Gosto de conduzir. Sempre gostei. Quando tirei a carta, com os 18 anos fresquinhos, já conduzia há pelo menos 4. Era o meu pai que ia comigo, muitas vezes, para o descampado onde em 98 construíram o Parque das Nações. Todos os domingos – o único dia que ele tinha livre de trabalho e de preocupações – íamos juntos dar ‘uma volta’. Parávamos logo depois da rotunda do aeroporto, ele encostava à direita e trocávamos de banco. Eu não tinha mais de 14 anos. Tenho a certeza.
Nunca gostei muito de estudar. O meu pai dizia que nem toda a gente tinha de ser ‘doutor’ e que nem achava mal que começasse a trabalhar. Eu gostava de conversar, tinha boa conversa. O meu pai sabia muita coisa e eu gostava de acompanhá-lo nos serviços mais longos, porque era nessas viagens que ouvíamos mais rádio e tínhamos tempo para divagar acerca dos assuntos da actualidade do país e do mundo. Sempre gostei muito de ler. Exigia-lhe que me comprasse os jornais diários, e devorava-os também, na viagem de autocarro casa-escola-casa. Já na altura em que os meus colegas se deliciavam com histórias aos quadradinhos, eu devorava enciclopédias. Sabia toda a História de Portugal, o nome e o cognome dos reis das quatro dinastias, as datas de início e fim das Grandes Guerras, a história da queda do muro de Berlim e as causas do crash na bolsa de Nova Iorque. Havia dias em que o meu pai, eu e um cliente mais afoito à conversa, prolongávamos o tempo entre o pagamento e a factura para trocar mais ideias sobre a Guerra do Golfo, ou debatíamos as questões que levaram ao bombardeamento de Pearl Harbour.
E quando foi altura de decidir o meu futuro, mal completei 18 anos, decidi tirar a carta e ser taxista. Conversa e condução sempre foram a minha paixão. E trabalhar durante a noite nunca foi problema para mim. Trabalho deve ser feito com paixão. Deve ser uma vida triste ter de fazer todos os dias aquilo que não se gosta. E eu sempre gostei do barulho do motor a trabalhar.
Taxistas sujeitos a «casting» nos aeroportos
Ideia vai ser apresentada ao Governo, depois de discutida com intervenientes do sector
Fonte: Agência Financeira
http://www.agenciafinanceira.iol.pt/noticia.php?id=1035819&div_id=1730