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Posts Tagged ‘felicidade’

Todos os dias a mesma mecânica. O dia nasce mais cedo ou mais tarde consoante a estação do ano, mas nasce sempre pelas mesmas horas. No hemisfério Norte há mais frio. No Sul, mais calor. Nos cinco continentes diferem as cores, a luz, os sabores, os cheiros e as recordações. Em cada país divergem a cultura, os hábitos, as dificuldades e as especificidades de povos, mais ou menos antigo.

Queremos que todos eles tenham lugar Na Nossa Agenda. Pelos olhos de quem os visitou, de quem lhes sentiu a essência, e a tentou retratar através de uma simples lente que encerra em si os segredos do congelar de momentos. Queremos também que, em poucas palavras nos contem a História e as estórias. Porque Na Nossa Agenda cabe um mundo inteiro de sonhos, de palavras, de imagens!

Assim, a cada segunda 2ª feira de cada mês, está marcada Na Nossa Agenda uma viagem pelo mundo fora. Por diferentes caminhos, experiências e objectivos. Com novos olhares. Diferentes do nosso! Hoje, o olhar é da Jessica.

Não me consigo lembrar do que posso chamar “a primeira vez que estive em Paris”.  A primeira vez que pus o pé em França não saí do aeroporto Charles de Gaulle, no norte de Paris. Tinha acabado de chegar de um vôo de sete horas a partir de Luanda, era 2001, os “atentados” tinham acabado de acontecer e eu tinha apenas 14 anos. Apanhei o avião direcção Montpellier (sul de França) e, finalmente, não conheci Paris assim que aqui cheguei.

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Três meses depois, passei 24 horas na cidade antes de apanhar o avião. Lembro-me de ter saído e vivido mais a cidade de noite. Lembro-me das luzes. E isso vai-me sempre  ficar pela memória. Paris de noite é mesmo mágica. Tenho em mim a convicção de que toda cidade, de noite e iluminada, tem a sua magia. Mas aqui parece ter uma conotação especial. E a ideia pré-concebida de Paris e as suas luzes fica ainda mais exacerbada com a época do natal. Aquela que é chamada a avenida mais bela do mundo, Les Champs-Elysées, é investida de milhares de luzes, todos os anos durante o mês de dezembro.
Hoje, oito anos depois de ter vivido essa primeira experiência, estou impaciente por que seja dezembro de novo. Quero as luzes de novo. Se durante o dia e o ano todo amo os Champs-elysées, o amor fica ainda mais presente.
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Lembro-me, durante a minha primeira visita, de ter apanhado um taxi. E depois de ficar impressionada com as luzes, foram os túneis da cidade, as pontes e os canais. Paris é um encanto dentro de um carro. Os túneis não param, são rápidos e atravessam vários pontos centrais da cidade. Lembro-me de ter passado pelo túnel d’Alma e ter pensado na princesa Diana que lá tinha deixado a vida há apenas quatro anos. Será que até o sentimento mais macabro tinha direito à sua parte de romantismo na Cidade das Luzes?
Lembro-me de ver as pontes atravessando os canais. Lembro-me de ver o rio e dizer-me que essa cidade tinha realmente o seu encanto. Mas eu tinha um avião por apanhar e uma vida por viver em outra cidade.
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Conheci realmente Paris em Abril 2002. Passei uma semana de férias, vi a Torre Eiffel pela primeira vez (e subi-a a pé, coisa que não pretendo voltar a fazer) e vivi a cidade.
Gostava de cá vir regularmente, passei imensas férias por aqui. Mas acho que apenas aprendi a conhecer, viver e amar Paris no verão de 2006. O calor não era intenso, os turistas não eram muitos e conheci pessoas que jamais esquecerei na vida.
E tive toda a sorte do mundo e encontrei um trabalho. E depois de ter toda a sorte do mundo, tive toda a sorte do universo, encontrei rapidamente casa. E hoje faz três anos que vivo, respiro e sou Paris. Gosto de viver numa cidade pela qual eu sou realmente apaixonada, na qual sinto que conheço TODOS os segredos e recantos e ao mesmo tempo, a cada longo passeio, sinto que descubro mais e ainda mais.
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Para os turistas, Paris é a cidade das Luzes, a cidade do Amor, a cidade perfeita, a cidade mais linda do mundo. Para mim, com menos rótulos, a cidade é isso tudo. Mas ao mesmo tempo, sendo a cidade na qual moro, há o seu lado que não gosto. Há bairros que não frequento, há museus famosos nos quais nunca entrei (e talvez nunca entrarei, qui sait?) e também conheço os seus podres. Já recebi dezenas de amigos em casa, que vieram para um final de semana ou quase um mês de férias, e todos me dizem o mesmo. Como uma cidade tão linda tem habitantes tão dificeis. Se alguma vez alguém veio a Paris e se sentiu bem acolhido do início ao fim, acho que essa pessoa tem ainda mais sorte do que eu, que já sinto ter tanta.
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Os Parisienses são – realmente – difíceis. Não gostam de turistas, não gostam de sorrir na rua, não gostam de ser interrompidos na sua rotina, não gostam de pessoas que andam lentamente na rua e o sentimento piora quando alguém para na rua logo em frente para admirar um monumento ou dar uma vista de olhos no mapa.
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Mas além dos seus habitantes, dos seus “bateaux-mouche”, do seu pão tipo “baguette”, são igualmente os turistas que dão vida à cidade, que ajudam a que lado algum seja esquecido ou que as luzes não se acendam à noite. E para quem já aqui respirou um inverno, deu um beijo na rua, ouviu a guitara tocar por baixo da Torre Eiffel, enfrentou o calor do verão nos túneis de metro… todas essas pessoas já tiveram a sorte, nem que seja por um dia, de ser um feliz Parisiense.
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Os passos ecoavam pelo corredor sombrio. Até o barulho era gelado, reverberando nas paredes grossas, de pedra cinzenta. Ela caminhava, de cabeça baixa, a arrastar um hábito pesado, mas que lhe valia nos dias de frio, como aquele. No Verão continuava a valer-lhe. As paredes eram tão espessas que nunca chegavam a aquecer, mesmo que o sol se esforçasse, incansável, durante os meses de Verão.

