Novembro 4, 2009 por marianamatosbarbosa
Há um vazio que fica de cada vez que a porta bate ou a janela se fecha. Sinto-o aqui quando te despedes, como se fosses numa viagem de muitos e muitos meses, sem fim à vista. Como se todas as peças se encaixassem, e os narcisos que me trouxeste de manhãzinha perdessem a cor amarela canário e passassem a ser um sinal claro de despedida. Depois de fechares a porta com cuidado – enquanto eu finjo ter adormecido para não aumentar o teu sentimentos de culpa – as bolachas que me ofereceste a meio da manhã azedam o sabor doce de há horas. A música que me cantas, de melodia passa a desafinação, e o teu sorriso fica amarelo num instante, mesmo que nele me veja tantas vezes reflectida por serem tão brancos os teus dentes. Fico com as mãos frias logo que as beijas e sais, como quem diz “até ao meu regresso espero que fiques bem”. Gela-se-me o estômago de te sentir assim longe, como se o mundo não fosse pequenino, e os encontros tão inevitáveis. Fico com saudades de ti porque o teu timbre aquece a minha cabeça. E também porque quando não estás a aquecer-me as mãos geladas, estás ocupada a acender-me a lareira…
Entrada Na Nossa Agenda a propósito da reportagem “Filhos da Solidão”, da jornalista Ana Catarina Santos, da TSF.
http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/AudioeVideo.aspx?content_id=1043759
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Novembro 3, 2009 por marianamatosbarbosa
Só um espectador muito atento da própria vida conseguiria comentar com detalhe tudo aquilo que lhe aconteceu, em todos os dias. E, para isso, teria que ter muito sentido de autocrítica. Porque a veracidade dos factos dependeria do seu olhar desprendido da própria vivência. Resumir-se-ia – a vida assim contada, em páginas de um livro – a uma vida sem afectos, pela objectividade do autor. Para mim, não há vidas assim. Um dia em que não sinto, é um dia que não vivo. Sinto a água escorrer-me pelo corpo quando tomo banho, o frio nos pés quando, descalça, saio do chuveiro. Sinto o aconchego da toalha quando quando me embrulho, arrepiada. E a pele a acalmar-se pelo calor do turco. E sinto o quente das meias, que enfio dentro dos sapatos, num conforto propositado que enfrenta comigo o frio que chega dia-a-dia. De um inverno anunciado. Vivo para sentir o quanto me sabe bem o copo de água antes do leite e das torradas, e para sentir o metal frio da chave quando tranco a casa, antes de sair. Sinto o sol de inverno que assusta os olhos, e o cheiro do couro quando puxo a carteira para cima, e procuro os óculos de sol que andam há alguns dias, lá soltos. Sinto depois o conforto de um carro que cheira à minha vida, e uma música qualquer, da qual aumento o volume e canto alto, no caminho para o trabalho. Sinto o cheiro do café de manhã, e o cheiro do jornal novo que vejo rapidamente, porque o tempo é apertadinho. E vejo como todos correm como eu, à hora de almoço, quando quero sentir o coração bater mais depressa e as pernas ficarem atormentadas com os 40 quilos da prensa. E depois acelerar e abrir os vidros, e sentir o vento a secar o cabelo, e o cabelo agitar-se na cara. E sinto a mão a arrefecer, porque gosto de sentir o ar e a ponho de fora do vidro. Vivo porque converso muito, rio e refilo, todos os dias. E falo ao telefone quando não posso estar. E escrevo emails quando é caro telefonar. E escrevo postais e deixo bilhetes quando há desencontros. E, às vezes, quando não posso, culpo-me pela minha falta de tempo. E choro baixinho para nem eu ouvir. Sinto as lágrimas caírem lampeiras, e sinto a mão apressada a limpá-las. E sinto-me recompor e pensar que da próxima vez, conseguirei estar onde gostaria agora.
Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:
La vida, instrucciones de uso
Los 103 años de Francisco Ayala en sus propias palabras
http://www.elpais.com/articulo/cultura/vida/instrucciones/uso/elpepucul/20091103elpepucul_8/Tes
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O clima de desconfiança sente-se no ar. Há tensões por recolver. Há ódios de morte. No chão acumula-se o lixo junto com os sonhos desfeitos de milhares de pessoas que nem sabem bem pelo que lutam. Há uns meses eram só cidadãos de um país que pouco conheciam. De repente os seus rostos passaram a fazer parte da História. De pequenos pedaços de História que daqui a alguns anos vão estar nos manuais escolares, e que ontem e hoje fizeram as manchetes dos principais jornais em todo o mundo.
Dois homens num braço de ferro conseguiram mobilizar centenas, milhares. Dois homens que lutam, cada um por seu ideal, catapultaram para a cena internacional um cenário político que ninguém conhecia. Mas talvez tenha sido para dar voz aos mais pequenos. Aos que querem aprender com os maiores e com os melhores, mas que nunca têm oportunidade. Dois homens ocuparam embaixadas, cadeiras presidenciais e páginas de jornais e revistas. Dois homens definiram a vida de rostos desconhecidos que vão ser esquecidos em menos de 100 horas. Mas a História é assim. Cheia de voltas revoltas. E de revoluções. E de acordos. Como este. Milagroso!
Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:
Zelaya y Micheletti ponen fin a la crisis
El presidente depuesto de Honduras será restituido con la aprobación del Congreso.- El mandatario renuncia a modificar la Constitución para optar a la reelección
http://www.elpais.com/articulo/internacional/Zelaya/Micheletti/ponen/fin/crisis/elpepuint/20091030elpepuint_4/Tes
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“Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.”
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os outros agiram muitas vezes por medo, outras tantas por vaidade. Vários foram corajosos, mas esqueceram o brilho no olhar. Minto. Talvez um ou outro possa rivalizar com a força que agora emanas a cada palavra proferida.
Os outros calaram-se tantas vezes quando era preciso gritar. Ficaram vozes surdas, mudas, vazias, perdidas no vendaval em que o mundo andou porque calaram. Por medo? Por coragem? Por sabedoria?
Os outros não tinham a tua presença. Nem a tua estatura. Nem a tua inteligência e a tua candura. Os outros mostravam-se altivos, tu mostras-te humilde. Os outros agiram sem ter, tantas vezes, em conta quem estava em redor; tu escutas. Os outros preferiram a fama ao trabalho. A popularidade ao efectivo. Tu preferes a justiça. E a verdade.
Os outros podem ter sido melhores e piores. Mas tu és diferente! E isso basta…
Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:
Obama levanta la prohibición que impide la entrada en EE UU de seropositivos
La restricción fue establecida hace 22 años, en época de Reagan
http://www.elpais.com/articulo/sociedad/Obama/levanta/prohibicion/impide/entrada/EE/UU/seropositivos/elpepusoc/20091030elpepusoc_14/Tes
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Outubro 29, 2009 por marianamatosbarbosa
Esperámos por ti mesmo quando ainda nem te pensávamos. Sabíamos que virias, mais dia menos dia, sem avisar. Só porque te queríamos muito. E tu vieste, e abraçámos-te tanto que às vezes até tinha medo que ficasses sem ar de tanto de apertar entre as minhas mãos que queriam amar-te mais e mais, não deixar fugir nem um segundo da tua respiração, controlar todos os teus movimentos e proteger-te de tudo e de todos. Do mal do mundo. E sempre debaixo da asa, te levei aqui e ali, te mostrei como plantar uma flor. Como cobrir os vasos com terra. Como comer com a colher. Como lavar os dentes, esfregar bem os olhos e pentear o cabelo. Ensinei-te a atar os sapatos para evitar que caísses, e a ver as horas para nunca te atrasares. Ajudei-te nos trabalhos de casa, quando te cansavas com o lápis entre os dedos que nem sabiam bem como pegar-lhe. E agora, aqui estendida, rogo pragas à médica que não quis ouvir o meu choro. Contorço-me com dores que nem se vêem, quero ter-te outra vez nos meus braços. Um corpo quente que me aqueça o coração. Quero-te aqui comigo, amor da minha vida. Tu que me foste retirado assim, abruptamente, tão cedo e sem aviso.
Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:
Gripe A (H1N1)
Menino de dez anos infectado morreu no Hospital D. Estefânia
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