Olhou pela janela como sempre fazia de madrugada. Acordara cedo, como geralmente acontecia no Verão, com os raios de sol brilhantes a despertarem a sua fome de vida!
Depois de um pequeno-almoço reforçado, decidiu que era hora de continuar. Foi até ao jardim e olhou para o mar, tão imponente, tão inspirador, tão asfixiante, às vezes.
Olhou na direcção do país que deixara há anos e que ainda hoje se rendia às suas obras, à sua inteligência de génio incompreendido por uma sociedade que o não merecia, acreditava.
Deveria ter nascido 20 anos depois do ano que o vira chegar ao mundo, pelo menos. Para que todos entendessem a dimensão daquilo que tentava mostrar por palavras tão soberbamente alinhadas.
Estava cansado. Já o dissera antes e ninguém o levava a sério – porque era um génio e aos génios ninguém leva a sério!
Continuavam a sorver-lhe o pensamento, as ideias, a arte. E ninguém acreditava em que um dia ele fosse desaparecer. Mas ele mostrou-lhes que os génios ganham quase sempre. Ele decidia quando partir, mas deixava em todos a sua marca indelével. E assim desaparecia e permanecia.
Como desejara.
Entrada na Nossa Agenda a propósito da morte do único Nobel da Literatura portugûes, José Saramago.
Que bonito…