás da bola ser médico no Brasil? Não querendo ser preconceituosa, quão improvável é haver um médico tão bom a jogar futebol que passa a ser chamado ‘doutor’ pelas receitas prescritas e pelos toques e fintas encantadores?

Por isso o doutor. Por isso a estranheza em nunca ter ouvido falar dele. Por isso, a curiosidade em ler sobre Sócrates. Sobre a carreira de um herói nacional, sobre os toques subtis na bola, sobre as opiniões de antigos colegas de equipa, sobre a vida e a carreira futebolística, sobre ele. Por tudo isso, a enorme estranheza de nunca ter ouvido falar neste médico jogador de futebol com nome de filósofo. A enorme estranheza de lhe escapar que, com uma vida tão cheia, lhe fizesse falta um bem tão precioso como o auto-controlo. Controlou os estudos, controlou a bola. Nunca soube controlar um adversário fatal chamado álcool. Daí a estranheza. Ouvir falar de uma vida tão cheia por causa de um fim tão estranho. Estranheza esta.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Sócrates, o doutor.

http://www.meutimao.com.br/materia/65471/quero_morrer_em_um_domingo_e_com_o_corinthians_campeao-socrates_em_1983

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Não se trata de ser ousado – que ousados são aqueles que desafiam todas as leis só com a força interior, sem precisarem de ratings nem de empréstimos do BCE, nem sequer de votos nos domingos eleitoriais. Não é uma questão de coragem: coragem é ir para a guerra e deixar a família em casa. Coragem é decidir continuar quando anda descalço por um caminho de brasas e pedras pontiagudas. Coragem é remar contra a maré sem saber bem para o que se vai, sabendo apenas que aquilo que há não é aquilo que se quer. Tomar medidas que arrancam críticas dos outros – dos que decidem a médio prazo mas que têm uma mui curta memória – é fácil. Tendo as costas quentes, os bancos do nosso lado a amparar-nos as quedas, um pára-quedas para uma saída de emergência e uma rede para quando o fio do equilíbrio falha é fácil de mais. Não é coragem, não é ousadia, não é personalidade. Não é sequer mérito. É só obrigação. E isso demonstra pouco da essência da palavra vida. É cobardia. Reconhecida por cobardes. Iguais a tantos outros.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Sarkozy felicita a Zapatero por sus “valientes decisiones”

http://www.elpais.com/articulo/espana/Sarkozy/felicita/Zapatero/valientes/decisiones/elpepuesp/20110203elpepunac_5/Tes

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Aqui ao lado

Muito falamos nós das festas a que vamos, do que comemos ontem naquele jantar para que fomos convidados ou das caipirinhas que bebemos na noite de Carnaval. Muito vamos nós à missa, muito nos queixamos da vida regrada, sempre igual. Muito praguejamos nós que os anos passam e nos sentimos envelhecer sem que nada façamos para poder evitar a passagem inexorável do tempo. Sem dizer até amanhã ao namorado com quem estamos chateados. Ou sem ligar à avó, que já não vemos há meses, porque saímos demasiado tarde do trabalho. Ou demasiado moídos do ginásio. Ou demasiado ocupados da vida. Dos problemas que vemos em cada esquina. Das dificuldades que se nos atravessam no caminho. Permanentemente. Sem avisar nem dat descanso. Muito nos queixamos nós da vida calma, da chuvinha irritante que nos dificulta as gargalhadas – muito mais fáceis quando o sol quentinho nos aquece a cara por mais que sejam oito da manhã e esteja frio. Pouco agradecemos por estarmos assim. Só com a chuvinha. Só com o frio suportável. Só com uma barriguinha cheia. Só com um trabalho que nos preenche. Só com o que comer. Só com uma conta bancária que nos deixa ir ao cinema. E ao teatro. E jantar com amigos. E almoçar fora de vem em quando. E comprar umas sandálias da colecção de verão (mesmo sem a chuva ainda ter dado descanso). “Só”. Só que aqui ao lado, não. É diferente. Mesmo aqui ao lado. Só isso.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da tragédia do mau tempo na Madeira:

Las unidades de rescate siguen buscando víctimas en Madeira

http://www.elmundo.es/elmundo/2010/02/21/internacional/1266764771.html

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Posso explicar-te como era dantes, mas nunca vais conseguir perceber. Porque hoje conheces os teus amigos pelas palavras que eles escrevem no teclado do trabalho. E vês como estao no ecrã no computador. Contas-lhes as novidades por telefone. E trocas ideias com os teus colegas e com os chefes por email. Agora tens um telefone que te diz a que horas acordar, que te lembra daquele medicamento que tens de tomar à hora certa. E uma lista com nomes e números aos quais podes ligar se for precisa alguma coisa. Partilhas as novidades com o mundo no Twitter, contas as pequenas e grandes conquistas no Facebook. Desejas “Feliz Natal” por sms e cantas os “Parabéns a você” por telefone. Os outros respondem com “carinhas alegres” :), tristes 😦 ou chateadas :/ . Ou remetem-se ao silêncio de quem não sabe bem o que dizer. E tu, falas, escreves, conquistas, descreves, confessas-te sem precisar de falar. Sem precisar sorrir a alguém. Sem precisar tocar na mão de alguém. Quando eu te quiser explicar como lhe acariciava a face e conseguia dizer-lhe o quanto gostava, o quanto precisava através desse toque, tu não vais perceber. Porque isso do alcance “toque” não é exprimível apenas a soletrar a palavra. Por mais que eu mastigue “t-o-q-u-e”, não vai chegar. Desculpa. Não vou perder o meu tempo a explicar-te. Encontramo-nos logo? Mostro-te como é.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito dos encontros da actualidade. Em formato digital.

