Tenho-o guardado dentro de uma caixa, acho que debaixo da cama. De certeza que não deitei fora essa carta. Deu-ma o meu avô que me recomendou que a guardasse, que um dia iria ver o que as coisas tinham mudado. Estava escrita ainda a tinta permanente. Uma letra perfeita, alta e fina, comprida e muitíssimo bem desenhada. Nada que se parecesse com letra de médico, que normalmente é indecifrável. Tinha sido escrita pelo meu tetravô, que tinha nascido em meados do século XIX. Contava-me o avô – coisa que provavelmente o pai lhe teria contado também – que sempre quisera ser escritor. Nutria um fascínio intrínseco por tudo o que se relacionasse com as letras, o que, entre uma família de médicos, era considerado infundado e até insultuoso. Parece que, nesse tempo, o próprio pai lhe disse que podia ler e escrever à vontade, mas ameaçou-o que, se levasse avante a ideia “perfeitamente ridícula” de se tornar um escritor diletante e preguiçoso, seria punido duramente. Não se tratava apenas de ser expulso de casa. Garantira-lhe que seria expulso da família.
Mas falava eu na carta. Era um envelope beige, já deteriorado pelo tempo, pelos anos, e pela passagem de geração em geração. Contava histórias, do fascínio pela escrita, pelas pessoas, pelos casos de sucesso que conhecia, pelo fausta da música, e das roupas. De quando as mulheres andavam com pesados e compridos vestidos, chapéus, e corpetes apertados, que lhes estreitavam a cintura. Lembro-me de uma vez ter andado a investigar esta coisa dos vestidos, de quando as pessoas tinham de andar vestidas, para se taparem, para se agasalharem no Inverno. Agora, com este calor que dizem ‘irreversível’, não precisamos sequer de uma camada de roupa. Estamos protegidos contra o frio pelo mundo. Ou totalmente à sua mercê. Já dizia a carta que um dia seria assim. E não faltava assim tanto.
Entrada Na Nossa Agenda baseada na notícia que legenda uma fotografia, no Público online:
Será para os “apanhados”, para uma campanha publicitária ou saíram de algum manicómio? Estes eram alguns dos comentários que se ouviam no metro de Lisboa enquanto um grupo de jovens, aparentemente sem qualquer relação entre si, despia as calças e ficava em cuecas…