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Posts Tagged ‘morte’

Da vida

Fugaz. Efémera. Curta. Imprevisível. Corre-nos por entre os dedos, com aquele ar malandro de quem pode ser controlada, mas foge-nos assim que lhe tentamos deitar a mão. Cruel. Dura. Como se nos quisesse ensinar, todos os dias, que somos mais frágeis do que nos julgamos. A tirar-nos da cabeça o complexo de Deus que tantas vezes se apodera de nós, ingénuos humanos que achamos que podemos tudo. Que sabemos tudo.

O turbilhão. As decisões que achávamos que podíamos tomar e não tomamos. A confusão na nossa cabeça, no nosso corpo. Barulho. Tanto barulho. Ao longe, ao perto, como se tentassem passar-nos uma mensagem por entre o burburinho, mas não no-la quisessem dar diretamente.

A única certeza é a de que mais tarde virá a calmaria. o silêncio. o descanso. E que tudo ficará bem.

Porque assim é a vida. Incontrolável, mas cíclica.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das contrariedades da vida

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Não era a voz. Grave, quase ligeiramente rouca. Não era a figura. Pequenina, enfezada, sem beleza alguma em particular. Nem sequer eram os olhos. Castanhos, iguais a tantos outros. Podia ser pelo sorriso. Autêntico, presente, cheio. Mas também não era.

Era todo o conjunto. Era a figura, que se transformava debaixo de uns holofotes escondidos. Era a emoção, que ainda hoje, trinta anos de silêncio depois, faz arrepiar quem a ouve a cada acorde. Era a melodia, alterada a cada espectáculo, mas sempre sem fugir do tom. Era o riso, a alegria, a cor, o movimento.

Elis era tudo e era nada. Inigualável porque genial. Deslumbrante porque modesta. Estupenda, porque sempre, a cada dia melhor.

A voz, inconfundível, única porque bem usada, calou-se há trinta anos. O génio, esse, nunca morrerá.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da celebração do 30.º aniversário da morte de Elis Regina.

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Doutor

Nunca tinha ouvido falar nele.

Na verdade, achava que nunca tinha ouvido falar dele. Porque não se lembrava de ter ouvido falar dele. Ele, o génio da bola nos pés. Ele, o estudante irrepreensível. Ele, o jogador fora do comum, que jogava à bola, falava português do Brasil, fez um figurão nos mundiais de 82 e 86 e era médico. Sim, ele que tinha estudado Medicina. Quão estranho é isto de haver um jogador de futebol que, no auge da carreira nos anos 80, tinha já estudado para ser médico. Quão estranho é um Ás da bola ser médico no Brasil? Não querendo ser preconceituosa, quão improvável é haver um médico tão bom a jogar futebol que passa a ser chamado ‘doutor’ pelas receitas prescritas e pelos toques e fintas encantadores?

Por isso o doutor. Por isso a estranheza em nunca ter ouvido falar dele. Por isso, a curiosidade em ler sobre Sócrates. Sobre a carreira de um herói nacional, sobre os toques subtis na bola, sobre as opiniões de antigos colegas de equipa, sobre a vida e a carreira futebolística, sobre ele. Por tudo isso, a enorme estranheza de nunca ter ouvido falar neste médico jogador de futebol com nome de filósofo. A enorme estranheza de lhe escapar que, com uma vida tão cheia, lhe fizesse falta um bem tão precioso como o auto-controlo. Controlou os estudos, controlou a bola. Nunca soube controlar um adversário fatal chamado álcool. Daí a estranheza. Ouvir falar de uma vida tão cheia por causa de um fim tão estranho. Estranheza esta.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Sócrates, o doutor.

http://www.meutimao.com.br/materia/65471/quero_morrer_em_um_domingo_e_com_o_corinthians_campeao-socrates_em_1983

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Sentiu as luzes nos olhos e ouviu a música a aumentar de volume. Chegara o seu momento e avançou para ele como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. Vibrou com o público, os aplausos e a garantia de ser um dos melhores. Sabia que impressionava. Com o sorriso, o corpo, a simpatia.

Agarrou-se àqueles 20 segundos como se da própria vida se tratasse. Bebeu-os coma sofreguidão de um preso que ansiava por água. E sorriu ao sentir-se no topo do mundo: todos sabiam quem era, o que queria, ao que vinha.

