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Posts Tagged ‘EUA’

Um vazio imenso. Um vazio ensurdecedor quando se olha, quando se absorve, quando realmente se tem a noção da dimensão. Um vazio quebrado – mas que não se enche – apenas por um som, constante, cheio, contínuo que se entranha na nossa pele, nos arrepios que não conseguimos deixar de ter porque finalmente se sente. É um vazio gigante, que nunca achei que fosse possível sentir. Um vazio num lugar cheio de gente, cheio da memória terrível de um dia que nunca vamos, que nunca podemos esquecer.

Sentei-me num dos poucos bancos que ali colocaram e fiquei de frente com a pequena árvore sobrevivente. Sinal de força e de resistência, com as suas folhas frágeis e os seus ramos presos por fios, porque sozinha não consegue medrar. Novamente. Pela terceira vez. E as folhas, verde claro – percebi finalmente por que o verde é cor da esperança – a mostrar que afinal a vida continua a ser possível mesmo depois de tantas mortes. Senti no coração o aperto de quem não perdeu alguém próximo mas de quem nunca conseguiu entender o que se passou. Como se tiram vidas assim, gratuitamente, sem remorsos. Senti os olhos encherem-se de lágrimas e fiquei presa a um chão que acolheu demasiados cadáveres para voltar a ser, algum dia, o que foi em tempos.

Quis ficar ali quieta, com o rosto salgado, como se conseguisse que, de alguma forma, o tempo voltasse para trás e afinal não fosse vazio o que sentia em meu redor. Para sempre.

É que, desde que se saiba (mesmo que, em linhas breves, o que se passou naquele Setembro que não foi de recomeço e que, ao mesmo tempo teve que ser) emociona pensar naquela aflição sem medida, nos gritos de horror e de medo, nos batimentos cardíacos mais acelerados e nos flashes de memória que passaram naquelas cabeças, em frente àqueles olhos fechados, a pensar na morte. Foram tantos, demasiados, os que ali ficaram para sempre, deixando a marca no país e no mundo. Há sítios que acolhem e nos marcam pela estranheza do corpo ali parado, a admirar a harmonia dos pilares da reconstrução, como se fosse só o edifício que ruiu. Mas só quem não sabe pode esquecer que, naquele onze de Setembro, ruíram ali histórias de vida que não tiveram o dia de amanhã para recuperar o tempo perdido em jornadas sem sentido.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito dos doze anos do 11/9. Que há memórias que nunca passam, por mais que passe o tempo.

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Quando ela lhes contou que, nas redacções comuns, se preparavam os obituários, eles ficaram de boca aberta. Não faziam ideia. Como raio pensavam eles que o El País preparava especiais sobre a vida de escritores, de músicos, de bailarinos e de políticos em tão pouco tempo? A redacção esquecia o resto da actualidade e punha todos os jornalistas a trabalhar, fossem que horas fossem, mal se sabia da morte de x ou de y? Pensaram duas vezes: era capaz de ser verdade. Como é que nunca tinham pensado nisso?

Organizaram uma lista: pessoas importantes, gente de quem se fala, gente que dá que falar. Gente mais desconhecida na política mas que tem uma voz activa noutros sectores da sociedade. Gente que faz rir outras pessoas. Gente que se ri de si própria. Da lista, uma pasta na rede partilhada. Obituários. Repartiram os nomes: os primeiros foram disputados por muitos, os últimos nem tanto e, por isso, repartidos irmamente pelos que tinham menos trabalhos à sua responsabilidade. Nas pastas, subpastas. Cada uma com a sua organização: vida, formação, família, trabalho, hobbies, testemunhos. Esta última, sempre vazia. Até ao dia em que, mal se sabe da notícia, as redacções fervilham e começam a ligar para todos os nomes da lista dos testemunhos a perguntar o que sentem naquela hora. A alguns, são os próprios jornalistas que dão a notícia. Já lhes aconteceu serem insultados, desligarem-lhes o telefone na cara acusando-os de insensibilidade ou ainda terem que confortar a pessoa do outro lado, entre soluções e lágrimas.  

No dia em que se soube que ela tinha morrido, deram-se conta: esqueceram-se dela. Os jornalistas dão o que falar quase todos os dias. Mas raramente falam ou escrevem sobre eles. Refizeram a lista.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Helen Thomas, primeira-dama de dez presidentes norte-americanos.

