Sabia aquele caminho de cor, com se tivesse vivido sempre ali. Os poucos dias que passara na enfermaria, pareciam anos de solidão. Pesados e duros. Sem ponta de solidariedade. De uma alegria fria. De uma extraordinária frieza, incontornável passagem de tempo, envelhecimento, morte. Subir as escadas pé ante pé era um tormento. Arrastava o corpo débil e cansado, dos anos exposto ao sol, tão exposto à vida. Sempre que lhe apetecia conversar, tinha de correr para ocupar um lugar na fila do telefone do piso onde dormia. Onde comia. Onde era tratado. Onde não recebia visitas.
Aquele piso era uma casa vazia, ainda que cheia de aparelhos e de zumbidos estranhos. De pequeno aparelhos com luzes azuis e verdes, sempre alerta, dia e noite. Zumbiam nos ouvidos os batimentos cardíacos dos companheiros de enfermaria que lhe ladeavam a cama. Arrastavam a voz sem forças para continuar a caminhada solitária para lado nenhum. Proíbido de receber visitas, era através do único telefone do piso interdito a todos-menos-aos-de-máscara-e-bata que ouvia as vozes familiares daqueles que haviam deixado de ser a sua família.
A família dele, agora, era a marquesa barulhenta com o resguardo branco que de tão frio no inverno, lhe gelava os ossos e lhe corroía as entranhas. A família dele agora eram os companheiros da fila para o telefone. Aqueles com quem conversava enquanto esperava, sedento, por vozes de conforto e de ânimo. Aqueles, a quem se abraçava quando a hora de regressar ao quarto chegava sem que a fila avançasse o suficiente para poder fazer a sua chamada. Eram eles que lhe ouviam as mágoas. Lhe silenciavam as lágrimas. Eles, a sua casa.
Entrada Na Nossa Agenda a propósito da reportagem do Alexandre Soares publicada no i. Pode ser lida aqui ou vista aqui.