O cabelo, escondido sob o manto, era castanho, liso, sedoso. Nunca descurara o cabelo, seu precioso tesouro. O único que tinha perto. Tudo o resto deixara de fazer sentido. Deixara de existir, naquele mundo novo para o qual decidira ir. Cuidava do cabelo com o carinho imenso que tinha por todos os que deixara do lado de fora da imponente porta de madeira que há tantos anos se fechara nas suas costas. A decisão, firme, não fora por isso menos dolorosa. As mesmas paredes que lhe gelavam os ossos guardavam as angústias, a dor da separação, o sofrimento da solidão que tantas vezes se apoderara dela. E guardavam a felicidade de uma vida entregue aos outros. E a Quem realmente tudo lhe acolhera. Sempre.

As mãos, compridas, finas e brancas, anunciaram, há muitos anos, que seria uma excelente pianista. E fora. Aliás, era. Continuava a usar o piano do Convento para gáudio das suas companheiras, que ficavam à escuta sempre que viam sentar-se no pequeno tamborete. Não tinha partituras novas, mas tinha muito boa memória para ir repetindo as antigas, que tocara durante anos na casa de seus pais.

Os pretendentes, descartara-os a todos. E tinham sido vários. Encantados pela sua delicadeza, pela beleza, pela graciosidade e educação. Chocara a pequena aldeia quando anunciara a sua decisão, mas não havia nada que a pudesse fazer mudar de ideias. Era ali, naquele imponente edifício no meio das “Terras do Demo” que queria viver para sempre. Mesmo que as paredes fossem frias, o lugar amaldiçoado, e que estivesse confinada a um hábito de lã grosseira e pesado durante o resto da vida.

Chegou à capela, no fundo do comprido corredor, e abriu a porta. Sorriu ao olhar para as companheiras, alinhadas para o ensaio diário do grupo coral. Não, estas não são as “Terras do Demo”. Ou não seria possível sentir esta felicidade que teima em aumentar a cada dia que aqui passo. Lançou um olhar – que não sabia ser o último – pela janela e deliciou-se com as frondosas árvores em contraste com o céu azul daquela primavera. E continuou a sorrir. Sabendo que um dia a História ia contar a(s) sua(s) estória(s).

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

O último mosteiro de Cister vai voltar à vida

Fonte: Público

http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain.asp%3Fdt%3D20090728%26page%3D6%26c%3DC

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A paixão. Como todos os amores, começara por uma paixão. Arrebatadora. Sincera. Cheia de receios e ao mesmo tempo com tantas certezas. Com certeza a sua vida teria sido diferente se não tivesse abandonado tudo tão rápido. Opção própria, dizia ela. Para fugir do mundo, diziam outros.

Desde cedo sabia quanto custava a vida. Quanto valia cada prato de comida e cada palavra agradável. E de repente a luz – parecia – da salvação. O amor. Como nunca antes sentira por ninguém. Do primeiro encontro a irem viver juntos foi um saltinho. Daí ao casamento foi um passo de bebé. Uma grande cidade, uma vida despreocupada e muita ingenuidade. Como sempre lhe ensinaram, fazer tudo para agradar ao marido. Estar bonita para quando ele chegar a casa, ter o almoço pronto a horas, sorrir para ele e estar sempre disponível. Ter a roupa dele arranjada. Ter a casa impecável. As empregadas sempre foram bem tratadas, embora a exigência fosse enorme. A vida girava em torno daquela casa. Se há visitas nós não saio. Nem no dia, nem no dia anterior, porque tenho que deixar tudo pronto. Até que as tarefas de casa não eram más. Mas quando a vida se reduz a elas, ninguém dá valor ao trabalho de uma dona de casa. Deixou de haver dinheiro para pagar a empregadas. Ou vontade de os gastar com elas. Iam-se revezando nas tarefas que a família tinha crescido logo depois do casamento. Mas o conto de fadas acabou. Não havia mais jóias caras, vestidos de griffe ou passeios românticos. Não havia mais um caminho a dois, programas comuns, interesses iguais. Não havia palavras ternurentas nem qualquer sinal de afecto. Agora, quase trinta anos depois, havia uma “empregada” a trabalhar para um “senhor”, subjugada por aquilo que dá tanto poder: o dinheiro. O dinheiro que permite e que proíbe. O dinheiro que controla e que brinca. O dinheiro que destrói uma família quando a sua utilização é reduzida a: eu é que o tenho, portanto eu posso e eu mando!

O dinheiro que destrói felicidades de quem não tem a força para lutar. O dinheiro que corrompe famílias porque em vez de sustentar ele cria déspotas. O dinheiro que, trinta anos depois, consegue manter viva grande parte dos ensinamento. Fazer tudo para agradar ao marido (ou pelo menos para ele não se zangar), ter o almoço pronto a horas, ter a roupa dele arranjada. Ter a casa impecável. E sorrir, mesmo quando por dentro tudo chora e pede liberdade!

Entrada na Nossa Agenda a propósito de todas as mulheres que, hoje, ainda se deixam subjugar pelos maridos e pela lida de casa. Que acreditam não ter direito à felicidade e que se resignam numa relação falaciosa.

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