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Olhos fixos nas mãos que conhece tão bem. Há tanto anos. Enquanto esboça um sorriso sente as rugas a formarem-se nos cantos dos olhos. Cansados. Envelhecidos de tão pouco tempo que pareceu uma eternidade. Segura-lhe na mão com força e pergunta: tens a certeza de que conseguimos fazer isto novamente?

Ela olha, sorriso doce, cabelo caído como só permite na intimidade uma casa que já chamam lar: não faz sentido que o não faças. Que o não tentes. Que o não tentemos.

Lá fora ouvem-se os risos das crianças, já não tão crianças e os latidos do Boo. Ele olha em volta e respira fundo. Nas fontes, o cabelo grisalho de quem viveu para os outros quatro dos mais difíceis anos da vida de um mundo inteiro. Nem sempre com sucesso. Nem sempre tomando as melhores opções – sabe-o! -, nem sempre conseguindo fazer ouvir a sua voz no meio de um aparelho maior do que ele próprio.

Aperta aquela mão, macia, forte, que sabe sua aconteça o que acontecer. Levanta o olhar, exausto, com um último e vívido lampejo de força, de esperança, de compromisso. Sabe que não há escapatória. É o que quer fazer. É o que sente que deve fazer.

Yes, we can, diz. Yes, we can. Again!, repete. O sorriso volta-lhe ao rosto. A força ao olhar. A máquina está em movimento. Mais uma vez.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das eleições presidenciais nos EUA, em Novembro de 2012. Obama é o único candidato democrata. Os Republicanos estão em campanha para escolher o candidato que enfrentará o atual presidente na corrida à Casa Branca.

 

 

 

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Há um oceano entre nós.  Dos grandes. Séculos e séculos de tradição separam duas famílias que têm tanto de diferente no estar como na expressão dos olhos ou no tom de pele. Há séculos e séculos de História – tantas vezes cruzada, nem sempre pelos melhores motivos – que nos separam. Que nos fazem parecer estranhos quando na verdade temos tanto em comum como o cargo que ocupamos.

Ela ocupa um dos mais antigos tronos da Europa. E eu a liderança da maior economia do mundo. Ela atravessou décadas e Governos. Eu, guerras e crises. Ela mantém-se firme no seu posto como se estivesse na meia-idade. Eu tento aguentar-me, tão honradamente quanto possível, estando, precisamente, na meia-idade.

Há um oceano entre nós. E anos, muitos anos. Há experiências, diferenças, mortes, casamentos, valores, atitudes…há muita coisa que nos separa. Mas quando lhe olho nos olhos, naqueles olhos cheios de vida ainda que cansados dos anos que teimam em passar por si, sei que é muito mais aquilo que nos aproxima.

É a ela que devo a honra de ser o primeiro presidente dos EUA a discursar na sua residência oficial. De ser o primeiro presidente dos EUA a cometer gaffes com o brinde. De ser o primeiro presidente dos EUA a conhecer a sua nova família depois do casamento mais aguardado do século. De ser. E de estar.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da visita do presidente Barack Obama ao Reino Unido.

http://www.bbc.co.uk/news/uk-13537972

*A um Oceano de distância

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Ciclos

O filme passa rápido diante dos olhos. Pessoas, corredores, papéis, máquinas de escrever, computadores, um ‘chairman’, outro ‘chairman’, um presidente, mais um presidente, mais um presidente…

Das dificuldades, essas, é melhor nem falar. Mas é impossível. Passam-lhe diante dos olhos, junto com o filme. Os dias passados no gabinete com as equipas a tentar esboçar um plano de emergência. As notícias, sempre piores antes de melhorarem. A correria dos funcionários que tinham que ser sempre mais rápidos, mais eficientes, mais competentes.

Olhou em redor para as caixas cheias de memórias tão boas. A maior parte delas. As fotografias naquela, os livros a que tantas vezes recorria na outra. Os documentos que elaborou, os presentes que recebeu.

Ele era uma rocha, aqui. Uma rocha com tantos anos de trabalho quanto de vida, quase. Uma rocha que também precisa de descanso, e de ser apoiada por alguém. Porque é assim que funcionam os ciclos.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Vice Chairman Kohn to Leave Fed in June*

http://online.wsj.com/article/SB10001424052748704754604575095353771917046.html?mod=WSJEUROPE_hpp_LEFTTopWhatNews

*Vice-presidente da Reserva Federal norte-americana abandona o cargo em Junho

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Os outros

“Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.”

