Por entre o azul e o verde ouviram-se os primeiros motores. Encostou-se à bancada da cozinha e pensou agora não tem jeito. Sabia que não poderia ter feito outra coisa, mas o medo de que a operação fosse um falhanço ainda lhe apertava o peito. Cravou as mãos marcadas pelo tempo e pelos trabalhos duros no lava-loiça. Os olhos, raiados do sangue de todos aqueles que já perdera, percorreram aquele morro onde sempre vivera.
Não tinha como não fazer o que fiz. Que Nossa Senhora Aparecida nos proteja, agora.
O barulho dos motores tornou-se mais forte e começou a ouvir as palavras de ordem gritadas pelos polícias, munidos de megafones. Viu centenas, milhares talvez a correr morro abaixo. A deixar para trás uma vida que já não lhes pertencia. Fechou os olhos e rezou.
Que seja o início de uma nova vida. Que todo o sangue tenha valido a pena. Que venha um futuro melhor.
Olhou em volta para a casa já vazia de todos os que foram partindo,levados pela droga, por gravidezes precoces, por escolhas mal feitas. Limpou as mãos ao avental e ergueu a cabeça. Estava pronta para uma nova luta, e para mostrar que ainda podia remediar algum do mal que tantos dos seus provocaram. Virou-se para o fogão e recomeçou a tarefa que deixara a meio. Sabia que no final de tudo havia quem precisasse de cuidados. Não se de alma, mas também de corpo. E ela lá estaria. A pagar a parte que lhe era devida.
Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:
Bandeiras do Brasil e do Rio hasteadas na Rocinha confirmam ocupação
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