– Olha, vês, eu bem te disse que ela não servia para isto.
– Oh, mas filho de peixe sabe nadar. Eu cá não sei o que têm contra a senhora.
– Mas se até a Europa já se manifesta. Não sei, não sei. Eles estão de fora. Se calhar distanciam-se mais do que nós.
O burburinho está em crescendo perto do quiosque. A notícia, apesar de não ser completamente inesperada, é no mínimo estranha. Afinal, praticamente nem é oficial a candidatura e já há opiniões?
Quando chega à mesa do pequeno-almoço, a empregada, impecável na sua farda preta e branca, está com um olhar tenso. Pergunta-lhe o que foi. Nada, senhora. Café? Sim, por favor. Senta-se, ainda de roupão e começa a desfolhar os jornais do dia, hábito quotidiano de tantos anos. Chega ao NYT e o olhar pára enquanto um leve rubor se espalha pela face. Continua a ler, rapidamente: “(…) na minha opinião, ela não está qualificada para a vaga da senadora Clinton”. Ela levanta os olhos para a empregada e entende-lhe o embaraço. Levanta-se rapidamente e vai até ao escritório. Precisa de falar com a sua secretária e os assessores. O que fazer? Nada? Silêncio total? Pára no corredor e fixa a imagem do pai. Sorridente, bonito, com um olhar inteligente e o bom-senso espalhado no rosto. Respira fundo e entra no escritório.
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Na redacção é convocada uma reunião geral. Geral a sério: editores, repórteres, fotógrafos, estagiários, secretárias. É preciso saber o que aconteceu e como aconteceu. Não sendo uma situação calamitosa, é suficientemente má para dar cabo do jornal se não for resolvida convenientemente. Valha-nos a confusão do Natal, foi confirmada a fonte? É preciso ligar para França e não é boa ideia demorar muito tempo. Com tanta gente com quem isto podia acontecer, porque é que aconteceu logo com ela? Porquê com ela? Tanta gente de pai desconhecido e agora temos esta bota para descalçar. Saiu-nos o tiro pela culatra e lá se foi a nossa bomba desta semana. Pior. Quando isto se souber vamos ser tratados como escumalha…e se já somos tratados bem…
Toca o telefone. A porta do edifício está repleta de pessoas que querem saber mais. Pedem explicações, amontoam-se, empurram-se, perguntam, querem saber melhor o que se passa.
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No aeroporto, aterra o avião. O ruído ensurdecedor dos pneus nem lhe abala o sono. O comprimido que tomou antes da descolagem, em Nova Iorque, foi o suficiente para uma viagem sem enjoos e sem suores frios. A hospedeira toca-lhe no braço. Mr., aterrámos em Paris, segreda-lhe. Finalmente estava de regresso. Ia rever amigos, reencontrar lugares que já tinham feito parte do seu quotidiano diário…e ia finalmente poder voltar a passear nas margens do Sena, como antigamente. Levantou-se lentamente do banco, as pernas ainda banbas de tantas horas de viagem. Au revoir, murmurou. Corre pela manga de saída e segue pelo corredor. Trouxe apenas bagagem de mão para não demorar na saída. Quer revê-la rapidamente. Ainda mais depois das reacções à notícia. Ainda nem oficializou a candidatura e já é afastada por eles. Pobre Caroline, pensa.
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Encosta-se à cadeira e recorda-o. Tens os meus olhos, dizia-lhe muitas vezes, entre sorrisos. E os olhos, são espelho da alma. Nunca te esqueças disso, ‘Carrotte’. Ali, no escritório, sabia que apesar de a notícia ainda não ter sido avançada, a informação tinha escapado por algum lugar. Poucos sabiam ainda da novidade. E ainda por cima, nem tinha contactado ninguém por causa de apoios. Que raio, pensou. Mas quem? Quem escreveria para o jornal, far-se-ia passar por Clinton para contestar a minha candidatura? Quem?
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A criada bateu à porta. O senhor John chegou. Num pulo, a pequena ‘Carrotte’ levantou-se da cadeira. Correu à sala e lá estava ele. Já não o via há tanto tempo e continuava o mesmo. Uns olhos, que tal como os dela, era espelho da alma. Iguais a si próprio. Que saudades. Que bom que estás aqui. Estava mesmo a precisar de um abraço teu.
Entrada Na Nossa Agenda sobre a notícia:
‘NYT’ admite publicação de carta falsa sobre Caroline Kennedy
No documento, o prefeito de Paris supostamente criticava a intenção de Caroline se tornar senadora nos EUA
Caroline, filha do ex-presidente John F. Kennedy, iniciou uma série de contatos para obter apoio em sua tentativa de ocupar no Senado dos Estados Unidos o cargo de Hillary Clinton, que assumirá como secretaria de Estado no futuro Governo de Barack Obama.
“Com todo o respeito e admiração que tenho por seu pai, vejo sua tentativa como de muito mau gosto (…) na minha opinião, ela não está qualificada para a vaga da senadora Clinton”, dizia a carta.
“Esta carta é falsa e não deveria ter sido publicada”, reconheceu o ‘New York Times’ em seu site, no qual explicou que o documento chegou por e-mail e que não se comprovou convenientemente sua autenticidade.
O diário afirmou ainda que vai revisar seus procedimentos internos para evitar que algo assim se repita.
Fonte: Estadão
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