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os outros agiram muitas vezes por medo, outras tantas por vaidade. Vários foram corajosos, mas esqueceram o brilho no olhar. Minto. Talvez um ou outro possa rivalizar com a força que agora emanas a cada palavra proferida.

Os outros calaram-se tantas vezes quando era preciso gritar. Ficaram vozes surdas, mudas, vazias, perdidas no vendaval em que o mundo andou porque calaram. Por medo? Por coragem? Por sabedoria?

Os outros não tinham a tua presença. Nem a tua estatura. Nem a tua inteligência e a tua candura. Os outros mostravam-se altivos, tu mostras-te humilde. Os outros agiram sem ter, tantas vezes, em conta quem estava em redor; tu escutas. Os outros preferiram a fama ao trabalho. A popularidade ao efectivo. Tu preferes a justiça. E a verdade.

Os outros podem ter sido melhores e piores. Mas tu és diferente! E isso basta…

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Obama levanta la prohibición que impide la entrada en EE UU de seropositivos

La restricción fue establecida hace 22 años, en época de Reagan

 http://www.elpais.com/articulo/sociedad/Obama/levanta/prohibicion/impide/entrada/EE/UU/seropositivos/elpepusoc/20091030elpepusoc_14/Tes

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O dia amanheceu bonito. Aquele bonito outonal que faz adorar a cidade. O céu azul, o sol a brilhar intensamente, mas a brisa fresca a lembrar que pode ter mais força que o astro. As cores de Outono. Os alaranjados, cheios de força, de beleza. As árvores meio despidas, os turistas que adoram o tempo menos quente para poderem passear à vontade na cidade. As ruas começavam a encher-se de gente. As pessoas que iam trabalhar, apressadas, com as pastas a balançar e o passo apressado. As mulheres elegantes, nos seus saltos altos e elegantes fatos de trabalho. Os turistas, com os copos de papel na mão, a espalhar o agradável cheiro a café pelas largas avenidas. Vamos até ao Centro?, conversavam as famílias que não queriam nada da magia de Nova Iorque. Os monumentos, os lugares míticos, os museus, as exposições, a vida da cidade, em si, com os seus cheiros, sabores, sons e ritmos. A todos os minutos o céu enche-se de pássaros voadores. Dos vários tipos. Dos que têm penas e voam mais baixo. Dos que têm motores e voam mais alto. Todos eles encantam os transeuntes que não param de olhar para o céu! Quando ela chegou à empresa, olhou à volta e sorriu. Era engraçado como todos os dias havia algo de novo em que não reparara. Há anos que trabalhava naquele lugar, mas qualquer coisa, naquele dia ensolarado, fazia-a olhar para tudo com um olhar mais profundo, mais atento.

Saiu devagar do prédio de vinte e cinco andares, apesar do despertador não ter tocado porque a luz faltara a meio da noite. Aborrecido por não ter tido tempo de tomar banho devagar como gostava, esqueceu-se de agradecer à mãe o velho hábito de ligar todas as manhãs a saber se já estava acordado. Desde aquela manhã na universidade, quando faltou a um teste porque não ouviu o alarme, de tão sonolento que era. Saiu sério do prédio, sem o cuidado habitual com a porta, meia estragada. E nem reparou na vizinha de cima que se cruzou com ele na esquina que vira para o metro da rua perpendicular. Felizmente, nas cidades grandes, o combóio passa de cinco em cinco minutos, mais coisa menos coisa. Não poderia dar o atraso como desculpa, mas ao mesmo tempo esta margem não iria atrasá-lo ainda mais. Pôs as mãos nos bolsos e caminhou rapidamente pelo piso liso e de asfalto. Atravessou a rua, os pés rápidos e certeiros. Passou pelo café, pediu o habitual. Pegou no copo, saiu. Rotina que sabia bem, esta, de cidade grande. Ao mesmo tempo, sensações diferentes. De uma pequenez impressionante, é bom pensar que o mundo não pára quando alguém se atrasa. Embora às vezes fosse difícil lidar com a pequenez.

Por coincidência, encontraram-se os dois na entrada. A porta alta, o edifício envidraçado onde as mulheres vaidosas garantiam o visual impecável antes de entrarem – sob o olhar gozão dos seguranças que viam o retoque dos lábios e o pentear dos cabelos – deixou-a passar à sua frente. Ela inclinou a mão. “Bom dia”, segredou-lhe. Foi a última vez que se viram ali.

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