Vou levar o cinzento. Com as ‘jeans’. Tu?Tu podes levar o preto. Com as ‘jeans’ mais claras.
No meio da rua, por entre a neblina matinal e o frio, olhares entrecruzam-se na esperança de algo diferente. Uma confusão de casacos, botas, malas, cachecóis, gorros, luvas enche as ruas e torna o Inverno ainda mais…inverno.
Na calçada coleccionam-se capas de botas, pedaços de tecido, solas que não resistiram ao mau tempo ou ao uso consecutivo. Há lojas com manequins infelizes à espera que alguém entre para os despir da roupa que há tanto tempo carregam no corpo. Há montras coloridas e outras nem tanto. Funcionários entediados ou somente aborrecidos pelo dia cinzento, que não têm a certeza se preferem ter clientes a quem terão que mentir sobre a roupa que lhes fica bem; ou se preferem continuar sozinhos a pensar na monotonia da luz de Lisboa.
Quero ver aquele casaco ali, por favor.
O azul-escuro?
Sim, sim, obrigada.
Há tristeza no rosto dos transeuntes. A vida não está fácil, é certo, mas nem tudo tem que ser mau. Mas em Portugal é assim. Se tudo não está conforme queremos sai um Vai-se andando ou a vida não está para brincadeiras. Há sempre quem diga Deves pensar que eu tenho a tua vida. Tudo isto dito com um olhar carregado, as rugas da testa acentuadas, a roupa escura como o tempo e eventualmente um esgar de impaciência pelo aborrecimento que é ter que falar a alguém. Ou ver alguém.
Não quer ver o vermelho?
Mas o senhor acha que eu tenho idade para usar essas coisas?
Enquanto a porta da loja se fecha, sente o ritmo pesado da cidade. Olha à volta e pensa Sim, pelo menos a rua está de acordo com o que toda a gente sente. Ah, o nosso fado, o nosso fado. Olhe, é como diz o outro: Vamos andando, devagarinho… Os olhos pousaram em cada casaco, em cada camisola, em cada par de calças, em cada cachecol, em cada gorro. Tudo escuro. Como deve ser em tempo de contenção.
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Como se vestem os portugueses?
Fonte: Revista Pública, 28 Fevereiro
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