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Há borboletas na barriga e ansiedade na voz. O estômago, embrulhado, pede que não lhe dê demasiado que comer. Só o suficiente para se ir aguentando. Lá fora a chuva carrega as nuvens. Cinzentas, eem frente ao sol que devia sorrir hoje. Mas casamento molhado, casamento abençoado.  Não é um casamento. É um compromisso. Mais sério do que os anteriores, talvez.

Hoje tem gosto a vitória. Pelas malas. Pelos trabalhos. Pela distância. Pelas feridas que ainda não fecharam e me fazem mais forte. Porque as vencerei.  Hoje tem gosto a ausências. De todos os que foram deixados para trás pelo sonho (once again). Hoje tem gosto a presenças. Dos que estiveram perto, daqueles com quem pude sempre contar quando tudo pareceu estar contra.

Noventa dias e trinta focas depois a vida recomeça. Hoje subo ao palco para o discurso final. Com o orgulho e a responsabilidade da missão. Com os olhares dos colegas (tantos deles amigos, já) centrados em nós. Que empunhamos as quatro páginas onde tentámos resumir o irresumível. Os olhares dos professores que tentaram mostrar-nos da forma mais fácil como a vida de jornalista pode ser difícil – mas tão compensadora.

Hoje fecha-se um ciclo. E não se pensa no que virá aí. Porque foram mais as portas que se abriram do que as janelas que se fecharam. Porque durante 90 dias tentámos, com o outro, ser mais. Hoje “é o primeiro dia do resto da minha vida”.

Hoje, a entrada na Nossa Agenda é minha. Partilhada com a Mariana. Partilhada com todos os que nos lêem, à distância de um oceano. E que eu gostava de ter aqui.

Entrada na Nossa Agenda a propósito da formatura da 20ª turma do Curso Intensivo de Jornalismo Aplicado do jornal Estado de S. Paulo. Hoje, às 18h.


É quente, aqui

É sempre a primeira vez, quando entro. Um nervoso miudinho, uma expectativa de sentir-te o calor. Como se fosses uma coisa que me é tão querida que pudesses desaparecer a qualquer momento, sem que pudesse sentir o rasto do teu caminho. Sei que o fazemos juntos. Sempre que eu quero. E sei também que, se alguma vez me faltar o chão ou o céu, posso contar com o teu realismo e com a tua omnipresença. És comigo, aquilo que eu sou. E sei que posso encontrar-te de cada vez que te procuro. És um sem fim de oportunidades. E uma oportunidade só. Não posso falhar contigo, simplesmente porque tu não falhas comigo. E isso transfere-me a responsabilidade de não te faltar. E sou – simples e somente - aquilo que somos. Porque sou feita da matéria a que alguns chamam corpo. E uma mistura daquilo que me ensinaste. E daquilo que aprendi contigo. Como se fosse eu mesma, uma mistura de corpo e alma. E de ti também.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito de todas as palavras ditas, escritas e lidas sobre Taizé. E também a propósito daquelas que nunca se poderão exprimir sobre Taizé.

http://www.youtube.com/watch?v=go1-BoDD7CI

B de beijo

Olho para ti como se fosse a primeira vez, como se não te tivesse visto já tantos dias, pensado em ti tantas horas, sonhado contigo tantas noites e acordado com a tua cara na minha cabeça, a tua voz a soar nos meus ouvidos e as tuas expressões já debaixo da minha língua. Apoderaste-te da minha alma como se fosses dono de mim, como se eu fosse uma extensão do teu sonho, do teu pensamento, da tua pele. E de repente já faço parte das tuas rotinas, da tua vida. Sem querer, transformo-me no soro que te alimenta quando não comes. Os meus braços afogam-te o corpo, como se a vida debaixo do mar fosse muito mais do que aquilo que sempre sonhaste. E tentas evitar ligar-te a outros que não a mim, com medo que me perca de amores por ti. Porque sabes que da interdependência só podem resultar beijos mais quentes. E mais sentidos. Um amor maior do que aquele que já temos. E isso a ti assusta-te mais do que a ideia de algum dia – por mais remoto que seja – poderes parar de me beijar. Que o nosso beijo, desde o primeiro dia – sabe-lo bem – é eterno. E com ele contas sempre. É como se já fosse o teu coração. Aquilo que te faz viver.

Entrada Na Nossa Agenda a propósito da notícia:

EEUU | Críticicas de los colectivos gays

Los besos sacuden la televisión de EEUU

http://www.elmundo.es/elmundo/2009/11/27/television/1259356773.html

Da Paz

O clima está tenso. E eu com tanta vontade de ir ao meu restaurante favorito. Saudades dos temperos incríveis que só naquele lugar consigo provar.

Hoje, quando ia a sair de casa reparei que estava alguém a vigiar-me. Segurei com mais força o lenço e, resolutamente, avancei. Não os posso deixar vencer. Não novamente. Fui dar uma volta, comprei o que faltava em casa e voltei. Tremi o caminho inteiro e nunca soube se era uma ou mais pessoas os meus seguidores.