O mundo podia ainda não lhe pertencer, mas já estava ao alcance das suas mãos. Dos seus sonhos. Era só não o deixar fugir.

[…]

Quando entrou no táxi, o olhar vazio e nervoso, disse o primeiro local que lhe veio à cabeça. Entrou e sentou-se na sala de espera, tal como lhe indicara a enfermeira de serviço. Pelos olhos passaram em revista os últimos meses da sua vida. Tal como nos filmes, houve uma ascensão e uma queda. Se bem que a queda não fora bem queda, porque a ascensão também não fora bem uma ascensão.

Chorou, ao não se reconhecer. Ao perceber que antes mesmo de a viver, tinha conseguido destruir a vida pela qual tanto lutara. Ou tentara lutar. Agora ela jazia, tal como ele, numa qualquer sala de espera do mundo. Só que provavelmente, para sempre.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Carlos Castro encontrado morto num quarto de hotel

http://aeiou.visao.pt/carlos-castro-assassinado-num-quarto-de-hotel=f585184

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Adeus, Tuma*

Os 78 anos de Romeu Tuma lhe deram alguns cabelos brancos, rugas e uma fascinante profundidade no olhar.

Quem olha para ele não vê o político, muito menos o membro do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Vê um homem de gestos simples, bem-humorado e que invariavelmente faz refletir sobre o que o terá levado a integrar o regime ditatorial imposto pelo golpe militar de 1964, ou como ele lhe chama, o regime da “revolução”.

Como, aliás, fazem muitos daqueles que também lutaram junto dos ditadores da história.

Poderá essa vivência influenciar a forma como se faz política hoje? Foram opções conscientes e que obedeceram a crenças explícitas ou Tuma integra o grupo dos colaboradores “fordistas” – aqueles que, como autômatos, obedecem cegamente a ordens vindas de cima sem questionamento ideológico?

Interrogado sobre se se definia como político de esquerda, de direita ou de centro, Tuma responde peremptoriamente que se define “como um Brasileiro com amor à pátria”. Resposta que remete à passagem do Senador do DEM para o PTB em Setembro de 2007. Por que uma mudança tão brusca diretamente da oposição para a base do governo seria uma pergunta válida, não fora o PTB se integrar naquele grupo de partidos que não tem uma ideologia demarcada e que serve, portanto, os interesses dos candidatos que não estão dispostos a perder. A apresentação de um outro candidato para disputar a vaga do DEM no Senado levou Tuma a abandonar o partido e garantir, assim, assento na casa, pelo PTB.

A crise ideológica – bem como a sede de poder – é, aliás, uma das discussões que mais se repete ao redor do mundo, com sociólogos e cientistas políticos a falar de uma “política desideologizada”, e de uma vaga de oportunismo que surgiu e se instalou no poder político, contribuindo para a “dança das cadeiras”, comenta o sociólogo Pedro Pereira Neto. Afirma ainda que “é claro que a democracia brasileira é demasiado recente para ter ainda pacificado a memória do regime militar, e renovar a geração que fez parte desse período”, o que inevitavelmente agrava a crise de ideologias.

Especialmente quando se fala também de um país onde dificilmente alguém toma responsabilidades. Como Tuma – “Eu não trabalhei a favor da ditadura” – muitos outros deixam de lado esse tempo e preferem esquecer o que o passado teima em lembrar.

Cecília Thompson, ex-jornalista do Estado e forte opositora da ditadura à época, acredita que “realmente, os políticos que ‘serviram à ditadura’, por ideologia ou interesses pessoais, ou os que a ela ‘se dobraram’, por medo, têm não ‘alguma’ dificuldade em admiti-lo, mas não o fazem mesmo”. Cecília afirma ainda que

“muitos, hoje, ‘posam de democratas’, como o próprio [José] Sarney, Paulo Maluf, o governador de São Paulo [Paulo Egídio Martins] à época da morte do Vlado [Herzog] – e tantos, tantos outros, que ‘voam conforme o vento’, pela imensa sede de poder que têm”.

Mas e aqueles que seguiram o regime somente porque era o regime, desprovidos de qualquer informação sobre a ideologia que pregavam? O filme O Leitor, de Stephen Daldry, explora exatamente essa visão. A protagonista Hanna Schmitz alista-se nas SS, tortura, mata, e termina sua vida acreditando que até ao seu limite sempre fez o que devia, guardando as prisioneiras que lhe confiavam. Mas e a consciência de que não se está a fazer bem ao próximo? Pode ela ser controlada e portanto esquecida, ou todos os humanos, reduzidos à sua condição, sabem o que fazem?

