Quando eu nasci, a minha mãe disse-me ao ouvido que eu era o melhor do mundo dela. Que filho não o é?
Como a maioria das crianças, a minha hora favorita na escola era o recreio. Lembro-me de ir sempre com a bola nos pés, a caminho da escola. Nos primeiros dias foi difícil: o sítio onde morávamos ficava fora do centro do Funchal, e não havia estrada alcatroada. Havia muitos buracos, e o controle de uma bola de ‘séniores’ por dois pés de calçam o 29 ao longo de quase 5 Km não é o mais fácil do mundo. Só que, já nessa altura, as minhas irmãs achavam o máximo terem um puto que ‘dominava’ o esférico – como elas diziam -, a acompanhá-las no caminho para a escola. Fazia sucesso no recreio, entre os rapazes, que invejavam os toques de calcanhar e os centros certeiros para as cabeças mais bem colocadas na área. Mais tarde, comecei também a arrancar suspiros às raparigas mais novas – e era engraçado vê-las todas, lado a lado, durante os inter-turmas. Marcava imensos golos e dedicava um a cada uma das colegas de turma, que inchavam de orgulho. Não por serem colegas de um crânio dos estudos, mas do craque da escola.
Os mais velhos chamavam-me ‘Esquiva’. E continuaram a chamar, porque nem me viram crescer.
Estava frio nesse dia, e quando assim era, treinávamos no campo dos séniores, o relvado e o maior, onde corríamos até não poder mais e praticávamos a ‘resistência’. Fomos avisados antes do aquecimento que vinha um mister do continente. Não fiquei nervoso. Era pequeno demais para isso. E agora que penso nesse dia, já com alguns anos de distanciamento, acho que foi esse o segredo. O nervosismo – fui aprendendo com o tempo – só traz medo. O importante é a confiança e a responsabilidade. Só através delas podemos superar-nos.
Escolheu-me para vir com ele e treinar no Sporting. Para mim, foi a mais dura provação. Mas já nessa altura era o herói da Madeira. Sentia-me um emigrante por quem as pessoas – mais ou menos conhecidas – perguntavam, à minha mãe, ao meu pai, aos meus irmãos. Falava com eles uma vez por semana, ao Domingo, e sabia-me bem ouvir vozes conhecidas e sotaque familiar. E ajudava a passar o Domingo, dia de descanso e altura em que o resto do pessoal ia a casa, almoçar com a família.
Entretanto, tudo passou tão rapidamente que quase nem me apercebi da sucessão dos anos. Joguei em muitos clubes, com muitos treinadores, conheci muita gente, muitas cidades, mudei de casa outras tantas. E de repente, diz-me a FIFA, que sou o melhor do mundo. Agradeço. De facto, é apaixonante fazer aquilo que gosto, ganhar dinheiro a fazê-lo e ainda ser reconhecido por isso, mundialmente, e por um organismo com tamanho prestígio e história. Obrigado por isso. Mas deixem-me confessar-vos uma coisa. Cada pessoa tem um universo, um ambiente do qual faz parte. Esse núcleo duro é a minha família. E aí – para quem realmente interessa – eu sempre fui o melhor do mundo. E isso, sim, enche-me de orgulho!
Entrada Na Nossa Agenda com base no título do jornal ‘A Bola’, a propósito da eleição do português Cristiano Ronaldo como o melhor jogador do mundo, pela FIFA:
Melhor Jogador do Mundo para a FIFA
O NOVO REI É NOSSO