Último fim-de-semana antes do Natal. Mesmo fora dos grandes centros urbanos, a agitação de Natal espalha-se através do ar. Do andar de cada transeunte que procura, apressado, as últimas prendas para alguém que ficou naquele papel esquecido em cima da mesa da entrada. Porque é que não estava na lista? Como me pude esquecer.
As pessoas não andam mais felizes. Este ano, no Natal, as pessoas andam mais tensas. Não há sorrisos nas prendas que se compra. Nas dezenas de prendas em que cada um gasta aquilo que pode e que não pode.
Este ano o Natal não está para alegrias, porque a crise não permite. Neste Natal não se celebra o nascimento do menino Jesus, ou o solstício de Inverno – que por acaso foi hoje mesmo, às 12h04 – nem sequer outra festa qualquer. Neste Natal todos se esquecem de que deveriam esquecer os tempos difíceis. Que não é preciso comprar prendas, nem sequer doces ou o que quer que seja, para alguém. Esquecem-se de que os dias continuam a ter 24horas, mesmo que todos passem os sinais vermelhos, se esqueçam de parar nas passadeiras e vão contra as pessoas com quem partilham o mesmo passeio.
Neste Natal, em que o frio está ainda mais frio, em que todos passam mais dificuldades, todos se esquecem de que a força e a coragem não está nas prendas – tantas vezes sem sentidos – que teimam em oferecer e nas quais, tantas vezes, se endividam.
Como é que eu sei isto tudo?
Porque ninguém repara em mim, que preciso de 7 segundos para dar cada passo, apoiado à minha bengala. Que não preciso de prendas mas a quem chegava um simples olhar de conforto. Um olá. Um sorriso. Eu sei porque vejo as pessoas, na sua pressa, a não serem mais felizes do que eu, que estou sozinho no meio desta rua agora deserta porque as lojas estão fechadas. Eu sei, porque durante muitos anos fiz o mesmo que todos eles Mas hoje sei que neste Natal só queria que alguém me dissesse que eu lhe fazia falta.
Entrada na Nossa Agenda sobre uma manhã de Sábado passada pelas ruas de uma vila do Oeste. Onde uns andaram mais apressados, e outros, tanto quanto os passos lho permitiram.
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