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Não era a voz. Grave, quase ligeiramente rouca. Não era a figura. Pequenina, enfezada, sem beleza alguma em particular. Nem sequer eram os olhos. Castanhos, iguais a tantos outros. Podia ser pelo sorriso. Autêntico, presente, cheio. Mas também não era.

Era todo o conjunto. Era a figura, que se transformava debaixo de uns holofotes escondidos. Era a emoção, que ainda hoje, trinta anos de silêncio depois, faz arrepiar quem a ouve a cada acorde. Era a melodia, alterada a cada espectáculo, mas sempre sem fugir do tom. Era o riso, a alegria, a cor, o movimento.

Elis era tudo e era nada. Inigualável porque genial. Deslumbrante porque modesta. Estupenda, porque sempre, a cada dia melhor.

A voz, inconfundível, única porque bem usada, calou-se há trinta anos. O génio, esse, nunca morrerá.

 

Entrada na Nossa Agenda a propósito da celebração do 30.º aniversário da morte de Elis Regina.

Olhos fixos nas mãos que conhece tão bem. Há tanto anos. Enquanto esboça um sorriso sente as rugas a formarem-se nos cantos dos olhos. Cansados. Envelhecidos de tão pouco tempo que pareceu uma eternidade. Segura-lhe na mão com força e pergunta: tens a certeza de que conseguimos fazer isto novamente?

Ela olha, sorriso doce, cabelo caído como só permite na intimidade uma casa que já chamam lar: não faz sentido que o não faças. Que o não tentes. Que o não tentemos.

Lá fora ouvem-se os risos das crianças, já não tão crianças e os latidos do Boo. Ele olha em volta e respira fundo. Nas fontes, o cabelo grisalho de quem viveu para os outros quatro dos mais difíceis anos da vida de um mundo inteiro. Nem sempre com sucesso. Nem sempre tomando as melhores opções – sabe-o! -, nem sempre conseguindo fazer ouvir a sua voz no meio de um aparelho maior do que ele próprio.

Aperta aquela mão, macia, forte, que sabe sua aconteça o que acontecer. Levanta o olhar, exausto, com um último e vívido lampejo de força, de esperança, de compromisso. Sabe que não há escapatória. É o que quer fazer. É o que sente que deve fazer.

Yes, we can, diz. Yes, we can. Again!, repete. O sorriso volta-lhe ao rosto. A força ao olhar. A máquina está em movimento. Mais uma vez.

Entrada na Nossa Agenda a propósito das eleições presidenciais nos EUA, em Novembro de 2012. Obama é o único candidato democrata. Os Republicanos estão em campanha para escolher o candidato que enfrentará o atual presidente na corrida à Casa Branca.

 

 

 

Ano Novo

Tempo. Foi a palavra do ano e temo que continuará a sê-lo em 2012. Por entre tempo – que demos, que partilhámos, que fizemos render – o tempo foi e será sempre o nosso melhor amigo. Devido ao ‘tempo’ nasceu o nome de um blogue que pouco tem estado na nossa agenda. Porque a nossa se encheu de riscos, de entrevistas, de projetos, de problemas, de soluções, de desafios que nos roubaram mais tempo do que aquele que achámos que seria necessário para fazermos a vida com que sempre sonhámos.

O tempo é caprichoso: exige-nos disponibilidade, rouba-nos liberdade, ocupa-nos os dias já atarefados e, mais do que tudo, deixa-nos pouco para pensar. É difícil gerir algo assim porque nos foge ao controlo: consentimos que nos consuma os períodos que destinámos aos amigos, à família, ao trabalho. O tempo que destinámos a nós. A estarmos connosco.


Mas foi também o tempo – escasso, precioso – que nos trouxe aqui. Que nos juntou, quatro mãos com pouco tempo e que tentam sempre roubar algum ao que ainda nos sobra. Quatro olhos que tentam ver para além dos minutos, dos segundos que teimam em passar mais depressa quando o mundo parece girar a um ritmo mais rápido do que o normal.

E apesar de o tempo não ter abundado, os nossos olhos não deixaram de passar – e de querer contar -  pela deposição e morte de alguns dos ditadores mais famosos do nosso século: Mubarak, Kadhafi, Ben Ali, Kim Jong-Il. Emocionámo-nos com as celebrações dos dez anos do 11 de Setembro. Chorámos a ausência da poderosa voz de Amy Winehouse. Lamentámos a perda da genialidade de Steve Jobs. Aplaudimos a morte de Osama Bin Laden. Mas arrepiámo-nos com os momentos desumanos que a antecederam. Cantámos – ainda que em silêncio – a voz calada de Cesária Évora. Contámos os presentes no ‘Occupy Wall Street’. Fechámos a cortina a Elizabeth Taylor. Espantámo-nos com o caso Strauss Khan, Angustiámo-nos com os tumultos em Atenas. Saímos à rua com os indignados em Lisboa. Quisemos estar na Líbia. Acenámos aos noivos reais britânicos. (E suspirámos por um amor assim.) Convidámos amigos para celebrar aniversários. Celebrámos aniversários de amigos. Demos beijinhos e abraços a quem mais gostamos e quisemos estar mais, revoltámo-nos com a ausência muitas vezes forçada e tantas vezes angustiante.