http://www.elmundo.es/especiales/2010/01/4000encuentros/index.html

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Abrupto

Esperámos por ti mesmo quando ainda nem te pensávamos. Sabíamos que virias, mais dia menos dia, sem avisar. Só porque te queríamos muito. E tu vieste, e abraçámos-te tanto que às vezes até tinha medo que ficasses sem ar de tanto de apertar entre as minhas mãos que queriam amar-te mais e mais, não deixar fugir nem um segundo da tua respiração, controlar todos os teus movimentos e proteger-te de tudo e de todos. Do mal do mundo. E sempre debaixo da asa, te levei aqui e ali, te mostrei como plantar uma flor. Como cobrir os vasos com terra. Como comer com a colher. Como lavar os dentes, esfregar bem os olhos e pentear o cabelo. Ensinei-te a atar os sapatos para evitar que caísses, e a ver as horas para nunca te atrasares. Ajudei-te nos trabalhos de casa, quando te cansavas com o lápis entre os dedos que nem sabiam bem como pegar-lhe. E agora, aqui estendida, rogo pragas à médica que não quis ouvir o meu choro. Contorço-me com dores que nem se vêem, quero ter-te outra vez nos meus braços. Um corpo quente que me aqueça o coração. Quero-te aqui comigo, amor da minha vida. Tu que me foste retirado assim, abruptamente, tão cedo e sem aviso.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Gripe A (H1N1)

Menino de dez anos infectado morreu no Hospital D. Estefânia

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Nasci no centro da cidade, quando ainda os bebés nasciam nas casas dos pais e não havia médico disponível para cobrir as necessidades das altas taxas de natalidade. Os meus pais criaram-me como a todos os outros filhos. Com comida, roupa lavada, respeito e mimo suficiente para me sentir amado durante toda a vida. Conheci-me cedo, quando um dia me olhei ao espelho e percebi que a história da minha vida não me enchia, de todo, as medidas. Precisava de mais, queria mais, procurei mais. Percebi que encontrar uma profissão que me permitisse conhecer outras histórias sem viver outras vidas não era fácil. E descobri que podia ser jornalista.

Quando entrei pela primeira vez na redacção e me ofereceram uma mesa de madeira velha no canto mais afastado do director e uma máquina de escrever ferrugenta, nem pensei duas vezes. Aceitei o desafio de imediato. O salário não era brilhante, e obrigou-me a viver seis anos nos subúrbios da cidade para conseguir comer todos os dias, pelo menos uma vez. Mas a adrenalina da redacção preenchia-me tanto que havia dias que até poupava o dinheiro do café e ficava até ao fecho para poder ouvir as discussões sobre a edição seguinte. Cheguei a dormir muitas vezes em cima daquela mesa. A outra oportunidade apareceu depois, e depois e depois. Valeram os amigos que fui fazendo no meio. Sempre inspiradores. E sempre exigentes comigo. Sinto que cumpri o meu papel enquanto jornalista porque me satisfiz inteiramente com a profissão. E a paixão foi mútua.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Don Hewitt, criador do programa norte-americano “60 minutes”.

http://www.cbsnews.com/stories/1998/07/08/60minutes/bios/main13498.shtml

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Contra-relógio

Num tronco da única árvore que sobrou neste terreno infértil e seco, aponto os dias que faltam entre as vindas dos senhores bem vestidos. Vêm esporadicamente, mais ou menos quando começo a escrever a décima fila de pauzinhos no troco velho – e faminto – da tal árvore. Há pessoas aqui na aldeia que não percebem porque é que escrevo aqui na árvore. Para mim, funciona como o relógio que nunca tive. Conto as noites e os dias que faltam para a chegada da comida. Valha-nos a água do poço que abriram num dia solarengo que ficou para a história. À sede não morremos, pensámos. Antes deles chegarem, os dias pareciam todos iguais. O calor enegrece a pele e obriga os corpos a adaptarem-se a temperaturas pouco amigas da conservação da comida e da bebida. Se comer já era raro, com as grandes secas o problema tornou-se maior. Há semanas em que só há comida para as crianças e para os velhos. Os adultos, mais fortes e mais protegidos contra as doenças, têm de preparar-se para proteger o estômago que fica sem aconchego durante muitas e longas horas. E agora que penso nisso, nem sei bem o que se passa. Não sei se os corpos já se habituaram a estes repastos esporádicos que não aguentam ficar mais do que a conta sem comida. E enquanto o sol se põe e a lua desaparece, lá vou eu inscrever mais um pauzinho no tronco da velha árvore. Seca. E agarro-me à barriga que inchou estranhamente nos últimos dias. Conto os dias. Eles que cheguem, que aqui na aldeia, há muita gente a adoecer com fome. Precisamos de ajuda. Pelas minhas contas, já não falta muito.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

REPORTAJE: Intoxicación masiva

Agua que mata

En Bangladesh al menos 10 millones de personas beben agua con arsénico de los pozos que promovió la cooperación internacional

http://www.elpais.com/articulo/sociedad/Agua/mata/elpepusoc/20090802elpepisoc_2/Tes

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