Quando apresentada em julgamento, a defesa de Schmitz é a de que sempre cumpriu sua função para com o regime. Confrontada com os números das vítimas, reafirma a sua dedicação e o seu profissionalismo.

Pode ser Romeu Tuma – e tantos que como ele ainda hoje continuam na política – comparado a Hanna Schmitz? O senador relembra que era policial e que trabalhou em prol do bem do departamento. E garante que conduziu sempre com dignidade e respeito as pessoas que se opunham ao regime que ele servia, destacando que nenhuma análise pode fugir da análise composta, remetendo para realidades individuais.

Cecília, salientando que tem opiniões muito próprias, garante porém, que esse “recalcamento” que muitos políticos fazem do passado “contribui também para o atual estado de corrupção e falta de comprometimento”.

O que por sua vez leva à crise ideológica – Tuma também acredita que “nenhum partido tem uma ideologia totalmente definida” – ao esvaziamento das linhas condutoras dos partidos, à dificuldade em encontrar um rumo, ao não aprofundamento das raízes da ainda jovem democracia.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Morre em São Paulo o senador Romeu Tuma

http://blogs.estadao.com.br/radar-politico/2010/10/26/morre-em-sao-paulo-o-senador-romeu-tuma/

*Este texto foi escrito em 2009, no âmbito do Curso Intensivo de Jornalismo do jornal Estado de S. Paulo

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Da vida

Don’t be afraid of death so much as an inadequate life. (Bertolt Brecht)

Sentado, tentou concentrar-se nas linhas que sabia saber de cor. Olhou as mãos, trémulas como sempre, à espera de que elas aquecessem. Sabia que isso não acontecia até ao momento exato em que os seus olhos batiam no do público. Estava gelado. No corpo e na alma cansada de lutar por uma vida que quis sempre melhor.

Preciso de continuar a trabalhar para poder continuar a lutar, disse uma vez. Talvez não fossem bem estas as palavras, mas era isto que queria dizer. Mais do que um gostar, do que um sentir, do que um viver, aquela era a sua maior arma, o seu maior tesouro, a sua maior riqueza.

Incansável na sua [recente e assustadora] palidez, arrancou risos e reflexões sobre tudo e sobre nada. Sobre a vida e sobre a morte. Sobre o rir e o chorar. Sobre o ser e o tentar.

Não tinha medo da morte. De certeza que não. Tinha sim medo de ficar sem a vida. A dele e a de cada personagem que encarnou a cada palco pisado, a cada trecho ou verso ou frase percorridos. A cada abrir de pano e a cada aplauso sentido. A cada olhar e a cada sentimento sentido. O dele ou o dos outros.

Porque ele foi sempre mais do que um. Foi imensos. Que deixam vazios a multiplicar.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte do ator António Feio (1954-2010).


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Olhou pela janela como sempre fazia de madrugada. Acordara cedo, como geralmente acontecia no Verão, com os raios de sol brilhantes a despertarem a sua fome de vida!

Depois de um pequeno-almoço reforçado, decidiu que era hora de continuar. Foi até ao jardim e olhou para o mar, tão imponente, tão inspirador, tão asfixiante, às vezes.

Olhou na direcção do país que deixara há anos e que ainda hoje se rendia às suas obras, à sua inteligência de génio incompreendido por uma sociedade que o não merecia, acreditava.

Deveria ter nascido 20 anos depois do ano que o vira chegar ao mundo, pelo menos. Para que todos entendessem a dimensão daquilo que tentava mostrar por palavras tão soberbamente alinhadas.

Estava cansado. Já o dissera antes e ninguém o levava a sério – porque era um génio e aos génios ninguém leva a sério!

Continuavam a sorver-lhe o pensamento, as ideias, a arte. E ninguém acreditava em que um dia ele fosse desaparecer. Mas ele mostrou-lhes que os génios ganham quase sempre. Ele decidia quando partir, mas deixava em todos a sua marca indelével. E assim desaparecia e permanecia.

Como desejara.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte do único Nobel da Literatura portugûes, José Saramago.

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