Tentámos ser, com o pouco tempo que nos sobra, um pouco do tempo que vos ocupa. Feliz Ano Novo!

Doutor

Nunca tinha ouvido falar nele.

Na verdade, achava que nunca tinha ouvido falar dele. Porque não se lembrava de ter ouvido falar dele. Ele, o génio da bola nos pés. Ele, o estudante irrepreensível. Ele, o jogador fora do comum, que jogava à bola, falava português do Brasil, fez um figurão nos mundiais de 82 e 86 e era médico. Sim, ele que tinha estudado Medicina. Quão estranho é isto de haver um jogador de futebol que, no auge da carreira nos anos 80, tinha já estudado para ser médico. Quão estranho é um Ás da bola ser médico no Brasil? Não querendo ser preconceituosa, quão improvável é haver um médico tão bom a jogar futebol que passa a ser chamado ‘doutor’ pelas receitas prescritas e pelos toques e fintas encantadores?

Por isso o doutor. Por isso a estranheza em nunca ter ouvido falar dele. Por isso, a curiosidade em ler sobre Sócrates. Sobre a carreira de um herói nacional, sobre os toques subtis na bola, sobre as opiniões de antigos colegas de equipa, sobre a vida e a carreira futebolística, sobre ele. Por tudo isso, a enorme estranheza de nunca ter ouvido falar neste médico jogador de futebol com nome de filósofo. A enorme estranheza de lhe escapar que, com uma vida tão cheia, lhe fizesse falta um bem tão precioso como o auto-controlo. Controlou os estudos, controlou a bola. Nunca soube controlar um adversário fatal chamado álcool. Daí a estranheza. Ouvir falar de uma vida tão cheia por causa de um fim tão estranho. Estranheza esta.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da morte de Sócrates, o doutor.

http://www.meutimao.com.br/materia/65471/quero_morrer_em_um_domingo_e_com_o_corinthians_campeao-socrates_em_1983

Aniversário três #5

Hoje é a nossa vez. Acaba a semana de comemorações. Obrigada. E parabéns a nós. Cá vai, pelas duas. *

Imaginámo-la primeiro, já crescida, com histórias para contar. Como aquelas caras cheias de rugas, que algumas mulheres tentam disfarçar com pó da cor da pele, aquelas cabeleiras com brancos pintados de outra cor mas onde se vê que as raízes têm anos e anos de vida. Sabes que as coisas mais bonitas são as feitas por nós? Porquê? Porque são nossas. E nós não somos como aquelas miúdas que acham que a galinha da vizinha é sempre melhor do que a delas. Porque quando nos apetece encontrar-nos, mudamos de planos, apanhamos táxis, fazemos trinta por uma linha. Saltamos entre pingos de chuva ou entre raios de sol, arranjamos desculpas por telefone e sorrimos na rapidez de um segundo – se só tivermos um para partilhar. Porque quando temos prazos que cumprir, dormimos menos, acordamos mais cedo, bebemos mais cafés, abdicamos de ler os jornais. Partilhamos trabalho em horas de jantar curtas – como todas – e vamos pela noite dentro, se preciso for. Que ela é boa conselheira e é no seu silêncio que melhor nos mexemos entre sinais de pontuação e imagens alheias. É que o mais importante é cumprir os compromissos que assumimos, aqueles que escrevemos na nossa agenda, os que sublinhamos com marcadores fluorescentes ou os que escrevemos com cores mais garridas. Aqueles que assumimos connosco e com os outros e com as estórias que nos cruzam o caminho.
Depois, criámo-la pequena, recém-nascida, sem arquivo, só com planos. Começámos com cadência certa, entre vírgulas e pontos finais, e continuámo-la sem a interferência de um oceano pelo meio. Notou-se que viajámos, que vimos outras coisas. E basta reler os primeiros textos para perceber o quanto crescemos – e como crescemos! O quanto mudámos a nossa maneira de falar, de ver as coisas, de olhar em volta, de nos relacionarmos com os outros. O mais interessante da nossa agenda – a nossa terceira agenda (cujo quarto ano inauguramos agora ) – é aquilo que ela reflecte de nós.
Dos nossos dias, da nossa falta de tempo, da nossa inspiração, na nossa vida. Dos olhares dos outros mas tanto dos nossos, da nossa correria, dos nossos pensamentos e dos nossos sorrisos (que isso é coisa que não mudou. Os sorrisos. Continuamos a sorrir como há três anos, ainda que com mais cansaço e eventualmente mais uma ou outra ruga de expressão).
É isso mesmo. Há três anos que esta agenda reflecte a nossa vida. Vivida a quatro olhos. A quatro mãos.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito do 3º aniversário.

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