Quando cheguei a casa ele estva branco, agarrado ao telefone. “Recebemos ameaças. Do governo”, disse, com a voz a sumir-se. Eu ergui a cabeça e olhei para o espaço vazio do meu troféu, recebido anos antes e confiscado há pouco tempo.

E olhei para ele, com um sorriso: “Isto será só  o começo. Nada há a temer..Apesar de tudo eu ainda acredito que a paz é possível.”

Entrada na Nossa Agenda a propósito da notícia:

Irão confisca prémio Nobel da Paz de Shirin Ebadi

http://www.publico.clix.pt/Mundo/irao-confisca-premio-nobel-da-paz-de-shirin-ebadi_1411663

Outras Agendas…I

Quando a Nossa Agenda nasceu, ela  decidiu que tinha que integrar as vossas.  Porque sem elas a Nossa não existe.  A Nossa Agenda é a agenda de todos. Pelo menos é isso que pretendemos. Que a Nossa faça parte da vossa e vice-versa. E porque todos os assunto são importantes, todos os momentos de todas as pessoas podem ter lugar na Nossa Agenda. Porque é de outras que se faz a nossa. Porque é de momentos que se constroem agendas. Por isso, à 4.ª quarta-feira de cada mês, a Nossa Agenda partilha as de pessoas que, com o seu trabalho e presença, fazem parte das Agendas do mundo.

Hoje é a vez do Tiago Fleming Outeiro.

 

Estive recentemente em Pequim, no VI Congresso sobre Sinucleinopatias, doenças que incluem a bem conhecida doença de Parkinson. O congresso reuniu alguns dos maiores especialistas desta área, e permitiu a troca de informação entre todos, o que é sempre importante para que possamos avançar na investigação em direcção à tão almejada cura para esta terrível doença neurodegenerativa.

Foi a primeira vez que estive na China, e confesso que não sabia bem o que iria ver. Mas fiquei completamente rendido ao poderio social e económico, em que o capitalismo está bem disfarçado pelo comunismo mas onde a riqueza se distingue bem da pobreza.

As ruas largas, intermináveis, os edíficios imponentes e modernos salpicados de outros seculares, os monumentos impondo respeito… o trânsito caótico preenchia as mais largas artérias da cidade, o número de bicicletas e ciclistas no seu desfile interminável… a dimensão e extensão da Grande Muralha da China e das suas íngremes subidas e descidas… tudo era grande por lá! Mas não era só grande! Era bem feito! O melhor exemplo desta idea foi a zona dos Jogos Olímpicos de 2008, qual Parque das Nações para “gente grande. A zona é bastante mais ampla, mais airosa, e mais impressionante! Mas não tem o Tejo nem a sua brisa, é verdade. Sou um leigo em engenharia, mas os edifícios que vi na televisão, na altura dos jogos, pareceram-me ainda mais espectaculares. Os estádios, as piscinas, os hotéis… até o metro, de uma modernidade ímpar, nos deixou impressionados! Temi que nos fôssemos sentir perdidos, mas o Inglês já é uma presença comum na sinalização das paragens. Facilmente nos deslocámos e chegámos ao nosso destino.

Mas grande era também o grau de poluição, que cobria o sol de uma névoa artificial, criando uma luminosidade incomodativa, e não permitindo apreciar a extensão da cidade.

Tiananmen é impressionante, imponente! Mao olha-nos desde uma enorme parede vermelha, que encerra a cidade proibida, onde os imperadores viveram ao longo de vários séculos. Mais de 8000 quartos e 999 edifícios assistiram ao poder, talvez desmesurado, de figuras ímpares da história. Homens que, apesar de terem apenas uma esposa oficial, chegavam a ter 3000 concubinas! Até estes números impressionam o mais viril dos machos latinos!

Nas ruas, os cheiros, os sons, os paladares, cruzam-se e misturam-se numa combinação ímpar. As espetadas de escorpiões, de bichos da seda, ou de estrelas do mar, ou talvez de carne de crocodilo, lembram-nos das “ligeiras” diferenças gastronómicas. Confesso que não fui capaz de experimentar estas iguarias… não fui suficientemente audaz, e limitei-me a experimentar um estufado com carne de burro.

A Muralha da China, ou melhor, a pequena parte que conseguimos observar da muralha, deixou-nos estafados! Subidas e descidas quase a pique, degraus e mais degraus… foi fácil perceber as dificuldades na sua construção pela dureza dos números: 50 vidas por cada 100 metros de muralha construida – este foi o custo humano por tão impressionante construção.

Este ano tive a oportunidade de visitar dois continentes que não conhecia, e que são radicalmente diferentes: a América do Sul, e a Ásia. Estive num ambiente natural, quase selvagem  (Equador e Galápagos), e noutro bem mais artificial, e humanizado. Mas posso dizer que a China me impressionou pela dimensão, e também pela ciência, da mais alta qualidade, e suportada por um poderio económico que os está a fazer crescer a passos largos! É mesmo um mundo do outro lado do mundo que me fez ficar de “olhos em bico”!

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