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Posts Tagged ‘património’

Os passos ecoavam pelo corredor sombrio. Até o barulho era gelado, reverberando nas paredes grossas, de pedra cinzenta. Ela caminhava, de cabeça baixa, a arrastar um hábito pesado, mas que lhe valia nos dias de frio, como aquele. No Verão continuava a valer-lhe. As paredes eram tão espessas que nunca chegavam a aquecer, mesmo que o sol se esforçasse, incansável, durante os meses de Verão.

O cabelo, escondido sob o manto, era castanho, liso, sedoso. Nunca descurara o cabelo, seu precioso tesouro. O único que tinha perto. Tudo o resto deixara de fazer sentido. Deixara de existir, naquele mundo novo para o qual decidira ir. Cuidava do cabelo com o carinho imenso que tinha por todos os que deixara do lado de fora da imponente porta de madeira que há tantos anos se fechara nas suas costas. A decisão, firme, não fora por isso menos dolorosa. As mesmas paredes que lhe gelavam os ossos guardavam as angústias, a dor da separação, o sofrimento da solidão que tantas vezes se apoderara dela. E guardavam a felicidade de uma vida entregue aos outros. E a Quem realmente tudo lhe acolhera. Sempre.

As mãos, compridas, finas e brancas, anunciaram, há muitos anos, que seria uma excelente pianista. E fora. Aliás, era. Continuava a usar o piano do Convento para gáudio das suas companheiras, que ficavam à escuta sempre que viam sentar-se no pequeno tamborete. Não tinha partituras novas, mas tinha muito boa memória para ir repetindo as antigas, que tocara durante anos na casa de seus pais.

Os pretendentes, descartara-os a todos. E tinham sido vários. Encantados pela sua delicadeza, pela beleza, pela graciosidade e educação. Chocara a pequena aldeia quando anunciara a sua decisão, mas não havia nada que a pudesse fazer mudar de ideias. Era ali, naquele imponente edifício no meio das “Terras do Demo” que queria viver para sempre. Mesmo que as paredes fossem frias, o lugar amaldiçoado, e que estivesse confinada a um hábito de lã grosseira e pesado durante o resto da vida.

Chegou à capela, no fundo do comprido corredor, e abriu a porta. Sorriu ao olhar para as companheiras, alinhadas para o ensaio diário do grupo coral. Não, estas não são as “Terras do Demo”. Ou não seria possível sentir esta felicidade que teima em aumentar a cada dia que aqui passo. Lançou um olhar – que não sabia ser o último – pela janela e deliciou-se com as frondosas árvores em contraste com o céu azul daquela primavera. E continuou a sorrir. Sabendo que um dia a História ia contar a(s) sua(s) estória(s).

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

O último mosteiro de Cister vai voltar à vida

Fonte: Público

http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain.asp%3Fdt%3D20090728%26page%3D6%26c%3DC

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